Estamos prontos para o 3D? Na qualidade de supervisor de Computação Gráfica e frequentador de cinemas, infelizmente não posso dizer que estou convencido disso. Ainda. E o pior ainda está por vir, enquanto os estúdios tentam nos enfiar goela abaixo um recurso que ainda não está pronto.

A única vez que eu senti que a inclusão do 3D valeu a pena foi em Avatar, e mesmo assim eu queria arrancar aqueles óculos estúpidos da minha cara a cada três minutos.



A boa experiência de Avatar com o 3D só aconteceu porque James Cameron é um diretor que se interessa muito, e entende, da parte técnica dos seus filmes. Por isso, o aspecto 3D de Avatar foi tecnicamente bem executado. Quando feito direito, o 3D facilita a apreciação de um filme. Mas se for mal feito, se torna um obstáculo. Uma das razões do meu desconforto é o fato de que muitos filmes estereoscópicos serem adaptados para 3D depois da filmagem, o que pode ocasionar montes de distrações no produto final. Mesmo se o filme for originalmente filmado em 3D, é necessário algum conhecimento no assunto para tornar isso efetivo. Decisões sobre convergência entre o campo do olho esquerdo e direito tornam-se parte da narrativa tanto quanto a escolha da lente, iluminação, foco etc. Se você não prestar atenção nisso, o 3D fica tosco.

 

O problema com o 3D falso

O processo de transformar um filme em 3D depois dele ter sido filmado é complicado e demorado, mas pode ser relativamente convincente. O problema é que ele jamais irá refletir os resultados de uma filmagem com duas câmeras simultaneamente, em perspectivas ligeiramente diferentes. Um longo processo de rotoscopia consegue separar os elementos em camadas para oferecer alguma perspectiva para o segundo olho, mas é limitado a isso: camadas. Sim, você pode afastar ou aproximar coisas e retocar a profundidade, mas o conteúdo de cada camada não tem profundidade. Nós usamos nossos olhos todos os dias, e não é desse jeito que a coisa funciona. Os técnicos envolvidos em transformar filmes 2D em 3D da melhor maneira possível ficam geralmente com as mãos atadas, nem sempre trabalhando com duas perspectivas reais.

O problema é que fazer isso bem feito é caro e difícil. Usar uma câmera dupla significa ter o dobro de material bruto para trabalhar, e muitas vezes o dobro de equipe de filmagem. O trabalho em efeitos visuais também dobra, já que tudo tem que ser renderizado duas vezes. Vários antigos truques que usamos para fazer a "mágica do cinema" funcionar deixam de ser efetivos em filmes estéreo.

Mas o resultado é a realidade, uma visão estéreo verdadeira de tudo que está no frame. Assim como o diretor ou cinematografista escolhe o foco da câmera para direcionar os olhos dos espectadores, é necessário tomar as mesmas decisões no 3D para direcionar a convergência entre os dois olhos. Não fazer isso direito (ou ter que fazer isso com uma falsa perspectiva no segundo olho) é como ignorar composição ou design de som. É fazer cinema relaxado.

Avatar acerta nisso. Eles filmaram em estéreo e mantiveram toda a profundidade dentro da tela, como se fosse uma grande janela para outro mundo, e nunca tentaram fazer coisas "pularem" para cima da audiência na sala do cinema. Quando você traz elementos da imagem para dentro da sala, você se depara com o problema da borda do frame cortando o conteúdo. Durante os créditos finals de Alice in Wonderland eles criaram uma borda preta falsa ao redor da tela para que, quando fossem usar a tática de jogar elementos em 3D na cara das pessoas, eles pudessem quebrar essas bordas. Mas isso não é uma opção que funcionaria durante o filme todo, a não ser que o diretor realmente queira abrir mão de espaço valioso na tela. A tecnologia IMAX ajuda a aliviar isso, preenchendo seu campo de visão, mas estamos longe de ter salas IMAX em todos os cinemas. E mesmo assim você ainda tem uma visão limitada pelo frame dos óculos.

 

Enfiando o 3D goela abaixo

Este problema vai ficar ainda pior quando você comprar uma TV 3D para a sua sala, porque o tamanho da TV vai preencher ainda menos o seu campo de visão. E agora está rolando até um rumor de um relançamento em 3D de Titanic, então prepare-se para uma inundação de "clássicos" com 3D falso meia boca para o seu Blu-Ray. Espero que ao menos o Cameron continue mantendo o nível alto.

Nem falei do último prego dessa absurdice de 3D: os óculos. Resumindo: é um absurdo assistir a um filme de mais de 200 milhões de dólares com um óculos de plástico vagabundo que custa menos de um real. Eles não apenas são opticamente ruins, mas também bloqueiam quase metade da luz da imagem. Nenhum dos filmes ou salas de cinema 3D que eu vi faz alguma coisa para compensar essa perda de luz. Quando eu fui ver Alice no País das Maravilhas em uma pré-estreia para membros da indústria — onde eu esperava que eles acertariam bonitinho — o filme ainda estava muito mais escuro do que deveria. A situação na maioria dos cinemas é igual ou pior.

No fim das contas, o que eu gostaria em relação ao 3D é simples: que seja feito direito, ou que não seja feito. Só porque os executivos de cinema por aí podem fazer, não significa que devam fazer.

Alexander Murphy é o pseudônimo de um dos principais supervisores de CG em um famoso estúdio de efeitos visuais em Los Angeles.