No Brasil, nos acostumamos a desconfiar do governo quando anuncia que vai investir em algo, mesmo quando há dinheiro e só depende dele – vide, entre 85 milhões de exemplos, o caso do trem-bala. Mas ontem, parece que pela primeira vez em anos, a palavra de um ministro valeu como confirmação absoluta, irrevogável (logo a deste ministro) para os amantes de tecnologia. A torcida por uma fábrica de coisas da Apple no Brasil impregnou o noticiário, que por um momento não fez muita questão de detalhes. Nos apegamos a umas frase de Mercadante e pronto, parecia que o governo brasileiro tinha agora uma estatal de tecnologia, que podia anunciar, como saiu no Jornal Nacional, a fabricação de iPads localmente até novembro, que isso era certo. Mas bem, quem decide isso e quem tem o dinheiro e tecnologia são a Foxconn e a Apple. A empresa de Cupertino está muda – e só se pronunciará sobre o caso, se o fizer, no dia 20, quando anuncia os resultados fiscais do trimestre. E a Foxconn, que segundo a presidente já teria garantido US$ 12 bilhões em investimento? Depois de insistentes pedidos de contato por e-mail e ligações para a China, ela nos respondeu.

A minha pergunta para a empresa, por intermédio da assessoria de imprensa, foi bem clara: o ministro e nossa presidente haviam confirmado o investimento de US$ 12 bilhões no Brasil e a instalação de uma fábrica capaz de produzir iPads até novembro. Procede? O pronunciamento:

O Brasil é um país rico em recursos naturais, um vasto mercado de consumo e tremendo potencial para desenvolvimento econômico. Ele também está estrategicamente posicionado para atender a demanda de mercados crescentes na América Latina. Guiados por uma estratégia de “estar onde o mercado está”, nós há muito tempo estudamos oportunidades de investimento no Brasil. Nós estamos neste momento no processo de explorar oportunidades neste mercado importante e estamos conduzindo uma análise profunda do ambiente de investimentos daquele país. Em relação à confirmação de algum projeto de investimento específico, a política da Foxconn é de apenas fazer um anúncio depois de receber a aprovação do conselho diretor da companhia e autoridades relevantes.

No original:

Statement from Foxconn 2011.04.13

Being the leader in the global contract manufacturing industry, Foxconn Technology Group’s time-honored business strategy of doing what is best to serve the needs of key markets around the globe has helped us succeed in a very competitive industry environment while also positioning us as the most trusted partner to leading global brands.

Brazil is a country with rich natural resources, a vast consumer market and tremendous economic development potential.  It is also strategically positioned to meet the needs of growing markets throughout Latin America.

Guided by a strategy of “being where the market is”, we have long been studying investment opportunities in Brazil.  We are currently in the process of exploring opportunities in that important market and conducting a substantive analysis of that country’s overall investment environment.  With regard to confirmation of any specific investment projects, Foxconn’s policy is to only make an announcement following the receipt of relevant approvals from our company’s Board of Directors and any relevant authorities.

Em resumo, nada de concreto: “sim, estamos estudando a possibilidade. O Brasil é o país do futuro.” A Foxconn, como maior montadora de eletrônicos do mundo, estaria louca em não estudar o assunto. O Brasil cresce a um ritmo acelerado e somos ávidos consumidores de produtos eletrônicos. Nossos impostos de importação quase que obrigam fabricantes a instalar fábricas aqui para vender, então mais uma a fazer isso – a Apple – é um caminho natural. A Foxconn já tem linhas de montagem aqui e precisa de mais locais de produção, por exemplo, de telas para celulares e tablets – há pouquíssimas fábricas no mundo e como a Folha lembrou, compramos US$ 3 bilhões nesse tipo de material. Mas investimentos de 12 bilhões de dólares? Fábrica de iPads até novembro, 100 mil empregos, para 20 mil engenheiros, como anunciado pelo ministro? Acho lindo para uma empresa que tem 4,3 mil empregados hoje atende clientes como Dell, Sony e HP. Mas como analisa a mesma Folha:

Se o número for confirmado, a Foxconn vai enfrentar problemas de mão de obra. Estima-se que o deficit de profissionais para o setor chegará a 92 mil pessoas em 2011 e 750 mil até 2020. Para Ivair Rodrigues, da consultoria IT Data, o investimento é estranho diante do perfil da Foxconn. Empresas de montagem de equipamentos -que não investem em pesquisa- costumam ter aportes baixos, sobretudo em galpões e máquinas. “Com US$ 12 bilhões seria possível construir três fábricas de chips da Intel”, diz.

