A divisão entre os trabalhadores e funcionários terceirizados no Facebook e Google tem aumentado. A distinção, inclusive, determinou quem merece trabalhar de casa em meio a uma pandemia global.

Ao longo desta semana, diversas grandes empresas de tecnologia começaram a recomendar que seus funcionários façam home office e videochamadas, como uma medida de precaução para evitar a potencial propagação da COVID-19, a doença respiratória que ultrapassou os 125 mil casos confirmados em todo o mundo.

A empresa que controla o Google, Alphabet, pediu a todos os seus funcionários norte-americanos para trabalharem remotamente até 10 de abril — a mesma orientação posteriormente foi dada aos funcionários da empresa na Europa, África e no Oriente Médio.

O Facebook anunciou uma política semelhante: “Estamos ampliando a nossa orientação global para permitir que qualquer pessoa cujo trabalho o permita, trabalhe voluntariamente à distância até sexta-feira, 10 de abril”, diz uma declaração da empresa dada à CNN na quinta-feira (12). Em comunicado, que você pode conferir na íntegra no fim deste post, o Facebook Brasil reforçou as práticas de home office implementadas na companhia e, em casos em que não é possível, a companhia diz que os prestadores de serviço são aconselhados a evitar contatos e aglomerações sociais.

Mas, de acordo com várias reportagens, as diretrizes não parecem se aplicar às extensas redes de terceirizados e temporários do Facebook ou do Google, que são tecnicamente empregados por agências terceirizadas e não têm acesso aos mesmos benefícios que os trabalhadores das companhias.

No Google, onde, segundo estimativas, os terceirizados constituem metade do pessoal total da empresa, a política impede que alguns membros da chamada “força de trabalho ampliada” tenham acesso remoto às suas tarefas.

Um porta-voz do Google disse ao Guardian que os funcionários e terceirizados cujo trabalho exigia a sua presença física no local de trabalho ainda eram obrigados a comparecer. A empresa anunciou no dia 10 de março que estava abrindo um fundo para proporcionar licença médica remunerada a terceirizados, mas não entrou em detalhes sobre quando os trabalhadores começariam a ter acesso a esses benefícios.

Essas medidas não têm caído bem entre esse contingente de trabalhadores que, historicamente, são relegados a tratamentos desprivilegiados.

“Nosso status de segunda classe agora tem literalmente implicações para a saúde”, disse Josh Borden, analista de triagem terceirizado do Google, ao Guardian. Por causa disso, ele disse que seus colegas de trabalho começaram a sentir que a empresa os abandonou ou que sua saúde não é considerada uma prioridade em comparação com os funcionários contratados diretamente.

“Os FTEs [funcionários de tempo integral] parecem estar atentos à recomendação de trabalhar em casa, enquanto nós estamos sentados aqui na placa de Petri, com a opção de não sermos pagos, ou talvez ficarmos doente e depois colocar nossa família e amigos em risco também”, continuou.

Essa situação aparentemente não é muito diferente no Facebook, de acordo com uma reportagem do Intercept. O site analisou diversos posts de um fórum interno da empresa onde trabalhadores da Accenture e WiPro, agências de terceirizados com instalações em Austin, no Texas, e Mountain View, na Califórnia, denunciaram políticas recentes que parecem colocar os funcionários em situação delicada.

Um terceirizado da Accenture informou que a empresa esperava que os funcionários continuassem a trabalhar no local, a menos que apresentassem sintomas semelhantes aos da gripe. O terceirizado continuou: “acabamos de ver 3 pessoas serem mandadas para casa e ainda estamos todos no escritório tentando nos concentrar em nosso trabalho como se a contaminação cruzada não existisse por 14 dias antes dos sintomas aparecerem… Neste momento, estou perdido.”.

As agências de terceirizados e o Facebook supostamente deram respostas contraditórias sobre as opções dos trabalhadores, caso eles estejam doentes e precisem ficar em casa. De acordo com vários trabalhadores no fórum, a Accenture os informou que “os funcionários de contingente podem escolher entre licença médica não remunerada ou usar a folga remunerada. Eles não estão, no entanto, autorizados a ter licença médica paga.”

No entanto, outro post do fórum de um funcionário do Facebook responsável pela equipe da Accenture afirmou exatamente o contrário, que “se algum trabalhador de contingente adoecer e precisar de tempo para se recuperar, ele não precisa usar sua folga remunerada ou os dias de licença médica remuneradas.”

Um porta-voz do Facebook disse ao Intercept que, no momento, ela está procurando maneiras de permitir temporariamente opções de trabalho remoto para funções que, por razões de privacidade ou legais, exigem que os funcionários estejam no escritório.

Após a publicação deste texto, a assessoria de comunicação do Facebook Brasil enviou o seguinte comunicado ao Gizmodo Brasil:

Como consequência do COVID-19, em alguns escritórios temos recomendado que funcionários e prestadores de serviço do Facebook trabalhem remotamente. Para os funcionários do Facebook ou prestadores de serviço que não conseguem executar o trabalho fora dos escritórios, tomamos medidas para garantir a saúde e a segurança, limitando contatos sociais no ambiente de trabalho e realizando uma higienização adequada dos espaços. Atualizaremos nossas orientações à medida que a situação mudar.