Médicos em Amsterdã afirmam que uma droga geralmente associada à sonolência foi capaz de gerar breves períodos de lucidez a um homem com uma grave lesão cerebral.

Em um relatório publicado na revista Cortex no mês passado, os especialistas descreveram que uma única dose do medicamento zolpidem – mais conhecido pelo nome de marca Ambien – conseguiu restaurar temporariamente a capacidade do homem de falar e andar. Infelizmente, os efeitos duram apenas cerca de duas horas, mas o caso pode fornecer uma visão sobre como o cérebro pode ser danificado por derrames e outros traumas.

O homem de 37 anos sofreu uma trágica lesão cerebral aos 29 anos. Ele se engasgou com um pedaço de carne, que cortou o oxigênio de seu cérebro por tempo suficiente para provocar danos graves e duradouros à sua função neurológica. Embora inicialmente tenha mostrado alguma recuperação e tenha retido um certo nível de consciência, ele logo não podia mais se mover por conta própria, falar ou ficar acordado por muito tempo. Em oito anos, a condição do homem permaneceu a mesma, e ele precisava de cuidados de enfermagem 24 horas por dia e um tubo de alimentação para se manter vivo.

O zolpidem é usado com mais frequência como um sedativo, porém há evidências de que às vezes pode ter um efeito paradoxal, causando estado de alerta em algumas pessoas, incluindo aquelas com certos distúrbios neurológicos que os deixam em estado de coma. Também pode ser prescrito para tratamento a curto prazo da insônia.

Os médicos em Amsterdã decidiram dar ao homem uma dose única e relativamente alta da droga. Em 20 minutos, ele conseguiu falar, quando conversou com o pai ao telefone pela primeira vez em anos e, com alguma ajuda, até conseguiu andar novamente. Ele teve amnésia do incidente de engasgo e dos três anos anteriores, bem como alguns problemas de audição, mas por outro lado, ele estava alegre e alerta, até mesmo pedindo fast food.

Contudo, a recuperação milagrosa durou apenas cerca de uma hora antes que ele retornasse gradualmente ao seu nível básico de função. Quando ele recebeu doses repetidas de zolpidem ao longo do dia, os períodos de normalidade foram ficando mais curtos a cada vez, até que a droga parou de funcionar até alcançar um efeito sedativo. Eventualmente, os médicos descobriram que o zolpidem era mais eficaz – durando cerca de 30 a 60 minutos por dose antes de desaparecer na hora seguinte – quando ele não o havia tomado nas duas ou três semanas anteriores. Por isso, passou a receber o medicamento apenas em ocasiões especiais, como visitas familiares ou consultas odontológicas.

Apesar da indefinição de uma cura a longo prazo para a condição do homem, seus médicos ainda queriam entender exatamente como o zolpidem era capaz de causar uma reviravolta tão surpreendente, mesmo que por um curto período de tempo. Então, eles estudaram seu cérebro, via eletroencefalografia e ressonância magnética, antes e depois de ele tomar a droga.

As descobertas sugerem que o zolpidem, que atua aumentando o efeito de um neurotransmissor inibitório chave chamado GABA, acalmou partes do cérebro do homem que se tornaram hiperativas após a lesão, ao mesmo tempo em que aumentou os níveis de atividade das ondas cerebrais ligadas ao estado de alerta

“Você pode comparar a função do cérebro, por assim dizer, a uma grande orquestra de cordas. Em nosso paciente, os primeiros violinos tocam tão alto que abafam os outros membros da orquestra, e as pessoas não conseguem mais se ouvir. O zolpidem garante que esses primeiros violinos toquem de uma maneira mais branda, para que todos reproduzam no tempo”, disse Hisse Arnts, principal autor do estudo e médico residente e pesquisador de neurociência do Centro Médico da Universidade VU de Amsterdã, ao site IFLScience.

Como este é apenas um paciente, e portanto um caso isolado, ainda há muito a ser aprendido sobre os efeitos restauradores do zolpidem no cérebro fora de seu uso normal, que é como um sonífero. Mas, idealmente, esta pesquisa poderia levar a avanços na compreensão (e talvez um dia na reparação) do tipo único de dano cerebral que é responsável pela condição do homem. Um possível passo futuro, especulam os autores do estudo, é usar as terapias existentes como uma estimulação cerebral profunda para equilibrar a hiperatividade do cérebro por períodos mais longos de tempo do que o zolpidem é capaz de fazer.