Pesquisadores na Turquia descobriram dentes humanos neolíticos modificados que eram usados ​​como pingentes, talvez em um colar ou pulseira, em uma descoberta arqueológica rara e inesperada.

Os seres humanos paleolíticos e neolíticos costumavam fazer joias, como contas e pingentes, de ossos e dentes de animais (fato interessante: os neandertais usavam joias feitas de garras de águia). O uso de ossos e dentes humanos para tais adornos é menos comum, mas não sem precedentes, e não está claro quais questões culturais, espirituais e estéticas podem ter motivado a prática.

Uma nova pesquisa publicada no Journal of Archaeological Science: Reports descreve a descoberta de dois dentes humanos modificados que foram usados ​​como joias cerca de 8.500 anos atrás em Çatalhöyük, um sítio arqueológico na região da Anatólia Central da Turquia. Essa prática, apesar de rara, já havia sido documentada em locais europeus que remontam aos períodos do Paleolítico Superior, Mesolítico e Neolítico, mas é a primeira vez que a prática é documentada na região nordeste pré-histórica. O novo estudo foi liderado por Scott Haddow, do Departamento de Estudos Interculturais e Regionais da Universidade de Copenhague, na Dinamarca.

Os dentes foram encontrados no maior de dois montes, localizado no sítio arqueológico de Çatalhöyük, um importante assentamento do fim do período neolítico. O local de 32 acres contém vestígios de habitações de tijolos de barro, cercados de animais, pilhas de lixo e outros remanescentes da vida humana diária. Desde 1993, os arqueólogos descobriram cerca de 700 túmulos em Çatalhöyük, alguns dos quais continham bens funerários, como contas e pingentes feitos de ossos e dentes de animais. É importante ressaltar que nenhum dos dois dentes humanos modificados, que foram descobertos durante as escavações realizadas entre 2013 e 2015, foi encontrado em um local de sepultamento.

Os dentes de 8.500 anos de idade – ambos molares – foram modificados manualmente para serem usados ​​como pingentes em um colar ou pulseira (um terceiro dente, também um molar, foi encontrado, mas os cientistas não conseguiram provar definitivamente que ele foi modificado e usado como joia). Os furos nas raízes dos dentes foram feitos com uma “micro furadeira” em forma de cone feito de sílex ou obsidiana, uma ferramenta que provavelmente foi usada para fazer furos nos ossos e dentes dos animais encontrados no local. A qualidade dos furos sugere que eles foram perfurados por um indivíduo qualificado e experiente.

A análise visual dos dentes modificados, juntamente com a análise microscópica e as radiografias, revelaram traços de “micro desgaste” nos dentes, consistentes com seu uso extensivo como joalheria, incluindo uma suavidade semelhante ao vidro. Os dentes foram extraídos de dois adultos falecidos que tinham entre 30 e 50 anos quando morreram. Nenhum dos dentes mostrou sinais de doença ou cárie, por isso é altamente improvável que eles tenham caído antes da morte dos indivíduos.

Então, por que alguns turcos neolíticos usavam dentes humanos como joias?

Dada a raridade da descoberta, fica claro que essa não era uma prática extremamente popular. Consequentemente, os pesquisadores acreditam que é “muito improvável que esses dentes humanos modificados tenham sido usados ​​apenas para fins estéticos”, e que, em vez disso, os dentes humanos “carregavam profundo significado simbólico para as pessoas que os usavam”, explicou Haddow em um comunicado à imprensa.

De fato, a prática é potencialmente uma reminiscência de punhais ósseos de Papua feitos de fêmures humanos, que carregavam enorme prestígio para o proprietário.

Dito isto, nenhum dos túmulos de Çatalhöyük foi encontrado contendo dentes humanos modificados, o que sugere que esses itens não estavam associados a enterros. Não é imediatamente óbvio o porquê disso. Os pingentes de dentes humanos podem estar relacionados a rituais específicos e raros, ou possivelmente algo a ver com “os dois indivíduos de quem os dentes foram extraídos”, disse Haddow.

“No entanto, dado o pequeno tamanho da amostra, o significado final dos pingentes de dentes humanos permanecerá incerto até que novas descobertas em Çatalhöyük ou em outros lugares do Oriente Próximo possam nos ajudar a contextualizar melhor o significado desses artefatos de dentes humanos”, acrescentou Haddow.

Até que mais evidências sejam encontradas, teremos que nos contentar com esse tipo de especulação. Está claro, no entanto, que o uso de dentes humanos como ornamento é uma afirmação importante, independentemente da mensagem exata.