Em 2015, uma mulher chamada Imy Santiago escreveu um review na loja da Amazon de um romance que ela leu e curtiu. A Amazon imediatamente tirou do ar sua análise e disse para a Santiago que ela tinha “violado as políticas” da empresa. Santiago releu sua análise e não viu nada de esquisito, então ela tentou postar novamente. “Você não pode escrever reviews sobre este produto”, informou a Amazon para ela.

Facebook deu acesso a mensagens privadas de usuários para Spotify e Netflix

Quando ela escreveu para a Amazon sobre isso, a empresa disse a ela que “a atividade da conta indica que ela conhecia o autor do romance pessoalmente”. Santiago não sabia quem era o autor, então ela escreveu outro e-mail para a Amazon e escreveu um post falando da vigilância à la “big brother” da companhia.

Entrei em contato com Santiago e com a Amazon na época para tentar entender o que tinha acontecido. Santiago, que é uma autora indie de livros, me disse que ela já esteve no mesmo salão que a autora em Nova York meses antes em uma sessão de autógrafos, mas que não falou com ela, e que apenas a seguiu no Twitter e no Facebook após ler os livros. A autora do review disse que nunca a contatou nem via Twitter nem via Facebook.

Na época, a Amazon também não me falou muita coisa. A porta-voz Julie Law comentou comigo por e-mail na época que a empresa “não comentava casos individuais”, mas informou que “quando a conta de alguém que escreve uma análise tem elementos de correspondência com uma conta de autor da Amazon, concluímos que existe risco de enviesamento. Isto pode prejudicar a confiança do consumidor, então revemos o review. Posso assegurar que investigamos cada caso.”

“Desenvolvemos mecanismos, tanto manuais como automáticos com os anos ao detectar, remover ou prevenir analises que violam nossas diretrizes”, concluiu a porta-voz da Amazon.

Uma nova reportagem do New York Times sobre o surpreendente nível de compartilhamento de dados do Facebook com outras empresas de tecnologia pode ajudar a explicar melhor tais mecanismos:

A rede social permitiu que o mecanismo de busca Bing, da Microsoft, visse os nomes de praticamente todos os amigos dos usuários do Facebook sem consentimento, mostram os registros, e deu à Netflix e ao Spotify a capacidade de ler as mensagens privadas dos usuários do Facebook.

O Facebook permitiu que a Amazon obtivesse nomes de usuários e informações de contato por meio de seus amigos e permitiu que o Yahoo visse fluxos de publicações de amigos ainda neste verão [do hemisfério norte], apesar de declarações públicas de que havia interrompido esse tipo de compartilhamento anos antes… Até 2017, Sony, Microsoft, Amazon e outros podiam obter os endereços de e-mail dos usuários por meio de seus amigos.

Se a Amazon estava obtendo dados do Facebook sobre quem conhecemos, isso pode explicar porque a análise de Santiago foi bloqueada. Como Santiago tinha seguido a autora no Facebook, a Amazon ou seus algoritmos veriam o nome dela e seus contatos como se estivesse conectados com a autora, segundo as informações do NYT. O Facebook não deixava que os usuários soubessem que esse tipo de compartilhamento de informações ocorria nem obteve consentimento das pessoas. Dessa forma, Santiago, ou mesmo a autora, não teriam como saber o que aconteceu exatamente.

A Amazon não quis comentar com o New York Times sobre seu acordo de compartilhamento de dados com o Facebook, mas “disse que usou as informações de forma apropriada”. Perguntei à Amazon como eles estavam usando os dados obtidos do Facebook, e se eles estava usando para fazer conexões como a descrita por Santiago. A resposta foi abaixo do esperado:

“A Amazon usa APIs fornecidas pelo Facebook para permitir experiências do Facebook para nossos produtos”, disse a porta-voz da Amazon em um comunicado em que não responde à minha pergunta. “Por exemplo, dar aos consumidores a opção de sincronizar contatos do Facebook em um tablet da Amazon. Usamos essa informação de acordo com nossa política de privacidade.”

A Amazon não quis comentar nada além disso.

Por que o Facebook estava cedendo dados sobre seus usuários para outras gigantes da tecnologia? A reportagem do NYT é um pouco vaga sobre isso, mas é dito que o Facebook “obtém mais usuários” ao ter parcerias com essas companhias (embora não esteja claro como), mas também que obteve dados em troca, especificamente dados que ajudaram nas recomendações da ferramenta “Pessoas que você talvez conheça”. Via NYT:

O Times analisou mais de 270 páginas de relatórios gerados pelo sistema — dados que refletem a extensão de acordos mantidos pela rede. Entre as revelações está que o Facebook obteve dados de múltiplos parceiros para uma controversa ferramenta de sugestão de amigos chamada de “Pessoas que você talvez conheça”.

O recurso, introduzido em 2008, continua ainda que muitos usuários do Facebook sejam contra, pois não sabem direito como ela funciona e pelo fato de a ferramenta ter conhecimento sobre relações das pessoas na vida real. Gizmodo e outros sites reportaram casos de recomendação de contatos esquisitas, como entre pacientes do mesmo psiquiatra, membros da família afastados ou mesmo entre assediador e vítima.

O Facebook, por sua vez, usou lista de contatos de parceiros, incluindo Amazon, Yahoo e da empresa chinesa Huawei — que tem sido sinalizada por oficiais americanos como uma ameaça — para ter maior conhecimento entre as relações das pessoas e sugerir mais conexões, segundo mostram os dados.

“Você analisa meus algoritmos, e nós analisaremos o seu algoritmo em troca” parece ser a ordem dos contratos do Facebook com as empresas.

Em 2017, perguntei para o Facebook se a rede estava obtendo informações de “terceiros, como corretores de dados” para ajudar a fornecer recomendações esquisitas e precisas de amigos. Um porta-voz me disse por e-mail que “o Facebook não usa informações de corretores de dados para a ferramenta Pessoas que você talvez conheça”, o que agora parece ter sido uma resposta evasiva feita de propósito.

O Facebook não quer nos dizer como seus sistemas funcionam. A Amazon não quer também informar como seus sistemas funcionam. Estas companhias estão minerando nossas informações, às vezes em conjunto, para fazer conexões precisas e inconfortáveis, mas também para fazer suposições errôneas. Eles não querem dizer para a gente como funciona, sugerindo que seria muito invasivo revelar. Olha, ainda bem que existem pessoas vazando esses contratos e ações judiciais, pois se dependêssemos das empresas, estaríamos fritos…