Não há uma solução única ou política que nos faça superar esta pandemia do coronavírus, mas há uma coisa que todas as pessoas deveriam fazer, se possível, que é usar uma máscara facial sempre que você provavelmente entrará em contato com outras pessoas.

Por que não era recomendado usar máscara facial antes

Logo quando começaram os primeiros casos de COVID-19 na China e em outros lugares em janeiro, as pessoas estavam compreensivelmente curiosas sobre a utilidade das máscaras faciais para tentar interromper a propagação do vírus. Escrevendo sobre este assunto no fim de janeiro, tentei ser o mais preciso possível ao abordar a questão, dadas as evidências disponíveis e o consenso de saúde pública na época.

Notei que havia evidências sólidas de máscaras faciais ajudando a parar a propagação de gripe, mas evidências mistas quando se tratava de coronavírus como o SARS — um parente próximo por trás do COVID-19, conhecido como SARS-CoV-2.

Máscaras respiratórias como a N95 podem filtrar germes respiráveis, mas têm desvantagens, ou seja, são difíceis de usar por muito tempo e não são bem adaptadas para pessoas com pelos faciais e crianças pequenas. Estas são as máscaras que as pessoas saudáveis deveriam usar para evitar pegar uma doença. As máscaras cirúrgicas, do tipo que você vê normalmente no hospital, são mais fáceis de usar, mas são normalmente usadas por pessoas doentes, num esforço para evitar infectar os outros.

Por fim, tanto eu quanto a maioria dos especialistas com quem falei na época concordamos que máscaras faciais eram melhores do que nada. Dito isto, também argumentei erroneamente que o vírus era uma ameaça “em grande parte abstrata” às pessoas, com base no pequeno número de casos relatados em janeiro, a maioria ligada a viagens. Os cientistas agora pensam que o vírus já está circulando localmente por vários países e, desde então, os resultados relatados pelos governos também concluíram o mesmo.

No entanto, algumas autoridades de saúde (e meios de comunicação) assumiram uma postura mais cética. Passaram a não recomendar a compra e o uso de máscaras pelo público em geral, especialmente se não estivessem com sintomas.

Recentemente, no início de março, o chefe de saúde pública dos EUA, Jerome Adams, advertiu que o uso de máscaras poderia realmente aumentar o risco de contrair o vírus. Além desses avisos, eles também sustentaram que as máscaras estavam em falta para os profissionais de saúde que mais precisavam delas por causa da possível acumulação de público nos hospitais — uma mensagem que parece contraditória atualmente.

É certamente possível que essas autoridades tenham mentido cinicamente ao público sobre a utilidade das máscaras, na esperança de preservar a oferta para os profissionais de saúde. Mas também é verdade que algumas suposições relevantes sobre o vírus mudaram ao longo dos meses.

A importância da máscara em tempos de pandemia

Agora sabemos que o vírus pode se espalhar antes das pessoas começarem a se sentir doentes e pode até se espalhar de pessoas que nunca sentiram os sintomas da doença. Então, simplesmente se sentir mal não é uma garantia que você não seja contagioso. Se as pessoas podem ser contagiosas sem saber, então faz sentido que todos usem uma máscara, quer se sintam doentes ou não.

Estamos também obtendo mais evidências dos benefícios do uso da máscara. Locais cujos governos incentivaram o uso de máscaras desde cedo em seus respectivos surtos, como Taiwan e Coréia do Sul, têm lidado com o novo coronavírus de forma consistente, melhor do que outros países, com menos casos relatados. Pesquisas publicadas nesta sexta-feira (3) na Nature Medicine encontraram evidências no laboratório utilizando voluntários humanos que máscaras faciais podem reduzir a transmissão de gripe e coronavírus sazonais.

Essas evidências têm suas advertências, como qualquer outra coisa. Todos na Coreia do Sul podem agora facilmente usar máscaras, porque seu governo rapidamente mobilizou seus recursos e poder sobre empresas privadas para produzí-las em massa. Essa mesma urgência também levou ao extenso teste de sua população e ao agressivo rastreamento e isolamento dos casos antes que eles saíssem do controle (um sistema de saúde universal estabelecido também ajudou). Contraste isso com o de algumas autoridades nos EUA e no Brasil que minimizou o problema, chamando o problema de “gripezinha”, sem fazer o suficiente para aumentar a capacidade de testes nos países.

Neste sentido, pode ser que o uso universal da máscara seja mais um sinal da forte resposta ao coronavírus do que uma das principais causas de seu sucesso. Mas as evidências que temos apoiam o uso de uma máscara em público, quer você esteja doente ou não. Você ainda deve evitar tocar seu rosto, lavar ou higienizar as mãos com frequência e, é claro, ficar em casa o máximo possível.

As pessoas têm compartilhado instruções de como fazer sua próprias máscaras e reutilizá-las com segurança (empresas e hospitais também estão desenvolvendo maneiras de reutilizar e esterilizar as máscaras existentes). E há pesquisas sugerindo que mesmo máscaras feitas com algum tecido de algodão, como de uma camiseta velha, oferecem alguma proteção contra vírus respiratórios, embora em menor extensão que as máscaras cirúrgicas.

Durante a tarde desta sexta-feira (3), o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA) passou a recomendar oficialmente a usar máscaras em público, embora ele disse que não planejava usar uma.

Então, não seja como Trump; vista uma máscara quando precisar de casa para ajudar a reduzir a disseminação do vírus.