Em junho de 2009, o Airbus A330 que fazia o voo 447 da Air France, de Rio de Janeiro a Paris, desapareceu e caiu no Oceano Atlântico, quase no meio do caminho entre a América do Sul e a África, em um acidente que tirou as vidas de cada uma das mais de 200 pessoas a bordo, entre passageiros e tripulação. Esta semana, quase dois anos depois, a caixa preta foi encontrada no fundo na imensidão do mar, numa profundidade onde a luz mal chega. Como?

Uma agulha num palheiro de tamanho oceânico

Você deve lembrar, em 2009, quando as buscas por destroços, sobreviventes e pela caixa preta do Voo 447 tomaram os noticiários, tanto do Brasil e da França quanto do mundo – a queda havia sido o pior acidente da história da Air France e da história da aviação francesa, assim como o mais mortal acidente da aviação comercial mundial desde o voo 587 da American Airlines, que, em 2001, caiu logo depois da decolagem em Nova York, matando 260 pessoas.

As buscas foram um esforço conjunto entre Brasil e França, com a ajuda dos Estados Unidos e outros países da Europa, utilizando diversos tipos de embarcações e aeronaves, mas somente cerca de 50 corpos e alguns pedaços da fuselagem foram encontrados. As buscas pela caixa preta envolveram o uso de submarinos e sensores acústicos que foram mergulhados no oceano e ficaram na escuta por qualquer sinal de áudio emitido a até 6100 metros de profundidade.

Ainda assim, quase nada foi encontrado. Nem caixa preta, nem boa parte dos destroços e corpos.

Em questão de dias, as notícias sobre as buscas cessaram.

Até esta semana, exatamente 23 meses depois, quando uma equipe francesa noticiou que a caixa preta com os registros em áudio dos últimos momentos do voo 447 foi encontrada, assim como mais uma parte da fuselagem, mergulhada pacificamente no leito do oceano, abrigando mais algumas dezenas de corpos das vítimas.

Água mole em pedra dura

Apesar de ter saído do noticiário, a operação de busca pela caixa preta continuou durante todo este tempo. A equipe que finalmente localizou o equipamento, chefiada por Mike Purcell, do Instituto Oceanográfico Woods Hole, foi a quarta equipe enviada para dar continuidade às buscas. Apesar do interesse francês em recuperar as evidências para poder determinar com exatidão as causas do acidente, esta equipe sabia que seria provavelmente a última, mesmo que não encontrasse nada.

A equipe do Woods Hole utilizou submarinos não-tripulados para realizar as buscas. Os avançados submarinos são do modelo Remus 6000, que trabalham navegando os oceanos através de um caminho pré-determinado por até 20 horas antes de retornarem à embarcação de onde foram enviados, para que seus dados coletados sejam extraídos, lidos e analisados, no menor tempo possível, para que o submarino volte ao trabalho imediatamente em uma nova rota.

Em entrevista ao Boing Boing, Purcell explicou o seu funcionamento:

Nós recebemos atualizações de status – mensagens acústicas que chegam periodicamente e nos dizem a profundidade, latitude e longitude do submarino, apenas uma verificação para saber se há algum problema. Quando o AUV volta, leva 45 minutos para fazer o download dos dados e mais meia hora para processar e dar uma boa olhada neles. Durante este tempo, a outra equipe está trocando a bateria e preparando o veículo para voltar ao oceano. O ideal é que o veículo fique fora da água apenas por três horas, enquanto alguém está olhando para os dados para decidir para onde conduzir a busca depois, e se há coisas que queremos dar uma segunda olhada. Quando estamos usando três veículos, fazemos isso três vezes por dia.

O que temos são imagens dos dados acústicos. O veículo envia um ping acústico por segundo, que se espalha por 700 metros para cada lado dele. Isso é registrado e transformado em uma imagem bastante abstrata.

No entanto, por melhor que fosse o desempenho e a capacidade do Remus 6000, Purcell admite que boa parte do crédito vai para a boa e velha persistência:

Muitas pessoas poderiam ter encontrado os destroços onde eles estavam, com outros tipos de veículos, ou mesmo sistemas rebocados. Mas quando se analisa a situação inteira, o tamanho da área que teve que ser vasculhada, o Remus era a melhor ferramenta para trabalhar naquele terreno. Além do fato de que tínhamos três deles trabalhando sem parar. Isso simplesmente aumentou a nossa eficiência de busca. Tanto veículo quanto as pessoas aqui, tocando a operação, foram fatores.

Caixas pretas: hora de se atualizarem?

Esta longa, e por muito tempo infrutífera, busca pelos restos do A330 da Air France, provocou uma muito bem vinda discussão a respeito da eficiência das caixas pretas como método de verificação de causas de acidentes.

Apesar de toda tecnologia de ponta empregada em uma aeronave comercial, a caixa preta em si é algo um tanto arcaico, praticamente inalterada nas últimas décadas. Trata-se simplesmente de um gravador de áudio e/ou imagens e dados, cujas duas únicas funções são guardar uma cópia dos últimos momentos de uma aeronave e sobreviver a qualquer tipo de acidente.

De uma extensa e ótima matéria do New York Times sobre o caso:

“É ridículo”, diz Peter Goelz. “Não há absolutamente nenhum motivo para não usar streaming ao vivo para estes dados”. Como diretor do Conselho Nacional de Segurança dos Transportes no final dos anos 90, Goelz viu muitos acidentes. Mas o desaparecimento do Voo 447 o irritou particularmente. O fato de que, em uma era de tecnologia wireless em que os próprios passageiros de alguns aviões podem navegar na Internet, as informações mais valiosas sobre um voo ainda são armazenadas em no próprio avião que, por definição, sofreu um acidente antes que aquela informação seja necessária, não cai bem para Goelz.

“Já tive discussões acaloradas com pilotos sobre isso”, ele me contou. “Eles não querem ninguém monitorando o seu desempenho. Mas cada caixa de supermercado nos Estados Unidos tem um monte de câmeras apontadas para ele. Por que não os pilotos?”

Nosso papel, e nossa paixão, é discutir tecnologia, por isso chamamos atenção para este ponto. Até porque, neste caso, a tecnologia pode servir para salvar vidas. Ou fazer com que a paz não demore tanto a chegar às centenas de famílias que ainda esperam informações sobre aqueles que viram pela últimas vez em primeiro de junho de 2009, e depois nunca mais souberam nada a respeito. [The New York Times, Boing Boing, Wikipedia]