Prever quais músicas se tornarão hits não é uma coisa fácil. Mais difícil ainda é saber se os artistas no topo das paradas de hoje irão gravar mais sucessos. Ou se somente serão mais um na lista de artistas de um hit só.

Com o crescimento das redes sociais, diversas canções repercutiram por conta das famosas dancinhas, ou challenges, e com isso, vão parar no topos das mais ouvidas. O grande problema é saber se vai durar mais de um sucesso.

Basicamente, esses artistas de apenas um sucesso vivem um fenômeno intitulado de “one hit wonder”, nome usado para definir uma pessoa ou grupo conhecido por apenas um single nas paradas.

Esse fenômeno ganhou agora um estudo acadêmico aprofundado feito na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. coordenado por diz Justin Berg, um cientista social que pesquisa criatividade e inovação na escola de negócios de Stanford.

O estudo divulgado pela Science News relata que artistas com mais variedade de músicas em seu catálogo, por exemplo, têm mais chances de conseguir sucessos repetidos.

Mas há um dilema para os artistas que querem ser populares a longo prazo. Só a variedade não garante a longevidade. A escolha e a conquista do primeiro hit são primordiais, explica Berg no “Administrative Science Quarterly”. Conta muito a semelhança de uma música nova com sucessos recentes.

“Na verdade, não há como enfiar a linha na agulha”, diz Berg. “Você enfrenta um… Trade-off como um novo criador, entre uma probabilidade de sucesso inicial [ou] sustentado com base na novidade de seu portfólio”. Os novos insights podem ajudar artistas de várias áreas a entender melhor o impacto público da novidade na arte –na música, arte visual, livros e muito mais.

Para descobrir se há algum tipo de fórmula que possa ajudar a explicar quem se torna “um flash” e quem se torna “um marco musical”, Berg se concentrou nas paradas pop, com sua rica coleção de dados. “Pensei em começar com a indústria… Onde o termo ‘one hit wonder’ foi criado”, diz ele.

Metodologia

No estudo, Berg usou um banco de dados com cerca de 3 milhões de músicas de entre 1959 a 2010, lançadas por gravadoras que produziram pelo menos um hit nos Estados Unidos durante esse período. Dessas músicas, quase 25 mil chegaram à Billboard Hot 100 semanal, que rastreia as canções mais populares com base em dados de vendas, reprodução de rádio e, agora, streaming online. Isso forneceu a Berg uma lista de quase 4.900 artistas que tinham uma ou mais músicas que entraram na lista, usando isso como critério para definir um sucesso.

O especialista então recorreu a um sistema do Spotify, que classifica as músicas em 11 variáveis, incluindo dança, energia e tonalidade. Esse sistema fornece métricas sobre a maioria dos acertos e não acertos da janela de tempo de 1959 a 2010. Berg então notou como as canções de sucesso estavam intimamente relacionadas com os sucessos do ano anterior. 

Ele também compilou portfólios para a maioria dos artistas que tinham pelo menos uma música no Hot 100, para que pudessem quantificar a variedade e novidade dos sons que eles lançaram na época do primeiro hit. Esses portfólios também permitiram que ele comparasse os “one hit wonders” com os mega-hitmakers, e com aqueles que nunca fizeram sucesso.  

Os acessos são raros, mostram os dados. Dos 69 mil artistas no banco de dados original, 93% nunca tiveram um hit, 3% tiveram um e 1% teve dois hits. A taxa de sucesso para acertos adicionais cai a partir daí. Com isso, Berg descobriu que artistas musicais, com o que ele chamou de portfólios de baixa novidade, se assemelhavam a outras canções que já existiam e tinham cerca de duas vezes mais chances de ter sucesso inicial. Mas aqueles que construíram um catálogo mais inovador e variado antes da fama eram mais propensos a gerar uma série de hits.

“É o sonho de um nerd da música ler algo assim”, diz Storm Gloor, pesquisadora da indústria da música da Universidade do Colorado em Denver. Ele diz que isso aumenta muito a intuição que artistas e executivos de gravadoras desenvolveram ao longo dos anos.

Como os dados terminam em 2010, a pesquisa pode não capturar totalmente o estado atual das canções populares. Os músicos estão mudando a forma como escrevem as músicas, para torná-las mais atraentes no Spotify ou no TikTok, diz Noah Askin, cientista social computacional do INSEAD em Fontainebleau, França. “Muito disso agora é: quão memorável é uma determinada música? Quanto você pode lançar como uma trilha sonora para um pequeno videoclipe?”

Berg não quer que sua pesquisa diminua as realizações de “maravilhas de um único sucesso”, como Los Del Rio, que gravou o sucesso dos anos 1990 “Macarena”. “Muitos deles em sua época eram bastante famosos e bem-sucedidos”, diz ele. “Você sai e tenta fazer uma música tão cativante. Não é um desafio fácil.”