No final de agosto, Hugo Barra deixou o Google: depois de quase um ano como vice-presidente de produtos na divisão Android, ele foi assumir o cargo de vice-presidente da chinesa Xiaomi. Em duas entrevistas, ao AllThingsD e à revista Exame, o brasileiro explica porque deixou a gigante das buscas, e quais seus planos para o futuro.

Ele diz à Exame que mudou para a Xiaomi porque não tinha mais como subir de cargo no Google:

Acabei evoluindo muito rápido. Tive três promoções consecutivas e começou a ficar claro que a próxima etapa da minha carreira não estava no Google… Tinha como objetivo tocar um grande negócio, responder por uma área global. Esse desafio não existia, pelo menos no curto prazo, dentro do Google.

O próximo passo seria virar o vice-presidente sênior do Android, respondendo diretamente a Larry Page. Depois que Andy Rubin deixou o cargo, a vaga foi preenchida por Sundar Pichai, que cuidava do Chrome. “Talvez um ano mais tarde [eu] teria sido um candidato à vaga”, diz Barra. Ele trabalhou cinco anos e meio no Google.

É uma situação semelhante à de Marissa Mayer: sem ter como evoluir sua carreira dentro do Google, ela assumiu um alto cargo em outra empresa – virou a presidente do Yahoo em 2012.

Barra diz que anunciou internamente sua saída em maio, durante o Google I/O. Mas isso se tornou público em agosto, e justo em um momento complicado. Sergey Brin, co-fundador da empresa, se separou da esposa depois de seu caso extraconjugal com Amanda Rosenberg, funcionária do Google. E Amanda teve um caso com Barra antes de se envolver com Brin.

Isso teve algo a ver com sua saída do Google? O brasileiro tenta esclarecer a situação:

As pessoas confundiram tudo. O Google anunciaria minha saída apenas em meados de setembro. Mas aí saiu a notícia do caso que os dois [Brin e Amanda] tiveram, e a informação de que eu estava saindo vazou. Foi uma coincidência infeliz… Já não namorava a Amanda havia alguns meses.

Barra diz que não tinha uma relação próxima com Brin: “nos cinco anos que trabalhei no Google, devo ter cruzado com o Sergey umas seis vezes”. Ele comanda o laboratório Google X, e nunca esteve envolvido de perto com o Android.

Inicialmente, o Google não queria perder Barra, mas depois entendeu que ele poderia ser um aliado: afinal, ele diz que a gigante das buscas “tem tido dificuldades de fazer negócios na China”, e a Xiaomi é uma grande parceira do Google.

É uma oportunidade de expandir o ecossistema do Android de verdade. Na China, o sistema e o SDK são modificados de forma a não oferecer suporte ao Google Play: em vez dele, há lojas que destacam apps piratas, como era o caso do Aliyun.

Barra terá como tarefa expandir a Xiaomi para o mercado global. Por enquanto, ela fabrica smartphones para consumidores chineses, trazendo especificações high-end a preços mais baixos. Ela deve vender 20 milhões de smartphones só este ano, com receita projetada de US$ 4 bilhões.

Mas como a empresa se sustentará vendendo smartphones a preços baixos? Seguindo uma estratégia levemente semelhante à do Nexus (e do Kindle Fire): o aparelho é barato para estimular o consumo dos serviços que o acompanham. Barra diz ao AllThingsD:

Não há dúvida de o negócio de telefonia hoje tem margens [de lucro] muito baixas, mas eles querem vender o aparelho a preço de custo e, em seguida, vender serviços de margem alta para tornar a experiência do smartphone ainda melhor.

Inicialmente, a Xiaomi deve se expandir em mercados emergentes, “lugares como Índia, Rússia, Indonésia, América Latina, Tailândia”, porque é mais fácil repetir a receita chinesa nesses países. Para ele, este é um desafio grande: “Eu não sou um cara de negócios, mas [o presidente da Xiaomi] queria alguém com profundo insight de usuário para liderar esse projeto”.

Barra começará a trabalhar na empresa em outubro, mas já participou de um evento de lançamento da Xiaomi há cerca de uma semana. Segundo a Folha, no fim da keynote, a multidão – que o presidente da Xiaomi chama de “fãs” – pedia autógrafos ao brasileiro.

Ele já está aprendendo mandarim, e diz: “se eu fizer meu trabalho direito, em poucos anos, o mundo estará falando sobre a Xiaomi da mesma forma que falam sobre Google e Apple hoje”. Torcemos que sim, Hugo. Boa sorte! [Exame e AllThingsD]