Uma equipe internacional de pesquisadores está alegando ter descoberto traços de colesterol em um fóssil de Dickinsonia — uma misteriosa criatura que viveu durante os primórdios do período Ediacarano. Essa evidência, dizem os pesquisadores, faz do Dickinsonia o animal mais antigo de que se tem conhecimento no registro fóssil. Mas a descoberta não vem sem seus críticos, que dizem que o novo trabalho não é convincente.

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Afinal, o fóssil é ou não é de um animal?

Essa é uma pergunta que cientistas têm feito há décadas em relação ao Dickinsonia. Medindo até 1,4 metro e com segmentos parecidos com costelas que percorriam seu corpo oval, esse enigmático organismo remonta ao Ediacarano (entre 571 milhões e 541 milhões de anos atrás), um período que precedeu o Cambriano — uma época em que a vida animal “explodiu” em termos de diversidade e número.

Planta? Fungo? Algo completamente diferente disso? Nova pesquisa sugere que o Dickinsonia (fóssil acima) foi um animal primitivo. Imagem: Wikimedia

Uma nova pesquisa publicada nesta quinta-feira (20), na Science, sugere que o Dickinsonia era um animal de verdade, e não um fungo, planta ou protozoário (organismos unicelulares), como sugerido anteriormente. A evidência usada para apoiar essa alegação é bastante extraordinária: moléculas de colesterol encontradas dentro de um fóssil de Dickinsonia de 558 milhões de anos, perto do Mar Branco, no noroeste da Rússia.

Os pesquisadores, liderados por Ilya Bobrovskiy, da Universidade Nacional da Austrália, acreditam que o colesterol, um tipo de gordura, foi produzido pelo indivíduo quando ele estava vivo. E que, pelo fato de que o colesterol só pode ser produzido por animais, o Dickinsonia é, portanto, merecedor da designação de animal.

“As moléculas de gordura fóssil que encontramos provam que animais eram grandes e abundantes há 558 milhões de anos, milhões de anos antes do que pensávamos anteriormente”, disse Jochen Brocks, coautor do novo estudo e professor associado da Universidade Nacional da Austrália, em um comunicado. “Cientistas têm brigado há mais de 75 anos sobre o que o Dickinsonia e outros fósseis bizarros da biota ediacarana (biota é a totalidade de vida dentro de um período geológico particular) eram: amebas unicelulares gigantes, líquen, experimentos fracassados de evolução dos animais mais primitivos da Terra. A gordura fóssil agora confirma que o Dickinsonia é o fóssil de animal mais antigo conhecido, resolvendo um mistério de décadas que tem sido o Santo Graal da paleontologia.”

Brocks declarou o mistério “resolvido”, mas outros especialistas não têm tanta certeza, dizendo que a evidência é tanto inconclusiva quanto pouco convincente.

Os animais, também conhecidos como metazoários, são um dos três principais reinos dentro do grupo maior de eucariotos (organismos multicelulares complexos), com os outros dois sendo as plantas e os fungos. Várias características são usadas pelos cientistas para identificar animais. As mais importantes, além do fato deles serem eucarióticos, são que eles são capazes de ganhar energia engolindo outros organismos (ou seja, são heterotróficos); que eles são capazes de se mover espontaneamente em algum estágio durante seu ciclo de vida (ou seja, eles são móveis); eles se reproduzem sexualmente; e eles não têm uma parede celular rígida.

A chave para esse achado foi a descoberta de biomarcadores lipídicos dentro do fóssil do Dickinsonia. Um biomarcador é basicamente qualquer substância que aponte para a presença de processos biológicos. Inacreditavelmente, depois de 558 milhões de anos, esse fóssil ainda contém vestígios de matéria orgânica na forma de um lipídio, mais especificamente colesterol, uma “marca registrada dos animais”, nas palavras dos pesquisadores.

Bobrovskiy e seus colegas identificaram biomarcadores de hidrocarbonetos (fósseis moleculares de lipídios e outros compostos biológicos) extraídos do fóssil do Dickinsonia usando uma técnica conhecida como cromatografia gasosa acoplada a espectrometria de massa. Isso permitiu que eles detectassem moléculas específicas dentro do fóssil e medissem a abundância desses compostos. Uma “abundância impressionante” de moléculas de colesterol — mais de 93% do material orgânico extraído — foi detectada dentro do espécime. Isso é muito mais do que os 11% detectados nos sedimentos ao redor.

