Apenas alguns dias antes do IPO mais badalada do Vale do Silício, um grupo de centenas de motoristas da Uber se reuniu em frente à sede da companhia em San Francisco e ocupou a rua em um protesto exigindo pagamento justo, benefícios e maior transparência do gigante dos aplicativos de transporte.

Sexta-feira está previsto para ser o maior dia na história da Uber. A empresa está abrindo seu capital na Bolsa de Valores de Nova York em um dos maiores IPOs (como são chamadas as ofertas públicas iniciais de ações) na história americana.

É de longe a maior IPO deste ano — um ano cheio de empresas do Vale do Silício indo para o mercado de ações. Mesmo que a empresa tenha perdido mais de US$ 1 bilhão no último trimestre, seus executivos, engenheiros e investidores — incluindo a realeza saudita — esperam ganhar dinheiro com a negociação das ações.

Mas os motoristas da Uber em todo o país e em todo o mundo dizem que seu próprio salário está caindo, apesar de trabalhar mais horas. Eles argumentam que a empresa deveria dar mais.

“O Uber vem cortando meu salário nos últimos dois anos”, disse Derrick Baker, motorista do norte da Califórnia, ao Gizmodo na greve de quarta-feira. “Seja tempo integral ou parcial, pagamentos ruins são pagamentos ruins. Então, estamos aqui no QG pedindo um salário digno.”

Um estudo de 2018 descobriu que o pagamento para motoristas de empresas como Uber e Lyft havia caído 53% desde 2013, quando um excesso de novos motoristas ingressou no mercado. Na região da Baía de San Francisco, lar do próprio Uber e do Vale do Silício, alguns motoristas lutam muito para ganhar a vida. Vários, inclusive, dizem viajar por horas e dormir em estacionamentos para aumentar seus números.

Motoristas norte-americanos do Uber têm se organizado cada vez mais nos últimos anos. Reunir os funcionários da chamada gig economy (“economia do bico”, em tradução livre, termo usado para designar trabalhos pagos por hora e mediados por aplicativos) é um desafio inédito do século 21: não há um local de trabalho central nem um modo normal de comunicação, solidariedade e negociação. Mas lugares como estacionamentos em aeroportos e grupos no Facebook têm sido terreno fértil para conversar e engajar os motoristas.

A Uber nunca se sentou com os motoristas organizadores para discutir suas queixas. No ano passado, os motoristas entregaram uma carta reclamando da falta de transparência da empresa. Na ocasião, seguranças da companhia impediram a entrada dos trabalhadores na sede.

Foi nesta mesma sede que ocorreu o protesto de quarta-feira. Fazia um dia ensolarado em San Francisco quando os motoristas, jornalistas, policiais e sindicalistas lotaram a Market Street, em frente à Uber. Uma banda de metais tocou por mais de uma hora em apoio à greve enquanto os trabalhadores gritavam, faziam discursos e conversavam com jornalistas. Foi pacífico e até mesmo alegre em alguns momentos, e foi uma ideia bem sucedida dos motoristas para chamar atenção para suas demandas.

Alguns funcionários corporativos da Uber se apressaram com o protesto do meio-dia para ir almoçar, enquanto muitos outros ficaram presos do lado de fora do escritório. Alguns observaram o protesto se desenrolar da varanda do prédio, fumando seus vaporizadores e olhando sem dizer muita coisa.

Um dos que estavam na rua era Gordon Mar, político da cidade de San Francisco que tem denunciado o abismo entre o setor de tecnologia em expansão da cidade e a classe trabalhadora.

“Se você é um motorista da Uber, você está lutando para trabalhar 70, 80 ou até 90 horas por semana”, disse Mar na quarta-feira, enquanto estava no meio da Market Street com motoristas e outros manifestantes em frente ao QG do Uber. “Estamos aqui hoje porque nos solidarizamos com os motoristas do Uber.”

Mar esteve recentemente conversando com gigantes da tecnologia da cidade sobre como lidar com o fluxo de riqueza que vem do que ele chama de “terremoto de IPOs”. Ele acredita que isso ameaça aprofundar a desigualdade social, um problema já bastante grave em San Francisco e no Vale do Silício.

A greve mundial de quarta-feira, que também incluiu motoristas de companhias concorrentes como Lyft e Juno, teve repercussões no cenário político dos EUA.

O movimento ganhou apoio de candidatos presidenciais democratas em 2020, incluindo os senadores Kirsten Gillibrand e Cory Booker, os parlamentares Tim Ryan e Eric Swalwell e o empresário Andrew Yang. Os senadores Elizabeth Warren e Bernie Sanders já apoiaram as iniciativas dos motoristas da Uber para ganhar um salário digno.

Em 2011, San Francisco começou a oferecer uma infinidade de benefícios fiscais na esperança de atrair empresas de tecnologia para a cidade. Para lidar com as consequências de tanta riqueza em um só lugar, Mar propõe-se restaurar as alíquotas de impostos para os níveis anteriores, com uma taxa de 1,5% sobre a folha de pagamento.

O protesto de San Francisco foi realizado em conjunto com ações em todo o país e em todo o mundo. A cena do protesto em San Francisco foi consideravelmente maior do que uma ação semelhante de motoristas da Lyft antes do IPO dessa empresa em março.

Como a greve de quarta-feira estava em andamento, a Uber aparentemente tentou incentivar motoristas e passageiros a furar a greve e continuar usando o serviço. Os motoristas relataram que a empresa lhes ofereceu bônus, enquanto alguns passageiros dizem ter visto cupons de desconto que incentivavam a contratar carros.

Brasil

Motoristas de Uber e outros aplicativos também protestaram no Brasil nesta quarta-feira (8). De acordo com a Folha de S.Paulo, 130 motoristas e 30 carros seguiram do Vale do Anhangabaú até a B3, no centro de São Paulo. Outros 100 motoristas fecharam duas faixas da rua da sede do escritório da Uber no Brasil, na Barra Funda, zona oeste da capital paulista.

O foco do protesto era o valor baixo da remuneração dos motoristas. Eduardo Lima de Souza, presidente da Amasp (Associação de Motoristas de Aplicativos de Souza), disse à Folha que o último reajuste foi há três anos. A Uber se recusou a comentar o assunto.

Outras questões levantadas pelo protesto foram a alta dos preços da gasolina e a segurança — motoristas exigiram mais rigor no cadastro de usuários.

O jornal descreve táticas usadas pelo movimento para trazer mais motoristas para o protesto ou pelo menos para a paralisação. Alguns grevistas chamavam corridas, printavam a tela do aplicativo e compartilhavam a identidade do motorista que tinha aceitado a solicitação em grupos de mensagens. Outros chamavam corridas e, quando o motorista aceitava, tentavam convencê-lo no chat da importância do movimento e da manifestação.

A reportagem, porém, pondera que este não era o clima entre os participantes do protesto, que diziam que quem não quisesse aderir à paralisação deveria ser respeitado.

Folha também diz que a tarifa dinâmica esteve alta durante o dia, com corridas em São Paulo 50% mais caras do que o normal.

Colaborou Giovanni Santa Rosa