A água de torneira pode ser segura para beber em locais com unidades de tratamento, mas essa não é uma garantia que temos nem no Brasil inteiro, nem no resto do mundo. Por isso, pesquisadores da Universidade de Cambridge estão desenvolvendo uma nova abordagem para testar águas contaminadas usando um dispositivo que bilhões de pessoas já usam todos os dias.

As touchscreens capacitivas modernas, do tipo que pode detectar facilmente os toques mais sutis (em vez de exigir que os usuários pressionem a tela com força), apresentam uma grade invisível de eletrodos com carga elétrica muito pequena. Quando o dedo (condutor) toca a tela, o nível de carga é alterado em um local específico, detectado pelo smartphone com base nas coordenadas da grade.

Este é um “resumão” extremamente simplificado sobre como a tecnologia que alimenta as touchscreens modernas funciona, mas o mais importante é sabermos sobre o uso de uma carga elétrica variável.

Em um artigo publicado recentemente, pesquisadores da Universidade de Cambridge explicam como uma touchscreen reduzida – o mesmo hardware usado em smartphones e tablets – foi capaz de detectar os íons eletricamente carregados em um eletrólito. Diferentes líquidos foram colocados sobre a tela e, usando um software padrão de testes, os pesquisadores foram capazes de diferenciar as amostras com base em como “os fluídos interagem com os campos elétricos da tela de forma diferente, dependendo da concentração de íons e de sua carga. ”

As telas usadas em dispositivos mobile são ajustadas e calibradas para melhor responder às interações com os dedos, mas os pesquisadores acreditam que, ao alterar o design dos eletrodos, mesmo em apenas uma pequena área da tela (um aplicativo personalizado poderia indicar exatamente onde uma amostra precisa ser colocada) a sensibilidade pode ser otimizada para detectar contaminantes em amostras como solo e água.

Assista ao vídeo abaixo ilustrando como isso funciona:

Por eles serem capaz de detectar íons usando telas dos dispositivos destinados ao consumidor (ou seja, as telas que temos nos celulares tradicionais) significa que sérios problemas decorrentes da contaminação por arsênio em água potável podem ser evitados com facilidade – sem a necessidade de um equipamento de teste adicional.

O arsênico é considerado um carcinógeno do Grupo A ligado aos cânceres de bexiga, rim, fígado, pulmão e até mesmo de pele e, embora seja filtrado para fora da maioria dos sistemas municipais de água, ainda representa um sério risco em partes do mundo sem estações de tratamento de água. Ele pode ser detectado usando fitas tornassol simples, as que mudam de cor, mas o custo não é baixo. Portanto, encontrar uma maneira de aproveitar os dispositivos existentes para esses testes é uma abordagem mais prática ao problema.

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Os pesquisadores esperam eventualmente encontrar maneiras de melhorar a sensibilidade da tecnologia touchscreen para que ela possa detectar uma ampla gama de moléculas, incluindo metais pesados como o chumbo. Isso exigiria que as fabricantes mobile estivessem dispostas a gastar dinheiro extra para melhorar as capacidades das telas sensíveis ao toque que utilizam. Dado que empresas como a Apple têm se concentrado nos benefícios de seus dispositivos para a saúde, pode não ser uma ideia tão fora da realidade.