Talvez você não conheça a Nest, mas ela faz dois produtos que representam bem a Internet das Coisas – ou seja, dispositivos que podem ser controlados via internet. E o Google resolveu comprá-la por US$ 3,2 bilhões em dinheiro. Por que pagar tanto por um produto de nicho? A resposta é simples, mas importante: porque o Google pode, porque precisa, e porque se não comprasse, alguém o faria.

No momento, a Nest vende dois produtos. O Thermostat regula a temperatura da sua casa de forma inteligente: por exemplo, no inverno, ele aquece a casa antes de você acordar; se desliga após você sair para o trabalho, economizando energia; e pode ser controlado a partir do seu smartphone ou tablet. Por sua vez, o Nest Protect é um detector de fumaça inteligente sobre o qual já falamos por aqui.

Do ponto de vista financeiro, os US$ 3,2 bilhões pagos pelo Google parecem loucura. No início do mês, a Nest levantou investimentos que davam à empresa um valor de US$ 2 bilhões. E isso já parecia muito, especialmente tendo em conta que, no ano passado, a empresa tinha valor estimado de US$ 800 milhões. Além disso, a Nest é uma empresa cujos produtos, mesmo sendo populares, vendem só dezenas de milhares de unidades a cada mês.

Mas, em 30 de setembro do ano passado, o Google tinha quase US$ 55 bilhões em dinheiro para fazer o que quisesse. Eles gastaram parte dessa grana comprando a Boston Dynamics, e isso é divertido e futurista, mas a Nest dá ao Google algo que lhe faz muita falta: a chance de entrar nas casas dos usuários. Na verdade, é mais do que isso: é uma chance para entrar no cérebro das pessoas – seja mantendo e expandindo a Nest, seja usando seu talento para criar algo novo.

nest thermostat termostato

Primeiro, é possível que os bilhões tenham servido para pagar apenas pelos funcionários da Nest, algo chamado de “acquihire” (mistura de “aquisição” e “contratação” em inglês). Se for o caso, pode ser um dinheiro bem gasto. O fundador da empresa, Tony Fadell, já transformou uma empresa antes: ele começou na Apple como o principal designer do iPod. Em julho, ele disse ao New York Times:

A música sempre foi uma das minhas paixões… [em 2001], a Apple Computer me contratou como consultor no projeto que viria a ser o player de música digital iPod. Computadores, mais música, mais Apple – era outro trabalho dos sonhos.

Oito semanas depois, eu apresentei a Steve Jobs o conceito inicial do iPod, e fui encarregado de criar e liderar a equipe de desenvolvimento. Um iPod levou a outro, tornando-se 18 gerações de iPods – e, em seguida, três gerações do iPhone.

Imagine o que um cara desses pode fazer no Google! A empresa pode se encontrar cada vez mais como uma expert em design para seus produtos futuros.

Segundo, é possível que o Google esteja mesmo interessado em automação residencial, o que também faz sentido. É importante lembrar que o Google, por mais que desenvolva projetos ousados – carros autônomos, Glass, entre outros – é uma empresa de publicidade. Ela ganha dinheiro oferecendo anúncios relevantes baseados nas buscas que você faz no seu navegador, nas suas conversas por e-mail ou naquilo que você dita ao Google Now.

Sim, eles compraram a Motorola e fizeram várias parcerias para o Nexus, o que nos trouxe smartphones e tablets muito competentes – mas as tentativas do Google entrar na sua casa fracassaram.

A Google TV? Já se passaram mais de três anos e nenhuma fabricante parece se importar. A Logitech abandonou completamente a plataforma, enquanto a LG decidiu que o webOS seria uma aposta melhor – e ele é bem promissor mesmo. Deixar de lado a marca “Google TV” pode ajudar um pouco – talvez seja mais fácil aceitar uma Android TV. O Nexus Q, aquela esfera que faz streaming de mídia? Ela era tão profundamente ruim que o Google a ofereceu de graça para quem entrou na pré-venda – e depois parou de vendê-la.

Mais recentemente, o Google está encontrando seu caminho, mas ainda não chegou lá. O Glass é bacana, futurista, mas ainda é socialmente desafiador. O Chromecast é maravilhoso mas limitado, um gadget bom e barato mas que ainda não alcança a concorrência.

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E tudo isso é importante. Sua casa é a próxima grande fronteira para as empresas de tecnologia, que procuram vender um hardware para aprender sobre você. Cada bit de dados que o Google puder espremer da sua vida ajuda seus motores de publicidade a quantificar você. Quanto mais partes de sua vida ele puder transformar em 1s e 0s, mais fácil será para um anúncio mais relevante encontrar você na infinidade da internet.

Mas o problema fundamental do Google com hardware é que a empresa domina a tecnologia como ninguém, mas não entende as pessoas que o utilizam. Sim, a maior fraqueza do Nest é só ter dois produtos, e nenhum deles justifica US$ 3,2 bilhões em dinheiro – mas sua grande força é que ela entende os problemas que os seres humanos têm, e sabe resolvê-los de uma forma fácil de usar.

Bem, talvez você se importe com o Google bisbilhotando termostatos por aí. Por enquanto, isso não é problema. Eis o que a Nest diz em seu FAQ:

Os dados dos clientes da Nest serão compartilhados com o Google?

Nossa política de privacidade limita claramente o uso de informações de clientes para fornecer e melhorar os produtos e serviços da Nest. Nós sempre levamos privacidade a sério, e isso não vai mudar.

Mas talvez isso mude, e isso pode ser bom. Por exemplo, o Google Now possui lembretes baseados em localização (“Lembre-me de comprar X quando eu for ao supermercado Y”) . Imagine se ele fizesse o mesmo na sua casa! Ele pode torná-la mais eficiente, segura e inteligente.

O Google comprou a Nest pelo seu termostato e detector de fumaça – que podem ser lucrativos algum dia, se já não forem? Ou adquiriu só os funcionários? De um jeito ou de outro, eles ganharam os cérebros por trás desses produtos e a habilidade da empatia para com os seres humanos – algo que o Google precisa muito.