Janeiro foi o mês mais quente registrado na história. Não, não, foi fevereiro. Opa, foi março! O fato é que já faz um ano que essa história se repete. De abril do ano passado até abril deste ano, todos os meses foram os mais quentes já registrados. E, assim, 2016 já é candidato fácil a superar 2015, que recebeu o título do ano mais quente da história.

>>> O El Niño está causando uma escassez mundial de açúcar
>>> Por que cientistas pensam que o planeta está aquecendo tanto atualmente

Será que essa sucessão de recordes vai acabar um dia? Nosso planeta pode ter um momento de descanso no fim do ano, se o El Niño for superado por La Niña – mas o efeito vai ser temporário.

Estamos atualmente no fim de um evento El Niño bastante forte que é parcialmente responsável por todos esses recordes mensais. O El Niño, que acontece a cada três a sete anos, é caracterizado pelo aquecimento das águas da superfície do oceano através do Pacífico equatorial, um efeito que afeta os padrões de circulação atmosférica ao redor do globo.

Algumas partes do planeta se tornam mais frias e úmidas, outras ficam mais secas e quentes. Mas no geral, o El Niño libera calor oceânico preso para a atmosfera, resultando em um aumento nas temperaturas globais.

O impacto de La Niña

Já La Niña faz o Pacífico equatorial esfriar um pouco. “É meio que o oposto do El Niño, que afeta a circulação global ao bombear calor extra do oceano”, diz o meteorologista Bob Henson ao Gizmodo. “La Niña puxa o calor de volta para o oceano.”

Os efeitos regionais de La Niña são tão complexos quanto os do El Niño, mas o termostato da Terra tende a cair um pouco por causa dela. Depois de recordes de temperatura terem sido registrados durante o El Niño de 1997-1998, uma La Niña de três anos fez o planeta esfriar um pouco. Os recordes de calor foram novamente quebrados durante o El Niño de 2009-2010, mas o evento La Niña seguinte fez a temperatura global cair entre 0,1 e 0,2 graus Celsius.

clima-global-2

Anomalias na temperatura global média comparada com médias históricas de 1880 até hoje. Imagem: NOAA.

O que vai acontecer quando o El Niño atual enfraquecer não é certo. Modelos recentes da NOAA, agência climática dos EUA, estimam em 75% a probabilidade de La Niña a partir do quarto trimestre – o que parece uma chance considerável. Mesmo se condições La Niña fortes surgirem a partir da nossa primavera, no entanto, 2016 ainda será um ano extremamente quente em proporções históricas.

Isso porque o golpe de um El Niño forte e a tendência de aquecimento global resultaram em um tremendo acúmulo de calor na atmosfera. E vai demorar para esse calor se dissipar. Na verdade, Gavin Schmidt, do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA, estima 99% de chance de 2016 ser o ano mais quente já registrado, considerando o início extremamente forte que tivemos em comparação com o ano passado.

Por outro lado, o surgimento das condições La Niña pode dar uma freada na quebra de recordes do planeta em 2017. “Acho que vai ser difícil 2017 superar 2016 – seria chocante – se La Niña entrar em ação”, diz Henson. “Podemos ter um ou mais anos que não alcancem 2016, supondo que esse ano bata o recorde.”

A mudança climática não vai parar

É importante ressaltar que qualquer alívio no aquecimento global que vier nos próximos anos será algo temporário. A longo prazo, nosso planeta vai continuar aquecendo enquanto continuarmos jogando carbono no ar, e não há indícios de que isso acabará logo.

Estamos próximos a um mundo em que as concentrações atmosféricas de carbono ficarão permanentemente acima de 400 partes por milhão – a maior taxa em milhões de anos. A taxa das emissões de carbono não era tão alta assim há pelo menos 66 milhões de anos – desde que os dinossauros foram extintos.

E o termostato da Terra está respondendo de forma bastante previsível: as médias de temperatura global agora estão próximas a 1,5 graus Celsius acima do que eram na era pré-industrial.

“Todas as décadas dos últimos 50 anos foram mais quentes do que a anterior, e não há sinal de que isso vai mudar,” disse Henson. “O El Niño é um manto de calor por cima de um planeta em constante aquecimento, e La Niña só alivia isso ligeiramente.”

Imagem: NASA/GISS