Relatos esquisitos de que funcionários da embaixada dos Estados Unidos em Cuba apresentaram sintomas de trauma cerebral, após supostamente ouvirem sons que lembram metal sendo raspado ou insetos, continuam a confundir pesquisadores da área médica. No entanto, uma equipe da Universidade de Michigan pode ter encontrado uma explicação razoável para o incidente.

Americanos sofrem sintomas de trauma cerebral na embaixada em Cuba, mas razões são misteriosas

Kevin Fu e outros membros do grupo de pesquisa de Segurança e Privacidade da universidade dizem que eles acreditam que os sons poderiam ter sido causados por um equipamento de espionagem cubano mal posicionado. Isso acabou resultando em uma interferência audível — o que significa que os cubanos podem ter feito isso de propósito. Sobre isso, escreveu o Miami Herald:

Fu e sua equipe usaram gravações dos sons obtidas pela agência Associated Press e aplicaram engenharia reversa para replicar o que foi ouvido pelos diplomatas. Ao combinar sinais de ultrassom, eles descobriram que a distorção resultante produziu um som audível similar ao que foi ouvido na gravação original.

“Quando uma segunda fonte de som ultrassônico interferiu na primeira fonte, a distorção de intermodulação criou um subproduto audível que compartilha características espectrais com o áudio obtido pela agência Associated Press”, diz a pesquisa da universidade.

“Nós imaginamos que alguém tinha aplicado uma pegadinha em nós”, escreveram no estudo. No entanto, quando eles fizeram um procedimento conhecido como “demodulação AM” resultou em um “som que lembra o motor de um veículo de Formula 1”.

Neste cenário, dispositivos individuais ou vários deles próximos uns dos outros podem ter causado os efeitos de saúde imprevisíveis que os diplomatas apresentaram. (Existe ainda a possibilidade de que tons audíveis não foram responsáveis pelos problemas de saúde, mas apenas uma coincidência.).

Fu disse ao Daily Beast que a combinação de tons ultrassônicos pode criar um barulho de 7 kHz que “qualquer adulto ou criança podem ouvir”, e que um uso comum da tecnologia ultrassom é a detecção de movimento, que poderia ter ativado outros equipamentos de vigilância.

“É uma teoria que parece um pouco mais prática, pois existem sinais de que pode ter sido má engenharia”, disse Fu.

Esta explicação também levanta algumas questões sobre o incidente: pesquisadores acústicos dizem que o ultrassom pode ser desviado por objetos como paredes e janelas, embora não tenha sido excluída a possibilidade de agentes cubanos terem escondido dispositivos na embaixada ou na casa dos diplomatas.

Como notado em um recente artigo no periódico médico JAMA, para causar dano neurológico com ultrassom seria necessário alto-falantes gigantes. Outras explicações como agentes químicos ou biológicos ou mesmo histeria em massa não parecem ser justificativas com evidências. Existe ainda quem fala de agentes não-identificados usando armas de micro-ondas que foram usadas contra funcionários da embaixada, mas, por ora, não passa de especulação.

A equipe da Universidade de Michigan argumenta que existe uma “falta de consenso e pesquisa dos danos causados por ultrassom”, e que tudo pode ter sido apenas um acidente, e não algo premeditado por Cuba.

É claro que essa explicação, por mais que pareça razoável, não significa que ela seja correta. Fu disse ao Daily Beast que o campo de relevância do assunto é provavelmente muito pequena para que o estudo seja submetido para análise de pares.

Enquanto isso, um porta-voz da Universidade de Miami disse ao Herald que a equipe da escola de medicina da instituição está acompanhando os estudos e que vai apresentar um relatório detalhado com alto nível de compreensão sobre o assunto e que as conclusões dele ainda não foram abordadas por outros.

Dificilmente o governo cubano admitiria a relação com os incidentes, caso eles tivessem, de fato, envolvidos. As relações entre Cuba e Estados Unidos foram restabelecidas após décadas de hostilidade mútua e suspeitas, embora toda essa situação tenha sido usada com pretexto pelo presidente Trump para reverter a reaproximação. Pesquisadores cubanos dizem que os sons foram provavelmente emitidos por grilos jamaicanos.

[Miami Herald/The Daily Beast]

Foto do topo: Embaixada de Cuba nos Estados Unidos. Imagem: AP