A Uber registrou o chamado “formulário S-1” para fazer sua oferta pública de ações (IPO) e abrir seu capital na bolsa de Nova York. Os papéis trazem algumas informações interessantes. Como já sabíamos, a empresa perde dinheiro — a novidade é que ela admite publicamente que pode não gerar lucros no futuro próximo.

Os documentos também alertam os investidores para alguns riscos a que a empresa está sujeita. Mudanças de legislação, falhas no desenvolvimento de carros autônomos e movimentos como o #DeleteUber podem impactar os negócios da companhia.

Os dados também trazem informações sobre o mercado brasileiro. O país é o segundo que mais gera receitas para a companhia. São Paulo está no grupo de cinco cidades que, somadas, representam 25% das corridas do app.

A situação financeira da Uber

A Uber vem divulgando relatórios financeiros trimestrais há dois anos. Ela não era obrigada a fazer isso, pois ainda é uma empresa de capital fechado (até o IPO rolar), mas fez mesmo assim, por transparência. Por isso, já se sabia há algum tempo que a companhia, apesar das altas receitas, não dá lucro.

Como nota o New York Times, a empresa perdeu US$ 1,8 bilhão em 2018, excluindo algumas transações, como vendas de operações no Sudeste Asiático e na Rússia.

O que a Uber admite agora é que, em um futuro próximo, pode não dar lucro. O crescimento das receitas já não tem mais o mesmo fôlego de anos passados e está desacelerando. De 2016 para 2017, elas mais que dobraram, mas de 2017 para 2018, a subida foi de 42%.

Além disso, a política agressiva da empresa, que visa angariar motoristas e passageiros e derrotar concorrentes em diversas partes do mundo, custa muito dinheiro. Além disso, há os investimentos em serviços de entrega de comida e patinetes elétricos.

Os riscos que a empresa vislumbra

A Uber também tem que lidar com diversos riscos, e o documento revela alguns deles. A empresa alerta os investidores sobre a possibilidade de que tribunais e cortes ao redor do mundo considerem que os motoristas são funcionários da Uber.

Nosso negócio seria negativamente afetado se os Motoristas fossem classificados como funcionários em vez de prestadores de serviços. O status de prestador independente de serviços dos Motoristas está atualmente sendo contestado nos tribunais e por agências governamentais nos Estados Unidos e no exterior. Estamos envolvidos em vários processos judiciais em todo o mundo, incluindo ações judiciais coletivas, demandas de arbitragem, cobranças e reclamações perante órgãos administrativos e investigações ou auditorias trabalhistas, previdenciárias e fiscais que alegam que os Motoristas devem ser tratados como nossos funcionários (ou como trabalhadores ou quase-empregados em locais onde esses status existem), ao invés de prestadores independentes de serviços […] Além disso, os custos relacionados com a defesa, acordos ou resolução de processos pendentes e futuros (incluindo demandas de arbitragem) referentes ao status de prestadores independentes dos Motoristas pode ser relevante para nossos negócios.

A empresa também alerta para outras decisões do tipo, como a da cidade de Nova York, que impôs limite de motoristas e salário mínimo para os trabalhadores. O estado de Connecticut está para aprovar legislações semelhantes, e motoristas da Califórnia vem fazendo exigências parecidas.

Esse não é a única ameaça contra seus negócios que a Uber vislumbra. Os documentos para passar a negociar suas ações na bolsa precisam detalhar uma série de riscos da empresa, e a Uber considera vários fatores que podem afetar a viabilidade do seu negócio.

O Gizmodo US fez uma lista bem extensa de vários perigos que estão nos papéis. Eis alguns deles:

  • A possibilidade de que campanhas como a #DeleteUber, feitas em resposta a certas condutas da empresa, tenham impacto significativo. A companhia admite que o movimento fez com que centenas de milhares de usuários deletassem o app de seus dispositivos nos dias em que a campanha obteve repercussão nas redes sociais, um número bastante expressivo.
  • Greves e ações coletivas de motoristas de diversos países.
  • Crimes praticados por motoristas como estupro, assédio e sequestro, que já aconteceram várias vezes.
  • Falhas no projeto de carros autônomos que possam, eventualmente, levar o público a considerar os veículos dos concorrentes como melhores ou mais seguros.

A importância do mercado brasileiro

Os dados da documentação da Uber também revelam dados interessantes sobre a participação do Brasil nos negócios da empresa. Em 2018, a operação brasileira gerou US$ 959 milhões de receitas — o lucro, por outro lado, não foi revelado. Isso coloca o Brasil como segundo maior mercado da Uber no mundo, atrás apenas dos próprios EUA.

Como nota o Manual do Usuário, a empresa reinveste no País apenas o que supera US$ 500 milhões, e não espera ser taxada por repatriar essa quantia. Possivelmente, é alguma brecha fiscal. Por outro lado, o documento considera que os pagamentos em dinheiro por corridas e a violência exposta a que os motoristas brasileiros estão expostos são fatores a se considerar.

Além disso, São Paulo está junto com Londres, Nova York, Los Angeles e San Francisco no top 5 de cidades que mais usam a Uber. Juntas, elas correspondem por 25% das corridas feitas em todo o mundo.

[New York Times, Gizmodo US, Exame, Manual do Usuário]