Embora a tarefa de contar quantas pessoas estão presentes em algo tão grande quanto uma comitiva ou uma manifestação pareça intimidadora e quase impossível de se fazer com exatidão, basta que se tenha algumas informações básicas para que a a coisa toda deixe de parecer tão difícil e possa até oferecer resultados razoavelmente próximos do número verdadeiro.

O método mais conhecido para estimar o tamanho de uma multidão é chamado de Método de Jacobs, em homenagem ao seu criador, Herbert Jacobs. Ele gastou algumas décadas trabalhando para o Jornal de Milwaukee antes de se aposentar para ensinar jornalismo na Universidade da Califórnia, em Berkeley, na década de 1960. Ele desenvolveu o método de estimativa do tamanho de multidão depois de observar inúmeros protestos contra a Guerra do Vietnã da janela do escritório onde trabalhava.

Jacobs notou que a área na qual os estudantes estavam mostrava um padrão de setores — uma espécie de quadrado divisor imaginário — que permitia contar quantos estudantes ocupavam um determinado espaço ao contabilizar quantos estudantes em média conseguiam ficar dentro da grade imaginária. Fazendo isso, ele rapidamente notou alguns padrões.

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Jacobs descobriu que nas multidões mais densas, cada pessoa ocupava cerca de 0,2m². Vale lembrar que este é o limite de quão cheio um lugar pode estar e ainda oferecer segurança às pessoas que estão lá, no sentido de que não seria possível colocar mais gente ali sem que alguém tropeçasse e fosse pisoteado, por exemplo. Talvez por isso alguns artigos que lemos sobre o assunto apenas se refiram a estas multidões como “densidade de mosh pit“. Em uma multidão densa, mas ainda administrável, Jacobs observou que os participantes tinham 0,4m² de espaço para se locomover, e em multidões leves, os participantes chegam a ter até 1m² para locomoção.

Em qualquer evento, assim que ele determinava o número aproximado de estudantes em uma grade, ele poderia facilmente calcular o número de setores em uma área de qualquer densidade, e rapidamente chegar a uma boa estimativa de quantas pessoas estavam presentes em qualquer multidão. Desta forma, o novo e simples padrão do Método de Jacobs nascia.

O Método de Jacobs pode parecer uma solução simples demais, mas a verdade é que ele é surpreendentemente exato quando é feito por observadores não tendenciosos, e a tecnologia moderna tornou tudo muito mais fácil. Pegue ferramentas como o Google Earth, por exemplo, que tornou fácil e trivial para qualquer um descobrir o tamanho exato da área de determinado local, além de dividir a área em setores. E graças à cobertura constante da mídia, qualquer multidão de larga escala terá registro de vídeos ou fotos (e caso a mídia não o faça, alguém no Twitter provavelmente o fará). Então, determinar o número de pessoas com estes dados e ferramentas se torna relativamente simples. Claro, alguém poderia criar um software de reconhecimento para identificar com precisão quantas pessoas estão presentes em determinada multidão, mas este nível extra de certeza se torna desnecessário já que os resultados seriam muitos próximos aos obtidos pelo Método de Jacobs.

É claro que quando se trata de lidar com estimativas, alguns meios de comunicação da mídia ou mesmo os organizadores do evento gostam de exagerar os números de uma multidão. O exemplo mais famoso talvez seja o da “Marcha de um Milhão de Homens” — uma aglomeração de afro-americanos (em sua maioria homens) que ocorreu em 1995. Como já dá para imaginar pelo nome da marcha, os organizadores do evento insistiram que pelo menos um milhão de pessoas esteve no evento, com estimativas atingindo a casa dos dois milhões. Entretanto, o Serviço Nacional de Parques discordou e apresentou um número muito menor, mas ainda significantivo, de 400.000 manifestantes. Agora, quando um evento é chamado de a “Marcha de um Milhão de Homens”, 400.000 não é um número que você queira divulgar, mesmo que ele seja grande; conseguir que 400.000 pessoas (cerca de 1.2% de todos os afro-americanos presentes nos Estados Unidos naquela época) compareçam a um evento ainda pode ser considerado um sucesso.

A estimativa incomodou tanto Louis Farrankhan, um dos organizadores do evento, que ele ameaçou processar o Serviço Nacional de Parques. A discussão derivada disso fez com que o Serviço Nacional de Parques deixasse de ser o responsável por estimar o tamanho de multidões em Washington, pelo menos publicamente. Se o presidente dos EUA solicitar que eles estimem o tamanho de uma multidão, eles facilmente chegam a um número ao analisar imagens, mas estão tecnicamente proibidos de usar dinheiro advindo de impostos para obter tais resultados, o que os impede de divulgar tais informações para a mídia que, é claro, também pode chegar a uma determinada estimativa sozinha.

