Uma nova pesquisa divulgada na revista Neurology: Clinical Practice aponta que suplementos que supostamente melhoram a saúde e o funcionamento do cérebro, conhecidos como nootrópicos, geralmente contêm drogas não aprovadas e potencialmente perigosas para organismo. O estudo não apenas detectou drogas não aprovadas nos EUA para esses produtos nootrópicos, mas também descobriu que essas drogas poderiam estar em doses muito maiores do que as rotuladas ou em combinações que nunca foram testadas em pessoas.

Os nootrópicos, também chamados de drogas inteligentes, tornaram-se um dos segmentos com crescimento mais rápido da indústria de suplementos. Eles são comercializados como produtos que podem “melhorar” o cérebro, promover o pensamento criativo e evitar o declínio cognitivo e a perda de memória. Como acontece com muitos tipos de suplementos, a evidência real de nootrópicos é, na melhor das hipóteses, modesta e às vezes inexistente, dependendo do ingrediente.

Pieter Cohen, autor do estudo, afirma que outro grande problema com os suplementos é que eles são frequentemente vendidos com ingredientes de qualidade farmacêutica que nunca foram aprovados nos EUA pela Food and Drug Administration (FDA), agência federal equivalente à nossa Anvisa, ou mesmo submetidos a qualquer teste clínico.

Cohen, que é médico e pesquisador da Harvard Medical School, e sua equipe compraram e testaram 10 marcas de nootrópicos que supostamente continham omberacetam, aniracetam, fenilpiracetam ou oxiracetam. Essas drogas foram escolhidas porque são próximas da droga piracetam, outro ingrediente nootrópico. O piracetam e alguns desses análogos foram aprovados em alguns países como drogas para problemas neurológicos, como convulsões ou demência, mas nenhum foi aprovado nos EUA para qualquer condição.

Cohen e sua equipe já tinham publicado um estudo semelhante no ano passado, procurando especificamente por piracetam em suplementos nootrópicos.

Segundo Cohen, o primeiro alerta veio na constatação de que esses produtos estavam facilmente disponíveis. A lei sobre o que conta e o que não conta como suplemento nos EUA é muito vaga, mas o mesmo não acontece em outros países ao tentar passar ingredientes feitos em laboratório que foram estudados ou aprovados como medicamentos. Cohen encontrou alguns desses suplementos por meio de um banco de dados criado pelo Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH, na sigla em inglês), que não veio sem nenhum aviso sobre seu status ilegal.

Além disso, as marcas testadas rotineiramente continham dosagens dos medicamentos que eram diferentes das rotuladas – e isso quando havia essas informações na embalagem. Em algumas marcas, as quantidades eram até quatro vezes maiores do que a dosagem que você obteria de uma versão aprovada vendida fora dos Estados Unidos. Em outros casos, o suplemento não continha o medicamento listado ou possuía outros medicamentos não aprovados que não eram listados. Em uma única marca, por exemplo, foram encontradas quatro drogas nootrópicas de uma vez.

Nenhuma droga vem sem efeitos colaterais, incluindo pressão alta, insônia, agitação, dependência e até hospitalização. Mas isso só se aplica se os medicamentos forem usados como o pretendido, em doses que foram consideradas seguras para as pessoas (em alguns países). Depois de aumentar a dose quatro vezes ou misturar outras drogas, aí você está entrando em território desconhecido.

“Você está falando em combinar drogas que nunca foram testadas em humanos. Portanto, não temos absolutamente nenhuma ideia de quais podem ser os efeitos adversos disso”, alertou Cohen.

As descobertas do estudo são limitadas a essas marcas específicas de suplementos nootrópicos e é possível que não sejam generalizáveis ​​a todos os nootrópicos vendidos nos EUA. Mas esta não é a primeira vez que Cohen tenta chamar a atenção para o mundo amplamente desregulado dos suplementos.

Em abril deste ano, Cohen publicou uma pesquisa mostrando que os suplementos comercializados como alternativas aos esteroides com ingredientes ilegais eram rotulados erroneamente ou continham drogas escondidas. Portanto, embora os nootrópicos possam ser os mais populares na indústria de suplementos de bilhões de dólares, os problemas identificados por Cohen e outros pesquisadores são sistêmicos.

No ano passado, a FDA destacou os perigos dos suplementos nootrópicos e enviou cartas de advertência a empresas que vendem suplementos com esses tipos de ingredientes não aprovados. Mas Cohen argumenta que mais poderia ser feito pela agência reguladora, mesmo dentro das restrições atuais, que já são fracas. Da mesma forma, o NIH poderia fazer mais para alertar as pessoas.

Em um mundo ideal, Cohen acredita que a FDA teria o poder de criar o próprio banco de dados de suplementos que poderia manter os consumidores mais informados sobre o que estão tomando, ao mesmo tempo que permite que a agência vá atrás de empresas não estão seguindo as regras. No curto prazo, porém, ele aconselha seus pacientes a não tomarem nootrópicos ou outros suplementos que pareçam bons demais para ser verdade.

“Basicamente, precisamos evitar os suplementos que prometem no rótulo que terão efeitos imediatos em nossa saúde. Uma coisa é tomar um multivitamínico, com o entendimento de que ele pode manter uma quantidade mínima de vitaminas em seu corpo. Outra coisa é recorrer a um suplemento para ajudá-lo a estudar melhor ou a se exercitar, devido ao risco de eles terem produtos farmacêuticos ativos e em dosagens e combinações imprevisíveis. Eu não recomendo nootrópicos para meus pacientes e definitivamente não recomendaria tomar qualquer suplemento vendido como um impulsionador do cérebro até que possamos resolver esses graves problemas regulatórios”, concluiu Cohen.