Um novo estudo sugere que a teoria popular de que os neurônios se regeneram está parcialmente errada. De acordo com o artigo publicado na revista Nature, o cérebro humano talvez não consiga reabastecer naturalmente seu suprimento de neurônios.

• Inteligência artificial usa exames cerebrais para detectar tendências suicidas nas pessoas
• Uma nova técnica de microscopia usa substâncias de fraldas para ampliar neurônios

Pesquisadores analisaram amostras do hipocampo, região do cérebro que possui um grande papel na memória, retiradas de 59 pessoas. A idade dos participantes iam desde o pré-natal até a fase adulta. Mais da metade das amostras foram doadas após a morte, enquanto o restante foi pego de pessoas que passaram por cirúrgias cerebrais para tratar epilepsia.

Como esperado, foram encontradas provas abundantes de neurônios novos nas amostras retiradas de fetos e recém nascidos, especificamente no giro denteado, onde é sabido que acontece a neurogênese em outros mamíferos, como roedores. Porém, conforme as amostras chegavam a pessoas mais velhas, eram observados menos neurônios jovens.

Em todas as 29 amostras adultas, os pesquisadores não conseguiram encontrar quaisquer sinais de neurogênese. O mesmo padrão de declínio foi observado em amostrar retiradas de macacos reso.

“Concluímos que o recrutamento de neurônios jovens para o hipocampo dos primatas diminui rapidamente durante os primeiros anos de vida e que a neurogênese no giro denteado [região do cérebro] não continua ou é extremamente rara em humanos adultos”, escreveram os autores.

O estudo não é o primeiro a sugerir que os nossos neurônios não se regeneram. Mas ele carrega uma significância poética: um dos principais cientistas envolvidos, Arturo Alvarez-Buylla da University da California em São Francisco (UCSF), contribuiu com a pesquisa que estabeleceu que a neurogênese acontece em outros animais adultos, como roedores e pássaros canoros, durante os anos 1980. Essas descobertas inspiraram outros a investigar mais a fundo a neurogênese em humanos.

Alguns estudos já encontraram evidências de que a neurogênese não acontecia após certa idade, enquanto outros pesquisadores se basearam no crescimento de novos neurônios como uma possível explicação da eficácia de tratamentos com antidepressivos.

Não houve escassez de esforços legítimos para encontrar drogas capazes de aumentar a capacidade natural do cérebro para o crescimento de neurônios. Porém, junto com isso, surgiram produtos de consumo não testados, mas amplamente divulgados pelo mercado.

“Estudos anteriores podem ter declarado incorretamente a detecção de neurônios imaturos, uma vez que as proteínas utilizadas para marcar esses neurônios em animais talvez não funcione da mesma forma nos humanos”, disse o autor líder Shawn Sorrells, neurocirurgião e membro do laboratório Alvarez-Buylla na UCSF, ao Gizmodo via email. “Nosso estudo examinou essas proteínas e descobriu que elas não são específicas a neurônios jovens”.

Outros podem até ter identificado erroneamente as células que estavam observando, classificando-as como neurônios em vez de células da glia, que são apoios estruturais do cérebro que cercam e protegem os neurônios e que se regeneram constantemente.

Os resultados do estudo atual não provam definitivamente que o cérebro não é capaz de regenerar neurônios após a adolescência em outra região do cérebro, no entanto.

“Este estudo pertence apenas ao hipocampo; outras regiões no cérebro humano – que é muito grande – continuam a ser exploradas para a possível presença de novos neurônios”, disse Sorrells.

Os cientistas sugerem que a capacidade dos nossos cérebros adultos de manter-se afiados depende em grande parte de mecanismos diferentes do que os que já foram observados em outros animais.

Sorrells observa, por exemplo, que os neurônios são conhecidos por mudar de tamanho e na sua capacidade de se conectar a outros neurônios. “Outras formas de plasticidade, como mudanças na transmissão sináptica ou remodelação de neurônios existentes, podem ser muito mais importantes”, disse ele.

Os resultados não sugerem que pesquisar maneiras de criar neurogênese no hipocampo não podem ajudar a resolver problemas relacionadas a demência e perda de memória, nem significam que estudar como outros animais regeneram seus cérebros é uma perda de tempo.

“Continua sendo essencial estudar o processo de neurogênese adulta em modelos animais devido à importância deste trabalho para o reparo do cérebro”, acrescentou Sorrells.

[Nature]

Imagem do topo: O crescimento de neurônios no hipocampo, destacado em verde, desaparece quando chegamos a adolescência, revela um novo estudo publicado na Nature. Acima são amostras de um recém-nascido, de uma pessoa de de 13 anos e outra de 35 anos, respectivamente. Crédito: Sorells, et al (Arturo Alvarez-Buylla Lab)