Suzana Herculano-Houzel é uma das cientistas mais proeminentes do país: a neurocientista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) ganhou vários prêmios por desbancar crenças sobre a atividade neural – por exemplo, ela descobriu quantos neurônios o cérebro humano realmente tem. Ela também publicou seis livros de divulgação científica, e escreve uma coluna semanal na Folha de São Paulo.

No final do mês passado, Suzana teve um artigo publicado na Science, uma das mais prestigiadas revistas científicas do mundo: fruto de dez anos de pesquisa, o artigo analisa as dobras do córtex cerebral de mamíferos.

Por muito tempo, acreditou-se que a quantidade de dobras cerebrais estava relacionada ao número de neurônios, pois os cérebros grandes tendem a ser mais enrugados do que os cérebros menores. Quanto mais neurônios, mais “amassado” um cérebro pareceria. Quanto menos neurônios, mais lisa seria a aparência dele.

No entanto, a equipe de Suzana descobriu que não é assim que as coisas funcionam. Eles conseguiram determinar uma equação que consegue explicar a quantidade de dobras do cérebro de mamíferos e perceberam que elas estão relacionadas à espessura do córtex cerebral: se o córtex é mais grosso, haverá menos dobras; se ele é mais fino, terá uma aparência mais “amassada”.

E o mais interessante é que a equação que determina o índice de dobras dos cérebros dos mamíferos é muito parecida com a equação das bolinhas de papel: se você amassar um papel muito fino, ele terá muitas marcas da dobra. Se for um papel mais grosso, haverá menos marcas.

Mas ao receber a notícia da publicação de seu artigo na Science, Suzana não estava passando por um momento exatamente feliz. No início de 2015, o governo já havia anunciado um imenso corte na verba do Ministério da Educação, e no final de julho esse corte se refletiu no orçamento do Programa de Apoio à Pós-Graduação — do qual o laboratório de Suzana recebia recursos.

Na entrevista a seguir, a neurocientista falou com o Gizmodo Brasil sobre as consequências desse corte de orçamento para as universidades brasileiras e sobre como é ser cientista no Brasil. Spoiler: as notícias não são das melhores.


Gizmodo Brasil – No começo do ano, o governo anunciou um corte de um terço no orçamento do MEC. No dia 8 de julho — ironicamente, o Dia Nacional da Ciência — anunciou-se um corte de 75% na verba do Proap (Programa de Apoio à Pós-Graduação). Com a reação da comunidade científica e dos professores, o governo pareceu voltar atrás e anunciou um corte de 10% em programas específicos. Quais são as consequências desse corte a curto, médio e longo prazo?

Suzana Herculano-Houzel – o corte de 75% no orçamento de custeio da CAPES permanece intacto. Os 10% se referem ao cálculo do corte total, uma vez levando em consideração que as bolsas serão mantidas. O programa de pós-graduação do qual participo, por exemplo, tinha uma verba prevista de 450 mil reais para 2015; o governo anunciou via ofício que a verba será de 150 mil reais (um corte, portanto, de dois terços no nosso caso); mas efetivamente, estamos em agosto e o valor repassado foi de zero reais até o momento — ou seja, um corte efetivo de 100%. Outras pós-graduações estão na mesma posição.

As consequências são graves: este é o dinheiro para financiar o funcionamento dos cursos, com material de custeio para a pesquisa, vinda de pesquisadores para as bancas de avaliação, participação dos alunos em reuniões internacionais. Não é viável uma pós-graduação funcionar com bolsas, mas sem fundos para os alunos fazerem seus trabalhos e defenderem suas teses.

No final de julho, mesmo diante dos cortes de orçamento no programa de pós-graduação, o governo anunciou via Diário Oficial a liberação de R$ 5,1 bilhões para o Fies. Como você analisa esse movimento de troca de prioridade? Adianta investir no Fies se a pós-graduação está sendo sucateada? Ou são dois programas diferentes que não devem ser pensados juntos?

Além do corte de 75% da verba de custeio das pós-graduações, nossas universidades públicas, que ainda são os centros de excelência de ensino e pesquisa no país, estão sem fundos, estranguladas pelo governo. Nosso reitor na UFRJ já anunciou que em setembro não teremos mais condições financeiras de operar.

Liberar verbas para o Fies, mas não para as universidades públicas, sinaliza descaso com estas e uma preferência por fazer números, permitindo a entrada de alunos em outras universidades, não públicas, enquanto as públicas não têm mais condições de operar.

Dentro da sua experiência acadêmica, o Brasil já teve uma “Era de Ouro” da pós-graduação? Existiu um momento em que os programas funcionavam bem e contavam com um orçamento de acordo com suas necessidades?

Nunca vivi uma “era de ouro” da pós-graduação. Até o ano passado, sobrevivíamos: os alunos tinham bolsas e condições de fazer seu trabalho — mas o valor das bolsas de pós-graduação é miserável, sobretudo considerando que é condição para receber a bolsa não ter vínculo empregatício (a não ser na própria universidade, o que é raríssimo).

