Existe evidência de conexão entre o uso de cannabis e a esquizofrenia, mas não está claro se a droga leva ao transtorno, ou vice-versa. Um novo estudo publicado nesta segunda-feira (27) pode nos dar um pouco mais de clareza sobre o assunto.

• Uma só tragada de maconha com baixo nível de THC pode aliviar a depressão, diz estudo
• Por que a maconha está ficando mais e mais potente

A pesquisa descobriu que pessoas com risco genético de sofrer com esquizofrenia também são mais propensas a fumar maconha, sugerindo que a doença pode causar o uso de cannabis entre algumas pessoas.

O atual estudo, publicado na revista Nature Neuroscience, é um continuação de esforços anteriores em esboçar quais são as variações genéticas que tornam as pessoas mais propensas ao uso de cannabis, um projeto conhecido como Consórcio Internacional da Cannabis (International Cannabis Consortium).

Os autores do estudo, que inclui alguns pesquisadores da empresa de testes de DNA 23andMe, estudaram dados genéticos anônimos coletados de estudos anteriores ou de estudos ainda em andamento, incluindo informações do UK Biobank, bem como de pessoas que permitiram que seus DNAs fossem utilizados para a pesquisa, como aqueles que se registraram nos testes genéticos da 23andMe.

No geral, eles utilizaram informações de mais de 180 mil pessoas, tornando esse estudo o maior do seu tipo, de acordo com os autores.

O código genético de uma pessoa pode se diferenciar pouco do código genético de outra pessoa em muitas maneiras, mas a variação mais comum é chamada de polimorfismo de nucleotídeo único, ou SNP, na sigla em inglês.

Uma SNP é uma pequena mudança nos blocos fundamentais que constituem nosso DNA (e RNA), conhecidos como nucleotídeos.

Em uma seção específica do DNA, por exemplo, a maioria das pessoas podem ter adenina (A), uma das quatro bases nucleares que constituem um nucleotídeo, mas outros podem ter citosina (C) no mesmo lugar.

No estudo, os pesquisadores descobriram que oito desses SNPs estavam associados com o uso de cannabis durante a vida. Segundo os cálculos dos especialistas, levando o todo em consideração, essas variações correspondem a 11% da diferença entre pessoas que disseram fumar maconha ou não.

Utilizando diferentes testes, eles também encontraram 35 genes em 16 diferentes seções do genoma que estavam associados com o uso de cannabis.

Muitos desses genes pareciam estar associados com outros hábitos, traços de personalidade e condições de saúde mental, particularmente o gene CADM2. Variações no CADM2, segundo os autores, já foram ligados ao uso mais intenso de álcool, tomada de decisões arriscadas e traços de personalidade como extroversão. Eles também encontraram uma sobreposição genética com a esquizofrenia.

“Essa não é uma grande surpresa, porque estudos anteriores já mostraram que o uso de cannabis e a esquizofrenia estão associados”, disse em um comunicado a líder do estudo, Jacqueline Vink, pesquisadora da Radboud University, na Holanda. “No entanto, também estudamos se essa associação é casual”.

Eles tentaram encontrar uma possível relação de causa e efeito utilizando um método chamado randomização de Mendelian.

Essa técnica permite que os geneticistas perguntem se possuir os genes conhecidos por um efeito (esquizofrenia, neste estudo) causa uma predisposição direta a outra coisa (uso de maconha).

Neste caso, eles encontraram evidências de que ser geneticamente vulnerável à esquizofrenia tornava as pessoas mais propensas a usar maconha, possivelmente como uma forma de lidar com sua condição, de acordo com os autores.

Essa descoberta em particular é importante porque ainda não entendemos realmente como a cannabis e a esquizofrenia estão conectadas.

Outra pesquisa descobriu que o uso de maconha aumenta o risco de esquizofrenia, especialmente se o consumo começar cedo e as pessoas já tiverem riscos de sofrer com doenças mentais. Os autores são cuidadosos ao apontar que um único estudo desaprova tal teoria, mas sugere, como outros estudos genéticos já sugeriram, que essa relação é complicada.

O próximo plano dos pesquisadores é estudar se existem genes específicos que são capazes de prever quais são os usuários mais frequentes ou mais assíduos de cannabis.

[Nature Neuroscience]

Imagem do topo: Justin Sullivan (Getty Images)