Então quantas pessoas realmente estiveram presentes da “Marcha de um Milhão de Homens”? Enquanto é impossível determinar um número exato, a maioria dos pesquisadores concordam que a estimativa original do Serviço Nacional de Parques era bastante precisa. Por exemplo, em 2004, uma dupla de pesquisadores, Clark McPhail e John D. McCarthy, determinaram que o local do evento tem espaço suficiente para o máximo de 1.048.206 pessoas, supondo que cada 0,2m² seriam o espaço para que uma pessoa ficasse em segurança. No final, analisando fotografias, eles determinaram que a estimativa de 400.000 mil pessoas do Serviço Nacional de Parques estava muito próxima da exatidão.

Este fato não é único. Pesquisas comprovam que as estimativas de organizadores dos eventos são constantemente maiores que as da polícia, que costuma oferecer números mais precisos, uma vez que os eventos geralmente ocorrem em locais já bem documentados com informações do número de pessoas que cabem ali. Mas é claro, organizadores (e em alguns casos a mídia) podem ter algo a ganhar quando maximizam o número de presentes em uma multidão, enquanto a polícia e entidades oficiais, geralmente, não tem.

Dito isso, existem alguns exemplos de entidades oficiais que intencionalmente ajustaram o número de pessoas em uma multidão por um motivo ou outro, da mesma forma que os organizadores adoram fazer. Por sorte, existe um método simples para estimar o tamanho de multidões de forma livre de vieses e isso pode ser feito por qualquer pessoa, até pelo cara sentado em casa de pijama do outro lado do mundo, o que é bem sensacional quando se para para pensar, não é mesmo?

15 de março

Na manifestação de ontem (15), a Polícia Militar de São Paulo divulgou que 1 milhão de pessoas estavam presentes no evento. Um número elevado (para não dizer exagerado), visto que a estimativa de pessoas saltou de 9 mil para 1 milhão em pouco menos de três horas.

O que é um número estranho, especialmente quando se compara ele a outros eventos que também usaram a Avenida Paulista de palco: os números da PM para a Parada Gay de 2014, por exemplo, eram de apenas 100 mil presentes, mas, ao colocar imagens de ambos os eventos em comparação, fica a dúvida se algum destes números está correto. No entanto, é bom lembrar que a Parada Gay de São Paulo foi excluída do Livro dos Recordes de 2008 porque os dados sobre o tamanho da multidão não foram considerados confiáveis. É, parece que as pessoas que estão tentando fazer a contagem são de Humanas.

A PM, que usa métodos parecidos com o Método de Jacob, ratificou o número de um milhão em postagem no blog oficial:

A Polícia Militar, a respeito da grande manifestação popular realizada nesta data (15/03), na região da Avenida Paulista, ratifica suas estimativas de público em aproximadamente 1 milhão de pessoas, de acordo com a aplicação de sua ferramenta tecnológica “COPOM ON-LINE”, que utiliza recursos de mapas e georreferenciamento, baseadas nas imagens aéreas colhidas por um dos helicópteros Águias, determinando a extensão principal da manifestação, bem como, a ocupação das ruas adjacentes adotando como parâmetro de cálculo, naquele momento, de 5 pessoas por metro quadrado.

O número, no entanto, é contestado pela Folha de São Paulo: segundo o jornal, 210 mil pessoas estiveram presentes na manifestação de ontem e a Avenida Paulista comporta menos do que o número divulgado. “Em estudo para reportagem da revista sãopaulo, da Folha, em 2011, o Datafolha estimou que a “área de 135,5 mil m² da avenida [Paulista] suportaria 950 mil em sua aglomeração máxima”, diz o jornal. Com dados mais claros que a PM, a publicação afirma ainda que por volta das 16h, o evento registrava pico de 188 mil pessoas na Avenida Paulista — horário próximo ao momento que a PM divulgou 1 milhão de pessoas no local, às 15h40. Em qual dos números acreditar?

Tanto a PM quanto o Datafolha fazem uso do método de Jacobs, que calcula o número de pessoas por m² de determinado local, mas números tão discrepantes geram a dúvida se algum deles está realmente certo, especialmente porque já é comum que institutos oficiais divulguem números suspeitos. Em 2013 repercutimos aqui no Giz os números do Datafolha sobre as manifestações de junho — manifestação que protestava por conta do aumento da tarifa de ônibus de R$ 3 para R$ 3,20. O instituto de estatística causou polêmica ao divulgar apenas 65 mil presentes no evento que parecia ser muito maior do que isto — pelo menos por fotos ou por testemunho de quem estava presente. O Datafolha chegou a se desculpar, alegando que o número divulgado referia-se a apenas ao momento inicial do evento e, como não existia uma rota oficial, não era possível determinar o número aproximado de pessoas que comparecem à manifestação.

Leia também:

>>> Como medir multidões – e por que há mais pessoas nos protestos do que se imagina

Imagem de capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil