Os humanos modernos pertencem à espécie Homo sapiens. Ainda assim, isso não significa que somos idênticos. Ao sermos separados em diferentes blocos de terra, acabamos desenvolvemos diferentes dialetos. Este texto, por exemplo, está escrito em português, enquanto a pesquisa original sobre a qual falaremos foi redigida em inglês. Há países com várias línguas oficiais — sem falar nos idiomas locais menos falados.

Dito tudo isso, vamos ao tema em questão: pássaros.

Mais especificamente, os pássaros da espécie Cinnyris mediocris, que vivem nas chamadas “ilhas do céu” na África Oriental. Essas ilhas são, na verdade, topos de montanhas tão isolados que acabam com um ecossistema único e extremamente diferente daquele encontrado em sua base. 

E o que tudo isso tem a ver com a história dos dialetos?

Para começar, os pássaros também se comunicam, mas através do canto.

A diferença é que, ao contrário dos humanos, alguns deles podem manter exatamente o mesmo dialeto mesmo habitando regiões bastante diferentes. E mais: essa linguagem parece ter se mantido inalterada por 500 mil anos – e até por 1 milhão de anos em alguns casos. Pelo menos, é o que mostra um estudo recém publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B.

Se você não entende muito sobre aves, isso até pode parecer meio óbvio. Afinal, os humanos são seres racionais e faz mais sentido para a nossa espécie ter diferentes línguas. Mas não é bem assim.

Estudos envolvendo pássaros do Hemisfério Norte já mostraram que estes animais tiveram seus cantos mudados por influência de mudanças nas condições ambientais. À medida em que o clima esquentava e esfriava, suas plumagens, épocas de acasalamento, cantos etc também eram alterados. 

Mas os pássaros da espécie Cinnyris mediocris não funcionavam do mesmo jeito. Cientistas da Universidade da Califórnia em Berkeley e da Universidade Estadual de Missouri, ambas americanas, passaram quatro anos estudando seis diferentes linhagens deste animal.

Cada grupo vivia em uma localidade, mas o canto e até mesmo a plumagem eram praticamente os mesmos. Curiosamente, análises genéticas mostraram que duas populações que haviam sido separadas há mais tempo na linhagem evolutiva possuíam canções quase idênticas. Já outras, que foram separadas em um período mais curto, apresentavam maiores diferenças na melodia.

Lembra que as aves do Hemisfério Norte acabaram mudando bastante por causa de alterações climáticas? Então, o topo das montanhas africanas parece ter passado por menos mudanças geológicas. Sendo assim, a espécie também acabou não mudando seu fenótipo ou comportamento. 

Há ainda um segundo fator que contribui para isso. Os pássaros podem evitar acasalar com outros indivíduos que não cantam a mesma música que eles. Essa é uma barreira pré-acasalamento que evita o surgimento de novas espécies e pode ter contribuído na manutenção do dialeto animal inalterado.