“Pictures of the Year International” é um importante concurso de fotojornalismo. Esta foto do segundo batalhão sendo alvo de tiros no Afeganistão, tirada pelo fotografo do New York Times Damon Winter ficou em terceiro lugar este ano. Ela foi tirada com o app de iPhone Hipstamatic, que adiciona um efeito dramático às fotos.

As fotos imitando Polaroid produzidas por viciados em Hipstamatic e Instagram já são controversas o suficiente mesmo quando são apenas cliques descartáveis do cotidiano, tirados a qualquer hora, diariamente por um cara comum. Mas e quando essas fotos tingidas, com efeitos de tilt-shift e vignette são usadas como recurso de fotojornalismo, de um tipo de fotografia que aparentemente tenta contar a verdade? Como fotos de guerra.

Chip Litherland, que fotografou para o NYT, WSJ e outros, fala sobre a Hipstaprint vencedora:

O fato de que ela foi tirada em um celular não é relevante ou injusto, mas o que é relevante é o fato que ela foi processada através de um app que muda o que havia na cena quando ele fotografou. Não é mais fotojornalismo, mas sim fotografia.

Quando um fotógrafo da Reuters alterou uma foto para fazer com que o resultado de um bombardeio de um avião americano na capital do Líbano parecesse mais dramático e devastador ao adicionar mais fumaça sobre a cidade, isso inquestionavelmente não foi fotojornalismo. Foi uma fraude.

O Times não é novo nesse debate sobre onde a exatamente fica o limite entre “manipulação” de imagem e “realce”. Eis aqui a política oficial de manipulação de imagens do maior jornal dos EUA:

Imagens em nossas páginas, no papel ou na Web, que pretendem retratar a realidade devem ser genuínas em todos os sentidos. Pessoas e objetos não podem ser adicionadas, rearranjadas, revertidas, distorcidas ou removidas de uma cena (exceto pela reconhecida prática de cortar para omitir as partes irrelevantes na parte mais externa das fotos).

[Ênfase minha]

O Hipstamatic cria uma atmosfera, uma estética que de fato não existe na realidade. Nossa visão só tende a parecer uma fotografia da década de 70 quando nossas mentes estão afetadas por produtos farmacêuticos ou drogas, afinal. Será que podemos chamar de fotojornalismo quando uma imagem é deliberadamente modificada para afetar ou intensificar a dramaticidade que nós literalmente não podemos ver com nossos olhos, para o bem da estética e da emoção? A definição da realidade aqui está restrita meramente ao conjunto de objetos representados na fotografia?

Olhando para a foto em questão, “A Grunt’s Life,” eu posso entender como o fotógrafo – a pessoa que estava lá, documentando o momento – pode argumentar razoavelmente que sua foto do Hipstamatic retrata mais fielmente a sensação de como é estar lá comparando com uma fotografia convencional, simples. Uma foto que, por certo ponto de vista, seria talvez mais verdadeira.

Eu suspeito que a apreensão causada pela discussão sobre sua autenticidade como um produto de fotojornalismo vem exatamente por causa da facilidade e intencionalidade com a qual o efeito foi aplicado. Quanto mais conveniente alguma coisa é, mais falsa parece. Manipular a dramaticidade de uma foto em um quarto escuro, brincando com a maneira que ela parece provocar uma resposta emocional em particular usando produtos químicos provavelmente não provocaria este tipo de reação. Nem se simplesmente tivesse usado uma câmera antiga que por acaso produzisse este tipo de imagem. É analógica, então pela definição é autêntica, segundo a lógica.

De qualquer maneira, agora não há mais volta. Winter pode ter sido o primeiro fotojornalista a usar um app de fotografia para documentar um evento, mas ele não será o último.

[POYI via Chip Litherland, Imagem original: Damon Winter/NYT]