Se você procurar por um smartphone, independentemente se mais caro ou barato, vai reparar que são muitos os modelos disponíveis. Porém, o mesmo não podemos dizer das fabricantes, já que o mercado brasileiro de celulares é dominado por um número limitado de companhias. É em meio a esse cenário que a chinesa Realme chega ao País com a ambição de se tornar uma das principais empresas do setor.

Recentemente, a marca lançou os primeiros dispositivos no Brasil, sendo dois smartphones e mais dois acessórios (um fone de ouvido sem fio e um smartwatch). Eles podem não ter um preço muito competitivo neste início, mas a companhia, que tem pouco menos de três anos de vida, vem se destacando pelos dispositivos com excelente custo-benefício no continente asiático, batendo de frente com a Xiaomi, que começou nesse negócio praticamente com o mesmo lema.

Obviamente, o consumidor brasileiro não tem os mesmos hábitos que o público da Ásia. Então, quais os planos da Realme para o Brasil? E o que a fabricante poderia aprender com a Xiaomi, que retornou ao país há cerca de dois anos

Quem é a Realme e quais os planos para o Brasil

A Realme é uma empresa bastante nova. Sua fundação aconteceu na China, em 2018, por Sky Li, que na época era vice-presidente da Oppo – uma das maiores marcas de smartphones na Ásia que se destaca pelos aparelhos com acabamento premium e preço competitivo. Em 2020, a companhia bateu um recorde: se tornou a fabricante que mais rápido atingiu o envio de 50 milhões de celulares no mundo, superando Apple, Samsung e Xiaomi. Os dados são da consultoria Counterpoint Research.

Imagem: Realme

Para o Brasil, Sherry Dong, diretora de marketing da Realme, afirma em entrevista ao Gizmodo Brasil que o principal objetivo é provocar uma virada de jogo no mercado nacional de smartphones. Isso por meio de tecnologias e design inovadores, tanto para modelos premium como nos intermediários. A empresa reforça o foco inicial do público-alvo: os jovens. Além disso, também querem ajudar na democratização do 5G, principalmente agora que o Brasil se prepara para a transição das redes de quarta para quinta geração. “Com tudo isso, nossa meta é estar no top 3 de marcas que mais vendem no Brasil”, diz.

Ao contrário da Xiaomi, que já tinha uma legião de fãs no Brasil, a Realme tem a difícil tarefa de conquistar os consumidores praticamente do zero. “Esse é o maior desafio para nós: sendo uma nova marca, nem todo mundo conhece”, afirma Dong, que volta a enfatizar o foco no público jovem.

Sherry Dong está há quase três anos à frente do cargo de diretora de marketing na Realme. Imagem: Divulgação

De acordo com dados da IDC Brasil, em 2019, os consumidores brasileiros prezavam principalmente por preço e marca na hora de comprar um smartphone. Em meados 2020, essa posição se inverteu: para muitos, é a marca o fator determinante. Ao mesmo tempo, esse apego a acaba ficando em segundo plano para quem já está no quarto, quinto telefone. É aí que acontece o ponto de virada, como explica Renato Meireles, analista de mercado da IDC Brasil, em entrevista ao Gizmodo Brasil.

“Quando falamos em novas marcas, elas têm um desafio muito grande em competir com outras que já estão consolidadas, como Apple e Samsung. O que muda é que as fabricantes que vêm de fora, no caso as que têm origem no continente asiático, vão ao encontro do que a maioria dos consumidores procura hoje no mercado: celulares com boas especificações. A marca, o nome da empresa ainda está entre os principais atributos que o usuário busca, porém ele está mais atento a características como memória, câmera e bateria”, diz.

Embora não compartilhe números em pouco mais de um mês em operação no Brasil, a Realme está confiante de que irá ampliar sua participação no mercado nacional. No futuro, eles apostam na fabricação local dos produtos — já que, no momento, todos são importados e, consequentemente, caros. Para se ter uma ideia, o Realme 7 Pro, modelo mais avançado da marca à venda no Brasil, custa R$ 2.999 (e não vale o preço).

A longo prazo, além da fabricação local, a Realme planeja trazer as séries Realme C, de entrada; Realme Number Series, que tem um foco ainda maior no público jovem e em fotografia; Realme Narzo Series, para quem se preocupa com performance e jogos; e Realme X Series, a mais avançada da empresa. Se puxarmos o catálogo internacional, todas essas linhas, juntas, contabilizam mais de 20 celulares.

Diferenças no mercado brasileiro

Segundo Sherry Dong, uma das primeiras coisas que chamaram atenção é que, ao contrário de outros mercados internacionais, as principais competidoras da Realme no Brasil são Samsung, Motorola e LG, mas que estas duas últimas foram surpresas. “É muito interessante competir com LG e Motorola, já que, em outros mercados, elas não são populares no momento. Por esse motivo, tivemos que adotar uma estratégia completamente distinta [de nossa operação global]”, explica.

O motivo, segundo a diretora de marketing da Realme, é que em mercados como China e Índia os consumidores têm priorizado as especificações dos telefones, e não mais a relação custo-benefício. “Nesses dois países, os usuários são muito bem informados sobre todas as características técnicas [dos aparelhos]. Acredito que na Ásia, especificamente, as fabricantes estão mais conhecidas por causa de suas tecnologias. A Motorola tem ótimos preços na China, e a mídia diz que os dispositivos são bons no custo-benefício, mas quase ninguém compra os smartphones da marca”, completa.

