Nesta segunda-feira (19), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que solicitou ao Pentágono para criar a US Space Force (Força Espacial dos Estados Unidos, em tradução livre), que se tornaria a sexta sucursal independente do Exército dos Estados Unidos. A ideia é ajudar os Estados Unidos a manter o ritmo de seus rivais, no entanto especialistas questionam a necessidade de uma nova força militar.

Com a mudança, ficaria assim: Exército, Marinha, Corpo de Fuzileiros Navais, Guarda Costeira e as Forças Espaciais.

Uma batalha espacial de verdade seria completamente diferente do que vemos nos cinemas
Oficiais militares americanos dizem que precisamos nos preparar para uma guerra espacial

Como cita a Associated Press, Trump fez o anúncio surpresa logo após um encontro do National Space Council, dizendo que “nós vamos ter uma Força Espacial”, que ele descreveu como algo “separado, mas igual” ao Exército. Diante do vice-presidente Mike Pence, Jim Bridestine, da NASA, e o ex-astronauta Buzz Aldrin, Trump disse que quer reavivar o programa especial do país e tornar os EUA um líder. Citando crescentes preocupações de segurança, o presidente não quer que “China, Rússia e outros países nos superem”. A criação da sexta sucursal será supervisionada pelo chefe do estado maior Joseph Dunford.

Muito poucas informações foram compartilhadas sobre esse novo projeto. Não há detalhes, por exemplo, sobre orçamento, locais, linha do tempo ou como essa nova força será implementada. Também não está claro se as afirmações feitas pelo presidente são obrigatórias. E, de fato, como o Quartz noticia, a diretriz assinada pelo presidente no fim do encontro não fazia menção à Força Espacial. E mais: a criação de uma nova força militar exige aprovação do Congresso dos Estados Unidos. Essa nova Força Espacial ainda nem foi alvo de negociações.

Ideia antiga

Embora a ideia de uma filial militar espacial possa parecer futurística e supérflua, é um assunto que tem aparecido na capital dos EUA já há algumas décadas. Muitas forças militares já haviam pedido à Casa Branca para fazer algo sobre, dizendo que os Estados Unidos precisam estar preparados para uma guerra espacial, e que seria uma questão de anos até que as forças norte-americanas lutem no espaço. Mas essa opinião não é compartilhada por todo mundo, com alguns militares dizendo que uma força espacial dedicada seria completamente desnecessária.

No ano passado, o congressista Mike Rogers, chefe do subcomitê de forças estratégicas, propôs a criação de um novo “Corpo Espacial”, mas a ideia foi rejeitada em dezembro. A Força Aérea dos EUA, dado seu envolvimento com o espaço e com segurança espacial, percebeu que eventualmente receberia mais investimento para tocar tal iniciativa. No entanto, com o anúncio recente de Trump, não parece que será dessa forma. Com a decisão de criar uma sexta filial das forças militares, a primeira em 70 anos, é seguro dizer que o movimento não agradou oficiais da Força Aérea dos EUA.

“Nós somos o serviço que deve liderar o combate de guerra conjunta neste novo domínio”, disse David L. Goldfein, da Força Aérea dos EUA, em fevereiro. “Isso é o que a nação demanda”, afirmou, adicionando que a Força Aérea pode “abraçar as iniciativas para superioridade espacial com a mesma paixão e senso de propriedade que aplicamos à Força Aérea atualmente”.

O senador democrata Bill Nelson, da Florida, já expressou suas preocupações, dizendo que não gostaria de tirar o domínio espacial da Força Aérea para a criação de uma Força Espacial.

Ao tirar essa atribuição da Força Aérea, Nelson está provavelmente se referindo ao Comando Espacial da Força Aérea (AFSPC, da sigla em inglês), também conhecido como Comando Espacial dos EUA. Atualmente, esse subconjunto da Força Aérea é quem oferece suporte a operações militares por meio do uso de satélites, lançamento de veículos e operações cibernéticas. Dada a ambiguidade e confusão relacionada ao anúncio, a Força Aérea pode continuar a lutar pelo que ela acredita que seja seu domínio.

Sinais de guerra espacial

O Tratado do Espaço Exterior, que passou a vigorar em 1967, proíbe nações de colocar bombas nucleares e outras armas de destruição em massa no espaço, na Lua ou em outros corpos celestes. O mesmo para “estabelecer bases militares, instalações ou fortificações; teste de novas armas de quaisquer tipos; ou conduzir manobras militares”. Não há nada no trato que previne o estabelecimento de Forças Espaciais, portanto, as atividades da iniciativa de Trump, em tese, não violam os termos desse acordo.

Infelizmente, o espaço está se tornando um local altamente vulnerável, assim como um potencial campo de batalha. No caso de um conflito sério, nações rivais trabalharão para eliminar ou destruir os ativos espaciais de seu oponente, como dispositivos de vigilância, GPS e satélites de comunicação.

A China já expressou seu interesse em usar lasers para remover lixo espacial — uma tecnologia que também poderia destruir satélites inimigos. No início do ano, a China demonstrou sua habilidade de destruir mísseis no espaço. A Rússia também está trabalhando em armas antissatélite, dizendo que agora tem lasers para destruir satélites.

As Forças Espaciais de Trump podem ou não se tornar realidade, mas não está imediatamente claro por que uma sucursal separada é necessária, dado que as Forças Aéreas parecem ser uma escolha óbvia para liderar essa área.

Peter W. Singer, membro da New America e autor do livro Ghost Fleet: A Novel of the Next World War, concorda que o espaço é crucial para a segurança dos Estados Unidos, mas diz que a decisão de criar um serviço militar independente é um absurdo.

“Os alienígenas da Alpha Centauri ainda não chegaram”, disse Singer ao Gizmodo. “Criar um novo serviço, o primeiro desde 1947, é um desperdício de dinheiro e energia que poderiam ser gastos para resolver os problemas militares atuais. É uma piada. De fato, até no setor espacial, a necessidade não é de um corpo militar, mas simplesmente satélites mais baratos para criar resiliência às interferências russas ou chinesas.”

[AP via Financial Post]

Imagem do topo por AP