O presidente venezuelano Nicolás Maduro — cujo governo tem enfrentado uma crise econômica enorme, alegações de fraude eleitoral e uma crescente luta pelo poder com o líder oposicionista Juan Guaidó, apoiado pelos Estados Unidos — está culpando ciberataques dos EUA pelo quarto dia consecutivo de quedas de energia no país.

Segundo a Reuters, Maduro tuitou no domingo que “o sistema elétrico nacional foi sujeito a múltiplos ataques cibernéticos”. Ele acrescentou que o governo está “fazendo grandes esforços para restaurar o fornecimento estável e definitivo nas próximas horas”. Ele não forneceu nenhuma evidência para a alegação, embora o ministro da Informação, Jorge Rodríguez, tenha descrito anteriormente o suposto ataque como tendo afetado um “sistema de controle automatizado” que determina a quantidade de energia gerada pela usina com base na capacidade e demanda, de acordo com a Associated Press.

“Ao atacar o sistema de controle automatizado, as máquinas param como um mecanismo de proteção”, disse Rodriguez.

No entanto, os especialistas dizem que as interrupções são provavelmente causadas por falhas na infraestrutura em vez de sabotagem, escreveu a Reuters.

Os apagões começaram na quinta-feira (7) e abalaram ainda mais um país que já enfrentava uma grande escassez de alimentos, medicamentos e bens de consumo.

De acordo com a Reuters, testemunhas disseram que algumas lojas e restaurantes conseguiram seguir operando com geradores, embora os sistemas de pagamento com cartão de débito não estivessem funcionando corretamente e os clientes estivessem sendo frequentemente solicitados a pagar em dólar. O transporte público também está em más condições, com relatos de que muitos não conseguem viajar para seus locais de trabalho. A Doctors for Health, uma organização não governamental, disse no sábado (9) que 17 pacientes em hospitais morreram devido à falta de eletricidade, embora a Reuters tenha relatado que não foi capaz de verificar esse número de forma independente.

Pelo menos alguns roubos ocorreram em um bairro operário no oeste de Caracas, acrescentou a Reuters, com uma mercearia saqueada depois que manifestantes entraram em conflito com a polícia. O impacto sobre a produção de petróleo, a principal indústria de apoio à economia venezuelana, não está claro.

Parentes de um paciente usam velas para caminhar em uma clínica escurecida em Caracas, em 7 de março de 2019. Foto: Ariana Cubillos/AP

Um ex-presidente do sistema elétrico estatal, Miguel Lara, disse à Reuters que os apagões se devem provavelmente à falha de componentes que o governo de Maduro não está consertando, ao invés de algum tipo de arma cibernética. A AP notou que cortes de energia em menor escala têm sido uma faceta regular da vida venezuelana há anos, embora também tenha escrito que a interrupção na quinta-feira foi sem precedentes.

O Washington Post escreveu na sexta-feira (8):

Durante anos, especialistas e trabalhadores da empresa estatal de eletricidade têm alertado sobre uma debilitante falta de manutenção e o êxodo massivo de profissionais de usinas de energia e outras instituições.

Russ Dallen, sócio gerente da corretora Caracas Capital Markets, com sede na Flórida, disse que a causa da paralisação foi que o governo “roubou o dinheiro que deveria ter sido investido na modernização da rede elétrica e na compra de usinas de energia”.

“Pode-se deduzir dos atrasos e dos resultados da queda que foi um problema nas linhas que saem de Guri, e não na fábrica em si”, disse Lara à Reuters.

Um vídeo de dentro da Venezuela parecia mostrar uma explosão de transformadores no estado de Bolívar, que provavelmente contribuiu para as interrupções, conforme escreveu o jornalista Germán Dam.

Guaidó, que usou uma disposição da constituição venezuelana para reivindicar a presidência em janeiro, acusou o governo de não fornecer uma explicação plausível para a falha da rede elétrica.

“O regime a esta hora, dias depois de um apagão sem precedentes, não tem diagnóstico”, disse ele, segundo a Reuters.

Como noticiou o New York Times no ano passado, o Comando Cibernético dos EUA tornou-se mais agressivo no ciberespaço e provavelmente tem a capacidade de lançar tais ataques contra adversários, ao mesmo tempo em que prepara um programa para “derrubar as defesas aéreas do Irã, seus sistemas de comunicação e sua rede de energia caso ocorra um conflito”. Tal ataque exigiria a aprovação presidencial, embora os assessores tenham dito que Donald Trump “mostrou apenas um interesse superficial no assunto”, acrescentou o jornal.

Não é a primeira vez que Maduro acusa os Estados Unidos de tentar derrubá-lo usando métodos de alta tecnologia. Em agosto de 2018, seu governo disse que as explosões em uma assembleia militar em Caracas foram causadas por drones carregadores de bombas enviados por seus oponentes e apoiados por expatriados nos EUA, Colômbia e outros países latino-americanos. O governo de Maduro já prendeu dezenas de supostos conspiradores, mas críticos à administração têm acusado regularmente seu governo de tecer narrativas sem fundamento para proteger seu poder político.

A situação na Venezuela deve continuar piorando, e não melhorar, já que as sanções do governo Trump sobre o país seguem afetando o país. Os Estados Unidos prometeram expandir ainda mais o número de instituições alvo no país latino-americano. A Casa Branca se recusou a dizer que quaisquer opções para lidar com a crise estão descartadas, provocando certa preocupação de adversários políticos internos, como o senador Bernie Sanders, de que poderia estar planejando algum tipo de intervenção militar imprudente.

Elliot Abrams, homem de referência do governo Trump na Venezuela, foi condenado em 1991 por mentir ao Congresso sobre o escândalo Irã-Contras enquanto era vice-secretário de Estado e supostamente se envolveu em um golpe (temporariamente) bem-sucedido contra o antecessor de Maduro, Hugo Chávez, em 2002, além de minar os resultados das eleições em território palestino em 2006 e apoiar regimes genocidas na Guatemala. Enquanto isso, o senador Marco Rubio tuitou recentemente uma clara ameaça a Maduro na forma de duas imagens lado a lado do falecido ditador líbio Muammar Gaddafi, uma delas provavelmente uma imagem estática das imagens da tortura e execução de Kadhafi em 2011.

[Reuters]