A descoberta de um fóssil de 127 milhões de anos no nordeste da China está ajudando cientistas a compreender a lacuna que existe entre os pássaros modernos e as criaturas que vieram antes deles – que, provavelmente, se pareciam com dinossauros.

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Dizer que os pássaros evoluíram a partir dos dinossauros não é muito correto. Tecnicamente falando, pássaros são dinossauros. Eles representam a única linhagem de dinossauros que escapou da extinção, ocorrida há 65 milhões de anos. Atualmente, existem 18 mil espécies de pássaros na Terra, o que demonstra a extensão com que os dinossauros ainda habitam o planeta.

Apesar de estarem em todos os cantos, a origem e evolução dos pássaros ainda não é bem compreendida. Graças a uma série de descobertas de fósseis nas últimas décadas, a maioria delas vindas da China, obtivemos informações importantes sobre os estágios de evolução dos dinossauros.

Os detalhes de mais um fóssil descoberto na área foram publicados no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences nesta semana. Trata-se de um fóssil de 127 milhões de anos de um pássaro, encontrado próximo da vila de Shixia, na província chinesa de Hebei.

O líder da pesquisa, Min Wang, e sua equipe da Academia Chinesa de Ciências explicam que a espécie recém-identificada, chamada Jinguofortis perplexus, existiu durante um estágio crucial na evolução do voo.

A espécie não tinha uma longa cauda óssea como os outros dinossauros voadores (o famoso archaeopteryx é um bom exemplo), mas possuía uma cauda atarracada característica dos pássaros modernos. E ao contrário das aves voadoras que vemos hoje, J. perplexus ainda não possuía penas de voo em sua cauda.

Fóssil do Jinguofortis perplexus. Imagem: Min Wang

Aves voadoras com caudas curtas de osso composto são amplamente classificadas como aves pygostylia. Os cientistas estão ansiosos para entender os estágios evolutivos que levaram ao surgimento dessas aves de cauda curta, e é por isso que a descoberta de J. perplexus é importante. Essa nova espécie agora representa o segundo ramo mais antigo de pássaros pygostylia na árvore genealógica.

Além de sua cauda curta, essa ave do Cretáceo Inferior apresentava várias outras características importantes. Ela tinha envergadura de cerca 69 centímetros, e sua mandíbula ostentava uma fileira de dentes pequenos e afiados, semelhantes aos vistos em seus parentes Terópodes (sim, a galinha tem um ancestral comum com tiranossauros e velociraptors).

O fóssil também continha restos de moela, o que sugere que J. perplexus comia plantas. Ao contrário de outras aves antigas, seu terceiro dedo tinha apenas dois ossos – um dos primeiros exemplos de uma espécie de ave que reduzia ou fundia os ossos dos dedos (falaremos mais sobre isso abaixo).

A única articulação do ombro de J. perplexus também nos dá informações sobre a sua habilidade de voo. Os principais ossos do ombro são unidos para formar um “escapulocoracoide”, ao contrário de pássaros modernos, que possuem ossos muito próximos, mas não unidos.

Os pesquisadores dizem que isso pode ter ajudado os pássaros a crescerem mais rápido e atingir a maturidade mais cedo. É significativo que essa configuração aponte para a presença de uma variedade evolutiva no desenvolvimento do voo.

Considerando o plano corporal e as penas, o J. perplexus provavelmente voava de forma um pouco diferente. Além disso, as asas largas sugerem que eles vivam em florestas densas, de acordo com os pesquisadores.

“Os autores desta publicação estão entre as principais autoridades no campo da paleontologia dos pássaros de linhagem advinda de dinossauros e apresentaram uma descrição clara de um novo táxon”, disse Dennis Voeten ao Gizmodo. Voeten é paleontólogo da Palacký University, na República Tcheca e não estava envolvido no estudo. “Esse trabalho parece oferecer um peça muito bem vinda para o quebra cabeça da evolução primária dos dinossauros voadores”.

Entre as descobertas, Voeten achou a fusão dos ossos do ombro a mais surpreendente.

“Para mim, isso ilustra uma nova percepção que está começando a tomar forma: a evolução inicial dos dinossauros voadores não foi um caminho direto para o que temos hoje, com o vôo das aves modernas, mas envolveu uma grande diversidade de soluções evolutivas”, disse ele. “Os dinossauros podem ter ‘experimentado’ diferentes estilos de vôo e graus de proficiência que foram extintos junto com os dinossauros não-aviários.”

Os dedos unidos também chamaram a atenção de Voeten.

“A pata dos Jinguofortis representa um próximo passo que já se assemelha com as patas pequenas dos pássaros modernos, em que os ossos dos dedos se fundiram em elementos que podem lidar eficientemente com as tensões associadas ao vôo emplumado”, disse ele. “O reconhecimento desse desenvolvimento no Jinguofortis nos permite reconstruir melhor o tempo e a natureza de adaptações particulares que refletem as etapas evolutivas incrementais dos dinossauros [não-voadores] para dinossauros semelhantes aos pássaros capazes de voar emplumados”.

Voeten diz que a descoberta de mais fósseis, tanto dentro como fora da China, fortalecerá ainda mais essa linha de pesquisa, tanto em termos de compreensão sobre o J. perplexus quanto de seu lugar dentro da árvore genealógica das aves.

[PNAS]

Imagem do topo: Arte ilustrando o Jinguofortis perplexus, uma ave de aparência muito moderna do início do Cretáceo. Ilustração: Chung-Tat Cheung