Talvez você saiba quem é Katherine Johnson, cientista que realizou inúmeros cálculos essenciais da Nasa, ou conheça a trajetória de Marie Curie, a primeira mulher a receber um Nobel e a única a ganhar esse prêmio em áreas diferentes (em química e física). As duas personalidades, essenciais para os avanços da humanidade, enfrentaram barreiras de gênero antes de alcançar o reconhecimento. No entanto, anos depois, ainda que diante dos avanços da sociedade em relação aos seus direitos, as mulheres ainda são minoria no meio científico. Segundo dados da Unesco, elas correspondem apenas a 28,8%  dos pesquisadores do mundo.

A fim de entender mais sobre essa desigualdade, a Elsevier, empresa de destaque no cenário científico global, publicou o estudo “A  jornada do pesquisador através de lentes de gênero”. A análise envolveu a participação de mulheres em pesquisas, progressão na carreira e percepções em 26 áreas temáticas de toda a União Europeia e mais 15 países. Os resultados ressaltam que, embora a igualdade de gênero na ciência esteja aumentando há uma década, ainda há dificuldades a serem superadas. Entre as conclusões, os trabalhos de autoria feminina são menos citados do que os de homens e eles são mais presentes em posições de prestígio na lista de autores de um artigo.

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No Brasil, o levantamento da Open Box da Ciência, realizado pela organização Gênero e Número, mostra que há ao menos 77,8 mil pesquisadores doutorandos na Plataforma Lattes, base de informações usada por acadêmicos. Dentre eles, 59,69% são homens e 40,3%, mulheres. Quando o assunto é divisão de áreas, elas se destacam com 57% de participação na saúde; já na linguística, letras e artes, 53,7%. No caso das ciências sociais aplicadas, o número cai para 40,01% e é ainda mais baixo nas ciências exatas e da terra,  com 31,1%. O menor índice de presença feminina é nas engenharias, com apenas 26%.

Andreia Malucelli, diretora da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), acredita que isso ocorre por causa do machismo estrutural da sociedade, que faz com que as mulheres não acreditem que podem alcançar profissões mais técnicas. “Quando ingressamos na universidade, somos minoria nas salas de aula e só temos professores homens. Então acabamos sofrendo preconceito e sendo desacreditadas pelos colegas”. Malucelli conta que, aquelas que conseguem concluir o curso ainda são silenciadas durante a carreira. Isso porque os cargos mais altos raramente são ocupados por elas. “No meu caso, tive que trabalhar muito mais para mostrar o meu talento. Ao assumir a liderança, notei que meu nome não era o favorito já que a maioria no trabalho é homem e eles têm dificuldade de serem liderados por mulheres”, revela.

Andreia Malucelli é direwtora de uma das principais universidades de engenharia do Paraná. Imagem: Edjane Madza

Divulgar é reconhecer e valorizar

Foi a partir do incômodo com a postura machista e o desrespeito no ambiente de trabalho que a zoóloga Rafaela Falaschi teve a ideia de criar o site Mulheres na Ciência, em 2016. No portal é possível encontrar entrevistas, agenda de cursos, curiosidades e relatos de mulheres cientistas. Para ela, contar histórias e mostrar o ponto de vista feminino desse universo podem ajudar outras mulheres a não se sentirem sozinhas. “Os comportamentos negativos por vezes são tão sutis que acham que somos loucas. Sempre perguntam se somos solteiras e nos assediam, é inaceitável”.

A falta de divulgação também foi algo que moveu a pesquisadora, que acredita que, para alcançarmos equidade, é preciso representatividade, além de reconhecer o privilégio masculino. “Nossa plataforma mira em ser um espelho porque só se pode ser aquilo que se pode ver. As pessoas não sabem que existem cientistas mulheres no Brasil porque temos um estereótipo que precisa ser quebrado”, afirma Falaschi. “Precisamos mostrar que existem mulheres com muita capacidade, mas que, por vezes, faltam oportunidades para que alcancem seus sonhos. Ainda há muito que problematizar e brigar para enfrentarmos esse problema”.

Rafaela Falaschi, criadora do Mulheres na Ciência. Imagem: Divulgação.

Meninas e o futuro da ciência

Diana Roque sempre quis ser cientista. Ela se inspirou na mãe, Maria Inês Rodrigues, que a levava para trabalhar quando criança no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP). Para ela, essa vivência na juventude e o incentivo dos pais foi essencial no momento de decisão da carreira. Pensando nisso, juntas, mãe e filha criaram o projeto Menina Ciência, Ciência Menina, que aproxima alunas de escolas públicas e particulares do ambiente universitário. As jovens participam de palestras, experimentos e atividades educativas na Universidade Federal do ABC (UFABC) que visam humanizar a ciência e abrir novas possibilidades para as garotas. “Nos filmes e nos livros didáticos só vemos homens cientistas. Se as meninas não tiverem referências, provavelmente perderemos a oportunidade de agregar mentes brilhantes no futuro”, reflete Roque.

Participantes do Menina Ciência, Ciência Menina

A primeira edição do evento, em 2019, contou com mais de duas mil inscrições para 50 vagas. Já no ano passado, a oferta foi ampliada para 120 vagas ao redor do país, uma vez que tudo ocorreu de forma online devido à pandemia de Covid-19. Porém, mesmo com as dificuldades da distância, a resposta foi gratificante. “No primeiro encontro pedimos para elas desenharem um cientista e a maioria criou um homem em um laboratório. No fim, pedimos para elas fazerem a mesma coisa e aí elas pensaram em si mesmas como astronautas, biólogas e até matemáticas”, conta Rodrigues.

Com o objetivo de abordar a ciência na infância de forma criativa e inovadora, o projeto Evolução para Todes criou curtas-metragens educativos com temas como a origem das espécies. As narrativas inclusivas e divertidas pretendem construir novos diálogos e pensar na inclusão racial e de gênero no contexto da divulgação científica. “Queremos criar outras realidades no imaginário dos pequenos para que, no futuro, possamos ter mais diversidade”, diz a coordenadora Mariana Inglez.

No primeiro vídeo, o protagonismo é de uma garotinha que pergunta aos pais de onde viemos, quebrando o mito de que só os garotos são curiosos. Já no segundo, uma cientista conduz uma aula sobre nossas origens. “Pensamos nos detalhes dessas animações de forma que elas se aproximassem com a realidade brasileira”, explica Inglez. “Fazendo isso, rompemos os moldes da academia e criamos pontes para que as meninas ocupem mais espaço na ciência”

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