Teotihuacan, em seu ponto alto, foi uma das maiores cidades do mundo, abrigando mais de 100 mil pessoas em um trecho de 83 quilômetros quadrados no que hoje é o México Central. Estudando a região, uma equipe de arqueólogos usou  tecnologia de mapeamento aéreo para ver como a paisagem foi modificada em grande escala pelas pessoas que viviam lá. Os resultados foram publicados esta semana na PLOS One.

A equipe estava tentando entender como a antiga Teotihuacan foi construída e como a paisagem urbana moderna foi crescendo sobre ela. Criada entre cerca de 100 a.C. e 450 d.C., a região fica a cerca de 48 quilômetros  a nordeste da Cidade do México, tornando-se parte integrante da paisagem contemporânea.

Os pesquisadores descobriram que os construtores da cidade antiga escavaram bastante – até mesmo extraíram rochas para outros locais de construção na cidade – e que 65% das características urbanas de hoje são construídas nos mesmos alinhamentos da construção original de Teotihuacan. A equipe também descobriu que 205 características da cidade antiga foram destruídas por operações de mineração desde 2015. 

“Descobrimos que precisamos redefinir como eram as paisagens urbanas do passado e quais são seus legados de longo prazo presentes na paisagem moderna”, disse Nawa Sugiyama, antropóloga da University of California Riverside e principal autora do estudo, por e-mail ao Gizmodo

“Há milênios as pessoas vêm modificando extensivamente o ambiente construído e, em contextos urbanos, como a antiga cidade de Teotihuacan, estão mudando os cursos dos rios, alterando a topografia e afetando o potencial agrícola da área.”

“Essas mudanças feitas há quase dois milênios ainda afetam a forma como construímos nossos edifícios, alinhamos nossas estradas e fazemos nossas plantações em terraços”, acrescentou Sugiyama.

A) Imagem do fator de visão do céu da Praça das Colunas mostrando uma pilha de rochas moderna delineando o complexo, o retângulo indica a unidade de escavação ao longo de um alinhamento Teo Moderno, B) fotografia da pilha de rocha moderna, C) fotografia de escavações revelando uma grande parede sob a rocha moderna pilha.
Foto: Publicada sob licença CC BY, com permissão de N. Sugiyama, com direitos autorais originais do Projeto Plaza do Complexo de Colunas 2021.

A tecnologia que a equipe usou se chama LiDAR, uma forma de conduzir pesquisas arqueológicas não invasivas. LiDAR é a abreviação de “detecção e alcance de luz”, que é basicamente o que a tecnologia faz: ela ‘atira’ luz na superfície do alvo e cronometra o tempo que leva para a luz voltar. Com base nesses intervalos, os arqueólogos são capazes de ver pequenas mudanças na elevação em resolução extremamente alta. O método pode atravessar as copas da floresta, o que é útil para encontrar assentamentos escondidos por séculos, como foi o caso de um grande assentamento maia, ao norte de Tikal, descoberto em 2018.

Os engenheiros que projetaram Teotihuacan também curvaram os rios San Juan e San Lorenzo, que cortam a cidade. Os rios foram curvados para se adequar ao alinhamento astronômico da cidade, outro exemplo do esforço e da perícia deslumbrantes empregados na construção da metrópole. “Controlar o fluxo das águas não foi apenas um método para incorporar o caminho do rio ao traçado da cidade cósmica de Teotihuacan, mas também uma forma de demonstrar seu domínio sobre esses elementos naturais, um feito que exigiu as mãos de milhares de trabalhadores”, disse Sugiyama. 

Infelizmente, as estruturas subterrâneas são invisíveis para lidar – a tecnologia apenas detecta mudanças na elevação do solo. 

Portanto, a equipe não sabe quais estruturas ímpares foram destruídas quando trechos do vale foram minados em antecipação a um aeroporto internacional, cujos planos já foram descartados. Mesmo assim, em maio o governo mexicano condenou um projeto de construção privada que danificou e destruiu elementos da cidade histórica.

“LiDAR captura a humanidade e o impacto cumulativo da natureza em nosso planeta em três dimensões, nos forçando a considerar as consequências de nossas ações no passado e no presente”, disse por e-mail Thomas Garrison, arqueólogo e especialista em sensoriamento remoto da Universidade do Texas em Austin que não esteve presente no estudo. “Ao mostrar as conexões diretas entre a antiga Teotihuacan e os assentamentos modernos ao redor das ruínas, este estudo apresenta um caso convincente do porquê a arqueologia é uma disciplina tão importante no século 21 e não simplesmente um esforço colonialista para se apropriar do patrimônio cultural.”

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A equipe de pesquisa irá colaborar com o departamento de cultura do governo mexicano – Instituto Nacional de Antropología e Historia – no uso dos mapas como uma espécie de referência para a situação atual do patrimônio cultural de Teotihuacan. O trabalho é realmente descobrir o que está lá e garantir que não desapareça com mais desenvolvimento humano.