Fale o que quiser sobre os smartphones modulares – e certamente há muita coisa a se dizer –, mas eles podem ter um benefício claro em relação aos celulares que a maioria de nós carrega no bolso: reduzir o lixo eletrônico.

Jogar nossos aparelhos fora simplesmente porque não podemos ou sabemos como consertá-los contribui muito na crise global que envolve o descarte de materiais eletrônicos, com resultados potencialmente desastrosos. Não ajuda o fato de as fabricantes que fazem a maioria desses produtos não contribuírem para diminuir o impacto.

O Fairphone, no entanto, parece ser uma exceção à regra. A empresa alemã anunciou nesta semana o lançamento da terceira geração de seu celular modular, o Fairphone 3. Entre suas características estão a priorização de transparência, acessibilidade e maior usabilidade em relação a aparelhos caríssimos.

Com o lançamento desse modelo, a companhia mostra que está comprometida a desafiar um padrão de empresas que usam seus monopólios para restringir reparos e deixar o consumidor refém de seus próprios programas.

Há dois principais motivos pelo qual nós, como consumidores, trocamos tão rápido os nossos dispositivos: falta de escolhas (ou incapacidade) para o reparo e preços exorbitantes e muitas vezes arbitrários. Pense neste cenário: você quebra o seu celular e o custo de conserto é um pouco menor do que comprar um smartphone novinho. O que você faz? Provavelmente é melhor gastar um pouquinho mais e pegar um novo, né?

Mas se você pudesse comprar os equipamentos originais da fabricante de peças por preços baixos e você mesmo fazer o reparo ou conseguir uma assistência barata seria mais vantajoso, não? Esse é o argumento feito pelas pessoas que lutam pelos direitos do consumidor e brigam para que os próprios clientes possam consertar suas coisas. Sem mencionar que existem sérios impactos ambientais e humanitários para apoiar essa causa.

Nathan Proctor, que lidera a campanha para o Direito ao Reparo do Public Interest Research Group dos EUA, elogiou o Fairphone 3, dizendo ao Gizmodo, por e-mail, que “é excelente ver uma fabricante tentando abordar a mais importante desvantagem de nossos smartphones. Eles são parte de um pequeno mercado, mas um lembrete de que fabricantes maiores poderiam fazer melhor se quisessem”.

Três gerações do Fairphone

Um reconhecimento desses fatos – algo que é incomum na indústria de smartphone – parece ser o modelo em torno do qual a Fairphone posiciona seus produtos no mercado. No anúncio do Fairphone 3 feito nesta semana, a companhia apontou especificamente para os diversos problemas que estão no centro do mercado, incluindo as emissões de dióxido de carbono, lixo eletrônico, más práticas de fornecimento e condições de trabalho miseráveis.

A Fairphone diz que o seu próprio produto é “um celular que foi feito para durar”. Para assegurar isso, o aparelho é feito de sete módulos – incluindo uma câmera frontal de 8 megapixels e um sensor dupla de 12 megapixels na traseira – que podem ser trocados facilmente com peças de reparo. O aparelho vem ainda com Gorilla Glass 5, bem como 64 GB de armazenamento que pode ser expandido para mais de 256 GB via cartão microSD. Por fim, ele roda o Android 9, mas o TechCrunch diz que uma atualização futura vai permitir que os usuários optem pelo Android Open Source Project.

A melhoria em relação às gerações anteriores está no projeto: a arquitetura modular foi aprimorada e ele tem um visual mais compacto, fino e refinado. A ideia dos módulos não é customizar ou fazer upgrades de peças, mas ter uma maneira fácil de consertar as peças que eventualmente quebrarem. É curioso, inclusive, que a segunda geração do aparelho vinha com um processador Qualcomm Snapdragon 801 e o Fairphone 3 vem com um chipset de uma linha abaixo: Qualcomm 632.

Em entrevista ao TechCrunch, a empresa diz que remodelou parte de seu plano de negócios uma vez que a indústria como um todo não está preparada para projetos sustentáveis, citando a falta de suporte para os componentes e software dentro de uma janela de aproximadamente dois anos. A grande promessa é que a terceira geração do Fairphone consiga durar entre cinco e sete anos – para isso, planejaram um estoque de componentes e parcerias.

A Fairphone não apenas se preocupa em adquirir seus materiais de forma responsável – como ao usar cobre e plásticos reciclados e materiais livres de conflitos – como afirma que recompensará os consumidores que devolverem seus telefones por meio de seu programa de reciclagem.

O porta-voz da empresa não respondeu imediatamente aos pedidos do Gizmodo para comentários. No entanto, a CEO da Fairphone, Eva Gouwens, disse em um comunicado que a companhia “desenvolveu o Fairphone 3 para ser uma alternativa realmente sustentável no mercado, o que é um grande passo em direção a uma mudança que irá perdurar. Ao estabelecer um mercado para produtos éticos, queremos motivar toda a indústria a agir com mais responsabilidade uma vez que não conseguiríamos alcançar essa mudança sozinhos”.

O produto é vendido somente na Europa com preço sugerido de 450 euros, aproximadamente R$ 2.100. Os envios começam no dia 3 de setembro.