Versão de um artista para o Dickinsonia. Imagem: Stanton F. Fink/Wikimedia

É importante apontar que o fóssil do Dickinsonia estava sem ergosterol — um biomarcador indicativo de vida de fungos. Outros organismos, como os coanoflagelados e filastereas (organismos simples parecidos com amebas), provavelmente não produziriam os biomarcadores vistos no fóssil, dizem os pesquisadores.

“Nossos resultados tornam esses icônicos membros da biota ediacarana os animais macroscópicos mais antigos confirmados no registro fóssil, indicando que a aparência da biota ediacarana foi, de fato, um prelúdio da explosão de vida animal cambriana”, concluem os pesquisadores no estudo.

Alex Liu, paleontólogo da Universidade de Cambridge que não esteve envolvido no novo estudo, diz que o artigo é “notável” no sentido de que os cientistas conseguiram reconhecer traços de moléculas orgânicas originais em um fóssil tão antigo. O significado dessa descoberta, ele diz, é que os pesquisadores foram capazes de confirmar que um membro da biota ediacarana — um grupo de fósseis que há muito tempo têm sido difíceis de se identificar — muito provavelmente será um animal.

Dito isso, Liu acredita que o Dickinsonia provavelmente não foi o primeiro animal na Terra.

“Ele já é um organismo complexo e teria ancestrais próprios”, disse Liu ao Gizmodo. “Há também vários outros candidatos a fósseis de animais conhecidos no registro ediacarano que são talvez dezenas de milhões de anos mais velhos, enquanto estudos de relógio molecular sugerem que os primeiros animais provavelmente evoluíram até 100 milhões de anos antes do aparecimento do Dickinsonia. O importante aqui é poder confirmar que um fóssil ediacarano é um animal — isso tem sido muito difícil de se fazer com base apenas na morfologia, mas agora temos fósseis de traços, dados de desenvolvimento e biomarcadores apontando para a mesma conclusão.”

Roger Summons, professor de geobiologia do MIT, diz que o novo estudo é “robusto” e “demonstra que é possível coletar informações moleculares sobre tecidos fósseis antigos e enigmáticos”. Isso tem sido feito em materiais muito mais jovens, “mas nunca, até onde sei, em um fóssil anterior à explosão do Cambriano”, ele disse ao Gizmodo.

Jonathan B. Antcliffe, pesquisador sênior da Universidade de Lausanne, na Suíça, foi menos caridoso quando lhe pediram para comentar o novo artigo.

“Acho o estudo completamente inconvincente”, Antcliffe disse ao Gizmodo. “Existe um longo histórico de alegações muito fortes sendo feitas por causa de evidências de biomarcadores que, no fim, não acrescentam muita coisa.”

Particularmente, Antcliffe não gostou da maneira como os pesquisadores acobertaram hipóteses alternativas, dispensando, por exemplo, a possibilidade de que o fóssil tenha sido contaminado, o que “poderia facilmente ser o caso”, afirmou. Além disso, ele acredita que o novo estudo apenas limita o fóssil a uma posição dentro dos eucariotos.

“Ninguém está argumentando a favor da posição alternativa de que o Dickinsonia seja bacteriano”, disse Antcliffe. “Ninguém acha que o Dickinsonia é bacteriano. Ninguém. Portanto, já sabemos que ele é um eucarioto de algum tipo. Existem diversos eucariotos muito diferentes, e os autores escolhem a dedo alguns exemplos e rapidamente os rejeitam antes de ir imediatamente para uma conclusão de que seja um animal.”

Ele diz que o Dickinsonia poderia perfeitamente ser um dos primeiros animais, mas existe “pouquíssima evidência” para sugerir que ele seja. Sua recomendação aos pesquisadores é que eles analisem a anatomia de fósseis para corroborar mais suas alegações.

E aí, é um animal?

Parece que o debate continua.

[Science]