No Valor Econômico de hoje, a reportagem sob o título “Valor do investimento da Foxconn no Brasil surpreende analistas”, renova o ceticismo sobre a cifra divulgada:

Para outro especialista, o valor é muito alto se comparado a projetos, como a fabricação de processadores. “Uma fábrica que usa as tecnologias mais modernas de produção, custa cerca de US$ 3 bilhões”, diz. O analista lembra que em fevereiro a Intel, maior fabricante de chips do mundo, anunciou investimento de US$ 5 bilhões até 2013 para construir uma nova fábrica nos Estados Unidos. “E isso engloba todo o processo desde o minério até o chip pronto, não só a montagem de equipamentos”, completa.

O Brasil cresce, mas de todo modo é no mínimo curios este movimento da Foxconn, justamente quando o dólar tem queda recorde. Estamos falando demais em fábricas de eletrônicos que precisariam de quase todos os componentes importados no Brasil – caso do iPad. Mesmo com as previstas benesses fiscais, vale? Veja o exemplo da indústria automobilística: nossas exportações estão em queda e importações em alta: 22% dos carros que estamos comprando em 2011 já são importados, com tendência de alta. Pela primeira vez desde 1995, o número de veículos produzidos no país será menor que o mercado consumidor local, que continua crescendo. Mesmo com fábricas se beneficiando de vários incentivos fiscais, ainda há o tal “custo Brasil”. Por isso, quando a nossa fábrica de iPads acontecer, não espere uma queda tão grande de preços ou acredite em conversas de Papai Noel, como avaliou o Cardoso.

Por essa e por outras razões, foi interessante ver a evolução do noticiário estrangeiro sobre o tema, que se distanciou do nosso, por vezes ufanista e confiante nas autoridades (quando convém). A reportagem da agência de notícias Reuters, a mais citada no exterior e reproduzida aqui pela INFO e G1 pela manhã, teve o título alterado algumas vezes durante o dia. No fim, estava em um conservador “Fabricante do iPhone, Foxconn estuda investir US$ 12 bilhões no Brasil.” O texto original, que tinha a frase de Mercadante sobre a fábrica de iPads, foi alterado. No final, não há menção ao tablet, ficou apenas esta declaração do ministro “As negociações estão longe de estarem completas, mas estou confiante.”  É só ler lá.

Eu entendo que muita gente vai dizer que é picuinha e que estamos sendo teimosos, por causa deste post. Mas não, só estamos pedindo a todos – de fãs da Apple e quem cobre tecnologia – um pouco mais de calma nessa hora importante. A assessoria da Apple no Brasil se resumiu a dizer que “não comenta rumores” – até porque, enquanto ela não se pronunciar, é um rumor.

Mas, que fique claro: eu quero de verdade estar absolutamente errado em ser cético. Até porque estou certo como todos aqui que há “fogo” atrás dessa fumaça toda: o governo brasileiro está com essa ideia de “tablets” fixa na cabeça, os planos de subsídios fiscais estão sendo discutidos e há bem mais gente interessada do que só a Apple e Foxconn – Motorola e Samsung já fabricam tablets aqui, então nada de muito estranho em ver a líder do segmento fazendo o mesmo. A recente mudança de sede da Apple para um distrito industrial em Jundiaí, um galpão de distribuição bem próximo a atual fábrica da chinesa, como noticiado pela Info, pode ser mais um indício de algo concreto estar próximo. E o silêncio da Foxconn sobre o tema pode ser detalhe meramente contratual.

Mas a verdade é que ainda não sabemos de muita coisa e não podemos nos apegar à palavra do governo. Se a Apple está esperando para vender o iPad 2 aqui só para quando puder montar o tablet, isso é sem dúvida uma má notícia para a gente e para ela própria: veríamos um atraso ainda maior, mas dessa vez com os concorrentes com produtos mais atraentes já nas lojas. Não sabemos quando veremos o “Designed by Apple in California, assembled in Brazil” na carcaça de alumínio dos produtos prateados – provavelmente não nessa geração. Mas eu quero acreditar que seja logo.