Watch S é um dos acessórios que a Realme trouxe ao Brasil. Imagem: Realme

Outra estratégia diferente adotada para o mercado brasileiro é nas vendas. Neste primeiro momento, a Realme optou por focar apenas no e-commerce por meio do marketplace de outras empresas – no caso, as do Grupo B2W, que incluem Submarino e Americanas. Futuramente, a companhia planeja expandir o negócio para lojas físicas.

É nesse ponto que a Realme pode pegar como lição o exemplo da Xiaomi, que retornou ao Brasil após uma passagem conturbada no ano de 2016. Há quase dois anos, em junho de 2019, a importadora DL Eletrônicos firmou uma parceria com a gigante asiática e, em vez de lançar sua operação exclusivamente online, focou principalmente no varejo físico. Primeiro por meio de empresas e operadoras parceiras, e depois com o lançamento de lojas próprias da marca.

“Na China você faz tudo pelo celular porque as coisas funcionam de maneira muito rápida online. O brasileiro, por sua vez, gosta de colocar a mão nos produtos, talvez movido pelo fato de que preço, e nem tanto a tecnologia, é muito importante. O brasileiro gosta de pegar no produto, sentir a qualidade. Aqui no Brasil, em vez de apostar no e-commerce, fizemos o contrário: o foco inicial foi abrir as lojas físicas e depois entrar no marketplace de outros parceiros grandes”, diz Luciano Barbosa, líder do projeto Xiaomi Brasil, em entrevista ao Gizmodo Brasil.

Esse também é um ponto levantado pelo analista da IDC Brasil:

“Em termos de indústria, eu vejo um desafio muito grande para as companhias asiáticas em primeiro entender a importância das vendas em canais de varejo. Ou seja, as fabricantes vindas da China, quando chegam ao Brasil, não entendem que o varejo físico ainda é um canal essencial para os consumidores locais, em comparação com países que já priorizam o e-commerce. Obviamente existem outras questões – preço, importação, produção local, a atuação do mercado cinza – que precisam ser levadas em conta, mas é necessário entender como funciona a cultura do brasileiro em termos de compra.”

Da mesma maneira que acontece com a Realme, Barbosa conta que todos os produtos da Xiaomi vendidos no Brasil hoje são 100% importados, mas que a companhia também tem planos de iniciar a fabricação local dos eletrônicos. “Tínhamos planejado um estudo no ano passado sobre esse assunto, mas o projeto ficou em pausa devido à pandemia de Covid-19. Ainda estamos mantendo nossos planos de expansão, mas só vamos dar continuidade quando as coisas estiverem seguras. E agora isso não é possível”, explica o executivo.

Luciano Barbosa é head do projeto Xiaomi no Brasil. Imagem: Divulgação

Foi a partir das lojas físicas, ambas localizadas em dois shoppings da cidade de São Paulo, que a Xiaomi traçou a estratégia de ampliar o negócio para fora. “Foi só no final de 2020 que fechamos uma participação expressiva com o Grupo Via Varejo, e com eles agora chegamos a mais de mil lojas, batendo mais de 7 mil pontos de venda ao redor do Brasil. Hoje temos nosso marketplace em quinze plataformas ativas — só não estamos presentes no Mercado Livre e na Amazon, devido ao mercado cinza”, diz Barbosa.

Lá fora, a Realme também aposta em um ecossistema de produtos, não apenas smartphones. A lista ainda é bastante limitada, se resumindo a fones de ouvido, cases e mochilas. No Brasil, somente os fones Realme Buds Q e o Reame Watch S foram lançados.

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A Xiaomi, em contrapartida, fez burburinho quando estreou sua primeira loja física ao lançar uma gama com mais de 100 produtos, fora os telefones móveis. Portanto, esse pode ser um caminho que a Realme pode querer apostar no Brasil daqui alguns meses. Segundo Barbosa, atualmente a marca oferece cerca de 400 produtos, entre smartphones e dispositivos inteligentes para casa, como lâmpadas, aspirador de pó e até balança (estes dois últimos foram campeões de venda em 2020).

Quem ganha é o consumidor

Tanto para Realme quanto a Xiaomi, independentemente da estratégia adotada e dos desafios que são enfrentados ao longo da história de cada empresa, quanto mais companhias estiverem no mercado, melhor para o consumidor, que terá um leque maior de produtos e decidir qual é o melhor de acordo com suas necessidades.

Para Luciano Barbosa, da Xiaomi:

“A nossa visão é que o mercado aberto [para outras fabricantes] é muito bem visto, e quem ganha é sempre o consumidor final. A partir do momento que esse mercado se fecha, quem acaba perdendo também é o consumidor final. Com o mercado aberto, mais empresas competem de maneira honesta e entregam produtos com mais tecnologia, custo-benefício, ofertas e serviços mais atraentes para o consumidor.”

E para Sherry Dong. da Realme:

“O Brasil tem um dos maiores e mais importantes mercados de smartphone no mundo. Então, acredito totalmente que outras companhias, como Oppo e Vivo, terão operações próprias por aqui. Ninguém quer ficar de fora do Brasil. E nós da Realme esperamos que isso aconteça, já que, com mais competidores, mais tecnologias avançadas e melhores ofertas poderão ser apresentadas aos consumidores.”

Meireles, da IDC, também acredita que, quanto mais marcas, mais o usuário terá liberdade de comparar e escolher os aparelhos que melhor atendem suas respectivas necessidades. Eleexplica que 90% do mercado brasileiro de smartphones está nas mãos de quatro fabricantes – Samsung, Motorola, Apple e LG -, o que acaba gerando um efeito não muito impactante no preço dos dispositivos, que ano após ano ficam mais caros. “Se mais companhias lançarem seus produtos, o leque de opções fica maior e os consumidores não ficam reféns do monopólio de poucas fabricantes”, afirma Meireles.