A última vez que ouvimos falar no Power Mac G4 Cube – um computador que muitos amaram, mas poucos conseguiram entendê-lo – foi em um press release em 2001. Doze anos depois, finalmente encontramos seu belo sucessor, brilhante e não muito são.

Em julho de 2001, o futuro do Cube não estava totalmente claro. Em um press release, a Apple explicava a situação:



“A Apple® anuncia hoje que vai suspender a produção do Power Mac™ G4 indefinidamente. A empresa diz que há uma pequena chance de reintroduzir um modelo de atualização do computador único no futuro, mas não há planos de fazer isso no momento.

‘Donos do Cube amam o Cube, mas muitos consumidores preferiram comprar nossas minitorres poderosas Power Mac G4 no lugar’, explicou Philip Schiller, vice-presidente de marketing de produtos da Apple.

E com isso, a Apple matou um dos computadores pessoais mais inovadores que ela criou. Posicionado entre os iMac de entrada e os Power Mac high-end, o Cube era caro demais para consumidores e não expansível o suficiente para profissionais. Ainda assim, muitos o amavam porque ele era sensacional. E assim, pelos últimos 12 anos, confiamos na “pequena chance” da Apple reintroduzir o Cube, esperando que um dia, o conceito do produto finalmente fizesse sentido.

Este dia foi ontem.

O conceito

Na semana passada, escrevi sobre o futuro do Mac Pro, uma máquina que resistiu ao tempo e se tornou lentamente o produto mais anacrônico das ofertas de hardware da Apple. Como eu disse, a Apple tinha quatro opções: matar o Mac Pro, dar ao modelo atual do Mac Pro uma boa turbinada nas especificações, evoluir o design, ou mudar completamente o jogo.

A Apple obviamente foi na quarta direção. É importante considerar por que eles escolheram esse caminho em vez dos outros. Revoluções bem sucedidas de arquétipos de produtos ocorrem quando uma equipe percebe que a tecnologia avançou muito ou foi substituída. Isso foi o que aconteceu com o iPhone. Todas as empresas do mundo tinham designs com touchscreen que nunca foram lançados; a Apple, no entanto, foi a primeira a perceber que as touchscreens poderiam ajudar na produção e na usabilidade. Em casos como este, compensa ser o primeiro a descobrir e aproveitar a oportunidade. Normalmente, coloca você anos a frente da competição, que está presa fazendo produtos da maneira antiga.

Ao mesmo tempo, algumas vezes o arquétipo é muito avançado para a tecnologia disponível. Por exemplo, Alan Kay teve a ideia de um dispositivo fino com um teclado que poderia ser carregado para todos os lados como um livro durante os anos 1970. Mas só durante os anos 90 a tecnologia de computação se aproximou da ideia que ele tinha em mente, e só em 2010 que os tablets se tornaram reais. Você não pode forçar uma ideia se não tiver tecnologia para ela.

O conceito do novo Mac Pro é similar ao do antigo Cube: um PC poderoso que é bem pequeno e atualizável externamente. O conceito não era viável em 2000, quando tínhamos portas I/O FireWire 500 e USB 1.1. Avançamos para 2013, e a tecnologia alcançou o arquétipo. Agora temos Thunderbolt 2, 802.11ac e USB 3, sem mencionar opções de armazenamento na nuvem. As limitações de expansão se foram.

Para simplificar, chegamos ao ponto em que as partes internas de um PC torre limita a atualização mais do que as partes externas. Alguns usuários vão sentir falta de mídia ótica e slots de cartão PCI – como usuários sentiram falta de SCSI e disquetes no passado – mas o que a maioria do que é adicionado a um computador atualmente é feito externamente.

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O design

Deixe-me dizer algo sobre o Mac Pro: este tipo de design só pode ser produzido por uma empresa que é, em primeiro lugar, liderada por uma equipe de design industrial. E, em segundo lugar, que é completamente maluca. Nenhum engenheiro são permitira isso sair do estágio de design porque isso vai contra tudo o que você supostamente faz com eletrônicos. Você deve colocar placas paralelas às outras para aumentar a eficiência de espaço. Você deve ter portas I/O ligadas à placa em paralelo, não perpendicularmente. Você deve criar algo que lembra uma caixa, porque é a forma mais fácil e eficiente de produzir um dispositivo.

Para criar algo que parece assim no seu exterior, você precisa começar com a parte interior. Como no Cube, o novo Mac Pro foi projetado ao redor de um núcleo térmico que puxa o ar do fundo para o topo da máquina. Diferentemente do Cube, que se apoiava no resfriamento por convecção, o Pro tem uma ventoinha localizada no topo da máquina para acelerar a movimentação do ar por ele. A Apple está usando alguns dos mesmos truques usados no MacBook Pro Retina para garantir que a ventoinha funcione o mais silenciosamente possível.

