Cientistas americanos conquistaram um grande marco: pela primeira vez nos Estados Unidos, um embrião humano foi geneticamente modificado. Os detalhes desse avanço, que foi noticiado na semana passada, foram colocados em um estudo publicado hoje (2) na revista Nature.

• Cientistas nos EUA realizam sua primeira edição genética de embriões humanos
• É possível modificar uma flor para ela ser realmente azul?

No novo artigo, um consórcio de cientistas da Califórnia, do Oregon e da Ásia detalharam a utilização da técnica de edição do genoma por meio do CRISPR para reparar um DNA que causa uma doença cardíaca comum conhecida como cardiomiopatia hipertrófica. Este é apenas o quarto estudo publicado que envolve a edição de embriões humanos; os outros três aconteceram na China.

Além de ajudar os Estados Unidos a chegarem mais perto da China na corrida pelo poder na área genética, o estudo desbrava novos horizontes importantes. Cientistas do Instituto Salk, em La Jolla, da Universidade de Ciência e Medicina do Oregon, e do Instituto de Ciência Básica da Coreia do Sul parecem ter encontrado uma nova maneira de contornar o que é conhecido como “mosaicismo”, um grande problema até agora na edição genética de embriões no qual apenas algumas células do embrião incorporam o DNA modificado. A equipe de pesquisa conseguiu contornar o mosaicismo ao utilizar o CRISPR ao mesmo tempo em que fertilizava o óvulo, antes que suas células começassem a dividir.

O time também descobriu um novo e potencialmente importante mecanismo de reparação do DNA que acontece no início do desenvolvimento do embrião. Os pesquisadores utilizaram mais de cem óvulos de doadores saudáveis, fertilizados com esperma de um doador com o gene para cardiomiopatia hipertrófica. Em vez de inserir novos genes, projetados em laboratório, dentro do embrião, os pesquisadores simplesmente utilizaram o CRISPR para retirar o gene paternal no lugar certo, e deixar que a versão materna consertasse a região com o seu próprio código genético, livre da doença.

“Essa não é apenas uma técnica diferente para a edição de embriões, mas a reparação mais animadora de um embrião utilizando o CRISPR até agora”, disse ao Gizmodo Eric Topol, geneticista do Instituto de Pesquisa Scripps, que não esteve envolvido com o estudo. “Isso não significa que [esse embrião] está pronto para a implantação no útero, mas demonstra uma tecnologia mais adequada para o sucesso no futuro.”

O estudo, no entanto, não é tão inovador e incrível quanto parecia, quando as notícias a respeito do artigo foram vazadas pelo MIT Technology Review na semana passada começaram a ser noticiadas por diversos veículos de imprensa. O Gizmodo, inclusive, falou do caso.

“Esse é um passo incremental que nos deixa um pouco mais próximos [de editar embriões humanos], mas ela [a tecnologia] não está tão próxima assim”, disse o bioético de Stanford Hank Greely ao Gizmodo.

Greely apontou que as aplicações dessa tecnologia são, na verdade, bem limitadas. Existem dois grandes cenários nos quais a edição de DNA de um embrião pode ser considerada ética: uma na qual ambos os pais tenham um gene de um transtorno genético recessivo e outro no qual os pais carreguem um gene dominante de uma doença, como a cardiomiopatia hipertrófica ou doença de Huntington. Essa técnica só funcionaria no segundo caso.

“Olhando mais de perto, é menos útil do que se pode esperar, se funcionar mesmo”, disse Greely.

A nova técnica também não deve produzir o temido futuro dos bebês sob medida, uma vez que, em vez de inserir novo DNA nos embriões, ela implica que o DNA de um dos pais seja saudável para reparar o DNA do outro. Em um embrião, os pesquisadores tentaram inserir novo DNA, mas ele acabou tendo o problema do mosaicismo.

“O CRISPR está apenas definindo os alvos e fazendo os cortes. Não estamos inserindo nada”, disse Jun Wu, autor líder do artigo no Instituto Salk, ao Gizmodo. “Estamos aqui apenas para reparar mutações. Não é útil para coisas como bebês sob medida.”

Em fevereiro, a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos publicou um relatório de 261 páginas que deu um sinal verde cauteloso para a edição de genes humanos, endossando a prática para a cura de doenças, mas determinando que alguns usos, como a criação dos chamados “bebês sob medida”, não são éticos. Wu insistiu que esse novo estudo está limitado à categoria de “pesquisa básica”.

Nos Estados Unidos, o congresso bloqueou quaisquer testes clínicos que tenham como objetivo transformar um embrião modificado fertilizado in vitro em um bebê, impedindo o financiamento federal de quaisquer pesquisas clínicas “nas quais um embrião humano é intencionalmente criado ou modificado para incluir modificações geneticamente hereditárias”. No novo estudo, os pesquisadores descartaram os embriões alguns dias depois da fertilização. Ainda não há nenhuma indicação sobre como o método se sairia se realmente fosse implantado em um útero humano.

“Precisamos ver se isso pode ser replicado e avaliar a segurança”, disse Wu. “Uma das maiores preocupações é se haverá efeitos indesejados. Não observamos nada disso nesse caso, mas precisamos avaliar os outros casos.”

Esses são apenas os primeiros passos, e o novo estudo levanta questões éticas interessantes. Por que, por exemplo, embarcaram na edição do genoma quando tecnologias como rastreio genético combinadas com fertilização in vitro poderiam permitir que os médicos simplesmente colhessem óvulos livres de doenças para serem implantados? Como poderíamos regulamentar isso e assegurar que é acessível de forma igualitária? Quais tipos de genes deveríamos considerar como “éticos” a serem reparados? Existe uma lista grande de coisas para as quais ainda não temos as respostas.

Enquanto isso, os cientistas ainda precisam trabalhar muito.

“Precisamos de mais debates”, disse Wu. “Mas, por enquanto, cientistas precisam apenas fazer a pesquisa básica.”

Imagem do topo: Shutterstock