Em todo o mundo, conservacionistas e biólogos têm discos rígidos cheios de milhões de fotos de armadilhas fotográficas. Analisar essas imagens pode ser trabalhoso e demorado, mas um novo programa — fruto de uma parceria entre o Google e várias organizações de conservação — simplifica o processo com a ajuda da inteligência artificial.

O Wildlife Insights, um portal on-line com mais de 4,5 milhões de fotos capturadas desde 1990, foi lançado nesta terça-feira (17). Qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode acessar as fotos e identificar a localização dos animais. E o site também convida os colaboradores a incluir suas próprias imagens de armadilhas fotográficas para mapear criaturas ao redor do mundo e aumentar o banco de dados.

Esse banco funciona um local único para dados de armadilhas fotográficas para animais selvagens, o que é legal por si só. Mas os pesquisadores podiam analisar esses dados antes da ajuda do Google. Só que classificar entre 300 e 1.000 imagens pode levar até uma hora.

O benefício real do Wildlife Insights é o aspecto de aprendizado de máquina, que pode analisar 3,6 milhões de fotos por hora. Isso economiza um tempo precioso que os pesquisadores precisavam perder em tarefas chatas, como inserir dados em uma planilha.

Tudo o que eles precisam fazer agora é carregar um conjunto de imagens e deixar o sistema de inteligência artificial criado pelo Google fazer o resto, incluindo sinalizar imagens em branco que às vezes compõem a maioria dos dados de captura de câmera.

Segundo Jorge Ahumada, diretor executivo da Wildlife Insights da Conservation International, os únicos pontos de dados que os conservacionistas ainda precisam adicionar são as coordenadas de cada armadilha fotográfica, já que a maioria dessas câmeras ainda não está equipada com seu próprio sistema de GPS.

Livres do tédio do cadastro de dados, os cientistas que estudam a conservação das espécies agora têm mais tempo e recursos para analisar e descobrir tendências no tamanho da população de espécies, relações predador-presa e como os animais podem estar reagindo a distúrbios humanos, como a caça.

“É um olhar muito íntimo sobre o comportamento e a ecologia desses animais. Você não conseguiria a menos que passasse horas e horas e horas escondidas na floresta com uma câmera, o que a maioria das pessoas não pode fazer, além de ser muito caro”, disse Ahumada.

Além disso, o novo programa chega ao ponto de identificar espécies nessas fotos. Esse foi outro ponto em que os pesquisadores tinham que digitar manualmente, mas agora o programa é treinado para identificar com precisão cerca de 100 espécies, disse Ahumada.

A equipe — que inclui a Conservation International, o Zoológico Nacional e o Instituto de Biologia e Conservação da Smithsonian, o World Wildlife Fund e a Sociedade Zoológica de Londres, entre outros — conseguiu isso inserindo cerca de 8,4 milhões de imagens no programa inicialmente para ajudar a treinar a inteligência artificial para reconhecer diferentes animais.

O objetivo é que, a cada nova foto adicionada, o software se torne mais sofisticado. Por exemplo, o Wildlife Insights atualmente não possui dados sobre a vida selvagem australiana. Assim que os dados da armadilha fotográfica dessa região entrarem no programa, a equipe primeiro identificará os animais manualmente, treinando a IA para reconhecer espécies na próxima vez.

Isso é importante porque a crise de extinção é real. Um milhão de espécies enfrentam potencial de extinção nas próximas décadas. As mudanças climáticas agravam outras ameaças humanas ao habitat e aos ecossistemas da vida selvagem. Falando nisso, talvez o Google devesse ouvir seus funcionários e parar de financiar o negacionismo climático.

Os novos dados e a tecnologia de IA estão entre um conjunto de ferramentas úteis para a criação de medidas de conservação que podem ajudar a diminuir a pressão sobre os animais que tentam sobreviver.

Até agora, o programa permanece no modo beta. Um usuário aleatório ainda não pode enviar fotos, mas esse é o objetivo final, pois o site pode oferecer suporte a centenas de usuários enviando material de uma só vez.

A visualização dos animais já identificados no banco de dados — javalis na Reserva Florestal Pasoh, na Malásia, ou jaguatiricas no Parque Nacional Laguna del Tigre, na Guatemala — mostra a grande variedade de vida selvagem existente em nosso planeta. Essas criaturas estão no final do coração do projeto. Sua sobrevivência depende de os humanos fazerem a coisa certa.

“Ter muitos dados não é o objetivo. Os dados são um meio para o fim, e o fim é a conservação”, afirmou Ahumada. “A conservação da vida selvagem é essencial para nossa própria sobrevivência.”