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O núcleo térmico triangular é uma peça única de alumínio extrudido que foi maquinado e anodizado em preto para agir como um grande dissipador de calor. O processo de extrudir alumínio é muito parecido com aquele esmagador de massinhas da Play-Doh que usávamos na infância, exceto que você está usando alumínio, e não massinha. Grandes pedaços sólidos de alumínio são aquecidos em um forno e em seguida forçados através de um pequeno molde. O núcleo triangular sai da extrusora como um grande tubo. Eis um vídeo demonstrando o processo:

Após o tubo ser resfriado, ele é cortado em pequenos pedaços e então passa por uma série de operações secundárias de maquinação, criando equipamentos de montagem para outras partes serem colocadas diretamente ao núcleo. Aí reside a beleza do design do núcleo térmico. Ele não se limita a agir como uma câmara de resfriamento, ele também fornece estrutura para todo o dispositivo. Todos os componentes ligados diretamente ao núcleo – placas, ventoinha, a base, e outros. É uma extensão da filosofia de corpo único da Apple: muitas partes são substituídas por uma muito bem projetada. Isso permite que a Apple reduza a complexidade e invista dinheiro na criação de partes remanescentes com muito mais qualidade.

A caixa externa é feita por meio de um processo chamado extrusão de impacto, mostrado no vídeo acima. Este processo costuma ser usado para fazer produtos como garrafas d’água usada por atletas. Um disco sólido de alumínio é colocado dentro da máquina, e então golpeado para pegar a sua forma rapidamente. Depois deste passo, a peça passa por uma série de operações secundárias que cortam os buracos para as entradas e adicionam o chanfro polido que agora é marca registrada da Apple. A peça então é polida, criando um acabamento preto espelhado.

Aqui, novamente, a Apple escolheu a parte mais complicada. Um acabamento fosco tópico – como o que você vê na traseira do iPhone 5 – esconde imperfeições na superfície. Polimento torna as imperfeições mais visíveis. Basicamente, a Apple precisa disso para conseguir a parte externa absolutamente perfeita antes que ela seja polida.

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Pequenos detalhes que me chamaram a atenção

  • A posição do botão de ligar pode ser problemática: Muitas pessoas provavelmente deixarão os Mac Pros nas mesas agora que eles são tão pequenos, mas ninguém vai conseguir escondê-lo debaixo da mesa agora que o botão power está escondido no meio das portas pretas. Claro, por que você esconderia algo que é tão bonito? Mas ainda assim é um incômodo. Outro ponto – como a parte externa é tão polida, você vai deixar um monte de marcas de dedos no case quando sair caçando o botão. Uma solução possível: e se o topo do núcleo térmico, dentro da proteção externa onde acho que as antenas estão posicionadas, fosse um grande botão power? Estaria escondido, e seria uma forma legal de interagir com a máquina.
  • Preto: Tudo – as placas, a estrutura de alumínio – é preto. Parece sinistro. De uma forma boa.
  • Portas iluminadas: as portas na parte de trás são retroiluminadas quando você gira a máquina para plugar um novo dispositivo.
  • Chanfro polido: o detalhe que foi primeiramente visto no iPhone 5 e depois propagou para os iPods e iPad Mini aparece aqui também. Este é tipicamente um processo caro, mas a Apple sempre consegue fazer por causa de economia de escala. Se você usa um processo caro em toda a sua linha de produtos e faz milhões de produtos, você vai diminuir bastante os custos. Esteticamente, eu gosto muito mais no Mac Pro do que em outros produtos da Apple. No Pro é um detalhe legal que faz você querer ver tudo sobre ele. Em produtos como o iPhone 5, acho que é um pouco perturbador.
  • Antenas: depois de tentar descobrir como a Apple estava enviando sinais Wi-Fi e Bluetooth através de todo o case de metal, acho que descobri a resposta. As antenas parecem estar posicionadas no topo do Mac pro, dentro da abertura do núcleo térmico. É provável que a cúpula que cobre o motor do ventilador seja de um material que permite a passagem de sinais através dele. Como vidro ou plástico.
  • Montado nos Estados Unidos: para conseguir isso, você precisa modificar significativamente os componentes para fazer o produto chegar ao seu estado final. Você não pode simplesmente despachar para os Estados Unidos, colocar em uma caixa e grudar um adesivo “Montado nos EUA” nele. Se tivesse que adivinhar, diria que os eletrônicos são feitos longe, enquanto a montagem do produto e embalamento são feitos nos Estados Unidos.
  • Além do desktop: Você consegue imaginar como seria animal uma sala cheia de servidores como esse? Se eu tivesse que projetar um data center eu daria um jeito de colocar Mac Pros como as torres de Matrix.

Eu me animei muito com o Mac Pro. O pensamento conceitual por trás do dispositivo é igualado pela execução do design. Se a Apple lançar o produto ainda no final deste ano, como prometeu ontem, este é o mais próximo da perfeição que você conseguirá em um computador de mesa profissional em 2013.

Ao olhar para esta máquina, conseguimos entender uma coisa que Phil Schiller disse no palco ontem. “Não posso inovar mais é o cac***”, ele disse, literalmente perdendo a linha por um tempo e procurando briga. Se você ouvir novamente a apresentação, dá para praticamente ouvir a adrenalina em sua voz quando ele respondeu a questão de que a Apple estaria perdendo seu toque especial de frente para seus críticos. Esta máquina é fantástica. E a Apple ainda consegue fazer isso.