Exemplo: um engenheiro químico recém-formado recebe no mínimo o piso salarial da sua classe, de 6 salários mínimos para 6 horas de trabalho diárias. Em comparação, um biomédico recém-formado que entre para o mestrado receberá nem mesmo 2 salários mínimos mensais — e sem direitos trabalhistas.

Você poderia nos falar um pouco sobre a sua experiência acadêmica? Como se deu a sua escolha de carreira e seu ingresso no mundo acadêmico e científico?

Cursei biologia ciente de que as perspectivas de trabalho eram mínimas, mas encorajada por meus pais que insistiam que sempre há lugar para quem é muito bom, e já esperavam que eu saísse do país para conseguir uma boa formação. Saí, de fato, na noite do dia em que me formei, e durante sete anos cursei pós-graduação nos EUA, França e Alemanha. Foi uma experiência fundamental e é obrigatória para qualquer aspirante a cientista no Brasil.

Como é ser cientista no Brasil hoje? Na sua opinião, quais são os maiores obstáculos que uma pessoa com esse sonho precisará enfrentar?

Frustrante. Além da desvalorização da carreira de professor universitário (já que não existe uma carreira de cientista no país, pois “cientista” não é uma profissão reconhecida), o governo no momento cortou drasticamente os recursos para a pesquisa. Os recursos aprovados, que já não eram enormes (da ordem de 50 a no máximo 100 mil reais para projetos de 3 anos, que é o que o Edital Universal do CNPq oferece), não foram repassados.

Temos algum dinheiro no papel, mas não na prática. Ou eu coloco dinheiro do próprio bolso em meu laboratório — que, só para constar, vem publicando uma média de 8 artigos por ano em revistas internacionais excelentes, inclusive com um artigo recente na prestigiada revista Science -, ou fecho as portas e mando os jovens cientistas da equipe para casa. Já me devo mais de 15 mil reais.

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Você estudou nos EUA e na França. De acordo com a sua experiência, com o que temos disponível hoje, um cientista pode ter uma boa formação feita exclusivamente no Brasil ou é necessário que ele saia do país para ampliar seus conhecimentos?

Em ciências biomédicas, minha área, é fundamental sair do país. As pós-graduações brasileiras ainda têm muito o que melhorar, mas mesmo quando se tem a oportunidade de trabalhar em uma boa pós-graduação, a experiência e exposição internacional são fundamentais para a formação de um cientista no mundo de hoje. Sobretudo por causa da oportunidade para pensar em temas diferentes, pois os campos de pesquisa no país são muito restritos, entre outras razões por causa da tradição de endogamia — os jovens montam seus próprios laboratórios, mas em geral continuam seguindo as mesmas linhas de pesquisa dos seus orientadores.

Dado o descaso com o programa de pós-graduação brasileiro, já sofremos ou estamos sofrendo uma fuga de cérebros para o exterior? Como você vê essa questão?

Já sofremos e ela só vai se agravar, conforme nossos jovens cientistas vão se dando conta de que a ciência no Brasil não é levada a sério — e, ironicamente, conforme o governo federal investe em programas que dão a jovens ainda graduandos a oportunidade de se expor ao ambiente científico lá fora, depois voltar e… se frustrar com as condições aqui.

Na sua opinião, quais são as mudanças na educação de base necessárias para que vejamos a ciência nas universidades brasileiras frutificar?

A educação como um todo precisa ser levada a sério e valorizada. Isso começa com a valorização da figura do professor e pesquisador. Nossos salários não são atraentes para quem está começando (o que dirá para quem está há anos na profissão). É preciso ter muita motivação, idealismo e, por que não dizer, um tanto de cegueira para investir em uma carreira como professor/pesquisador no Brasil, quando tantas profissões regulamentadas como engenheiro químico ou perito da polícia oferecem salários muito mais atrativos.

Minha previsão é de um esvaziamento da ciência nos próximos anos — e já estou vendo este esvaziamento no número cada vez menor de alunos procurando estágio de iniciação científica, e no número cada vez maior de estagiários que abandonam seus estágios, mesmo quando recebem bolsa (de, diga-se, 400 reais).

Acho que é muito importante lembrar que o investimento em pesquisa é uma escolha que todo governo faz, e um investimento que os países desenvolvidos já mostraram ser fundamental para a soberania nacional. As grandes invenções que tornaram, por exemplo, o GPS um recurso comum em qualquer smartphone foram financiadas por recursos públicos, e não privados.

Claro, é importante questionar se um país como o Brasil, que ainda tem uma grande parcela da população vivendo abaixo da linha da pobreza, deve destinar recursos para a pesquisa. Mas, uma vez feita a escolha por investir em pesquisa, é fundamental que esse investimento seja real, suficiente para ser eficaz e produzir de fato conhecimento científico, e não apenas uma formalidade para o governo poder dizer que investe em ciência.

No momento, estamos até abaixo da formalidade, já que os poucos recursos aprovados sequer estão sendo repassados. Na prática, continuamos enormemente dependentes de ciência e tecnologia desenvolvidas em outros países.

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Foto por CPFL Cultura/Flickr