Pesquisadores da Universidade Northwestern acreditam ter encontrado um inesperado novo uso para o chamado supermaterial grafeno: uma fácil de aplicar, segura e mais resistente tintura preta para cabelos que pode deixar outras tintas permanentes comendo poeira. A nova pigmentação ainda torna o cabelo imune ao frizz e a eletricidade estática.

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Há alguns anos, Jiaxing Huang, um professor de ciências dos materiais e engenharia da Universidade Northwestern, fez uma “curiosa observação” sobre a tintura para cabelo que as pessoas escolhiam enquanto ele viajava pela China. Apesar da grande variedade de cores disponíveis, a maioria das pessoas queria apenas o tom preto mais escuro. E em seu campo, existem poucas coisas mais escuras que o pó feito de grafeno, um material composto de átomos puros do carbono e organizado em um padrão de colmeia que é incrivelmente fino, flexível e forte.

Então, no que Huang descreve como “um experimento de fim de sexta”, ele e sua equipe decidiram produzir lotes de tintura baseada em grafeno para testá-las em amostras de cabelo louro humano. Eles descobriram que a tintura poderia se envolver de maneira firme e uniforme nas mechas de cabelo, criando uma proteção à prova d’água que durou por até 30 lavagens sem desbotar. E diferente dos processos convencionais da maioria das tinturas permanentes – que precisam tratar o cabelo com químicos como descolorantes para retirar a cor original e abrir as cutículas dos fios para então adicionar químicos mais potentes (e possivelmente cancerígenos) que podem danificar o cabelo e irritar a pele – a tintura de grafeno deixou o cabelo completamente sem danos.

“Ela não requer nenhuma reação química – você apenas o pincela na superfície do cabelo, o penteia e o cabelo muda de cor”, disse Huang ao Gizmodo.

As descobertas foram publicadas no periódico Chem.

Grafeno é normalmente transparente, mas quando é exposto a agentes oxidantes como oxigênio e hidrogênio, ele se torna castanho. Este grafeno óxido, que a equipe de Huang usou como base para a tintura, pode ser escurecido por diversas maneiras, incluindo radiação ultravioleta. A equipe de Huang também usou químicos como vitamina C para modificar ainda mais o material para que ele fosse facilmente dispersado na água (significando que ele afundaria se não fosse tocado) e aplicado de maneira uniforme.

Além de ser tão durável quanto as tinturas permanentes que ele foi equiparado, a mais escura das tinturas feitas pela equipe de Huang era apenas um pouco menos escura que as comerciais. E graças a customização da coloração do grafeno, eles puderam até mesmo criar um tom “ombre”, que consiste em um cabelo tingido de uma mesma cor com diferentes tons que se mesclam. Por enquanto, a variedade de cores disponíveis vai do bronze ao preto, mas Huang acredita que é possível cobrir a maioria das preferências de cores.

O grafeno também concedeu aos fios suas propriedades únicas. Tornou o cabelo à prova de frizz, além de um melhor termorregulador, o que deixaria a cabeça de alguém teoricamente mais refrescada em um dia quente de verão. E graças às atuais e potencias aplicações do grafeno na engenharia, Huang acredita que a tintura pode ser usada em combinação com outras tecnologias no futuro.

“Tomei nota de muitos dos desenvolvimentos recentes no que é chamado de termo-eletrônicos. Estes circuitos elétricos e dispositivos que podem ser diretamente aplicados a pele como uma tatuagem colante”, disse Huang. “Então, se você tem cabelo condutor, imagine o que você poderia fazer para criar uma interface entre o cabelo e estes circuitos”.

Necessidade de mais testes e regulação

Por mais interessante que a tintura de Huang possa ser, não espere que ela apareça nas prateleiras dos mercados tão cedo. Huang está tentando fazer com que levem seu experimento a sério. Ele disse que não encontrou nenhuma agência federal disposta a financiar este tipo “não convencional” de pesquisa.

“O que é engraçado é que a minha esposa generosamente patrocinou a compra de todas as amostras de cabelo e produtos de beleza que usamos”, ele disse. “Mas espero que as pessoas realmente se interessem sobre isso e nós certamente gostaríamos de levá-la ao próximo passo”.

Isso incluiria passar por burocracias regulatórios para que poder testar a tintura em pessoas. Huang acredita que a tintura teria uma jornada de aprovação mais fácil que tinturas comerciais do passado, já que pesquisas em animais indicam que grafeno não causa alergia ou irrita a pele. E enquanto Huang não pode especular quanto custaria para produzir a tintura em escala comercial, ele nota que ela – diferente de outras aplicações de ponta do material – não necessitaria de grafeno caro e em perfeito estado.

“Estou otimista”, diz Huang. “Acho que as pessoas irão começar a olhar para isso de maneira séria, e então coletivamente poderemos começar a ver este tipo de tintura para cabelo muito em breve”.

Imagem de topo: cabelo louro antes e depois e ser exposto a tintura com base em grafeno. (Créditos: Chong Luo/Luo, et al/Northwestern University)

[Chem]