Uma expedição perto de Luxor encontrou os restos de uma cidade perdida do antigo Egito, no que está sendo celebrado como a descoberta arqueológica mais significativa na região desde a década de 1920.

O arqueólogo Zahi Hawass, ex-ministro de Estado para Assuntos de Antiguidades do Egito, fez o anúncio na quinta-feira (8) por meio de sua página no Facebook. A cidade de 3.400 anos, chamada The Rise of Aton (“A Ascensão de Aton”, em tradução literal), foi encontrada enterrada na areia perto da cidade de Luxor, no sul do Egito, e do Vale dos Reis (local do túmulo do Rei Tut). Uma equipe de arqueólogos inadvertidamente tropeçou na cidade enquanto procurava o templo mortuário de Tutancâmon.

Hawass afirma ter liderado a expedição, mas o arqueólogo é famoso por colocar seu nome em praticamente tudo o que tem a ver com descobertas relacionadas ao antigo Egito e por se envolver em ciência de baixa qualidade (este é um excelente exemplo). Tirando isso, essa última descoberta é real, e é difícil superestimar a importância dessa descoberta incrível.

Porções interiores da cidade perdida. Imagem: Zahi Hawass/Facebook

A Ascensão de Aton remonta ao reinado de Amenhotep III, o nono faraó da 18ª dinastia do antigo Egito. Amenhotep III esteve no poder por volta de 1391 a 1353 a.C., e seu governo coincidiu com uma idade de ouro — uma época em que o Egito antigo atingiu o auge de seu poder internacional e produção cultural.

Como Hass explicou em seu comunicado, a Ascensão de Aton foi o maior centro administrativo e industrial ao longo da margem oeste de Luxor durante este período. Muitas “missões estrangeiras” procuraram esta cidade, mas ela não foi descoberta até agora, acrescentou.

Betsy Bryan, professora de arqueologia da Universidade Johns Hopkins e especialista neste período, disse que “não há indicação” de que essa “seção tenha sido encontrada antes, embora claramente represente parte de uma enorme cidade real”. O “tamanho desta cidade real era de fato semelhante a Amarna”, a capital ao norte, e “representa um claro precedente para a futura cidade de Akhetaton”, acrescentou Bryan, que não está envolvida no projeto.

As escavações na área começaram em 2020 e, em poucas semanas, a equipe começou a descobrir tijolos de lama. À medida que as escavações continuavam, para sua surpresa, os arqueólogos começaram a perceber que estavam desenterrando uma cidade de tamanho significativo.

Apesar de estar enterrada há milhares de anos, a cidade está em um estado de conservação razoavelmente bom, apresentando paredes quase completas e salas repletas de artefatos representativos da vida cotidiana. As “ruas da cidade são ladeadas por casas”, escreveu Hawass, com algumas paredes medindo quase 3 metros de altura. A equipe já está trabalhando há sete meses no projeto e ainda há muito a ser feito.

As descobertas dentro da cidade incluem anéis, escaravelhos, cerâmica colorida, jarros de vinho e tijolos de barro com os selos do rei Amenhotep III, o último dos quais foi usado para datar a cidade. Um contêiner com cerca de 10 quilos de carne seca ou cozida apresenta a seguinte inscrição: “Ano 37, carne preparada para o terceiro festival Heb Sed do matadouro do pátio de Kha feita pelo açougueiro Luwy.”

“Esta informação valiosa não só nos dá os nomes de duas pessoas que viveram e trabalharam na cidade, mas também confirmou que a cidade estava ativa e era a época da corregência do rei Amenhotep III com seu filho Akhenaton”, escreveu Hawass.

Artefatos encontrados dentro da cidade. Imagem: Zahi Hawass/Facebook

Uma padaria foi descoberta na parte sul da cidade, juntamente com uma área para preparar e cozinhar alimentos (incluindo fornos e uma área de armazenamento para panelas). Com base em seu tamanho, “podemos afirmar que a cozinha atendia a um grande número de trabalhadores e funcionários”, disse Hawass.

Uma segunda área, ainda parcialmente investigada, parece ter sido o distrito administrativo e residencial, por apresentar unidades habitacionais maiores e mais organizadas. Uma parede disposta em ziguezague circunda essa área, com um único ponto de acesso levando para dentro, indicando algum tipo de medida de segurança controlada.

“Existem setores industriais, todos especificamente divididos por paredes sinusoidais e separados por função”, explicou Bryan em seu e-mail. “Isso é excepcional em escala e organização. Fornos e fornalhas abundam. Tijolos estampados em grandes quantidades com a fonte de argila ao lado deles. O granito se esvai das estátuas”, escreveu ela, acrescentando: “Estou tentando segurar a emoção”.

Oficinas aparentes foram descobertas em uma terceira área, incluindo locais para fabricar tijolos de barro. Lá, a equipe também encontrou moldes de fundição, que provavelmente foram usados ​​para produzir amuletos e “elementos decorativos delicados”, de acordo com Hawass, que ele disse ser “mais uma evidência da extensa atividade na cidade para produzir decorações para templos e tumbas”. Os arqueólogos também encontraram ferramentas possivelmente usadas para fiação e tecelagem e evidências de fabricação de metal e vidro, embora a área principal em que essas atividades foram realizadas ainda não tenha sido descoberta.

Um túmulo humano encontrado na cidade. Imagem: Zahi Hawass/Facebook

A equipe também encontrou um túmulo humano, no qual havia um indivíduo com os braços colocados ao lado do corpo e os restos de uma corda amarrada em volta dos joelhos. A localização e a posição dessa pessoa foram descritas como “estranhas” e merecem uma investigação mais aprofundada. O mesmo se aplica a um enterro estranho envolvendo uma vaca ou touro aparente encontrado dentro de uma sala.

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A Ascensão de Aton foi abandonada e realocada para Amarna, 400 quilômetros ao norte, por razões ainda não compreendidas pelos arqueólogos. “Apenas mais escavações na área irão revelar o que realmente aconteceu há 3.500 anos”, escreveu Hawass.

Ainda há muito a se explorar nesta cidade antiga, incluindo um grande cemitério e uma coleção de tumbas talhadas na rocha. Parece que voltamos a 1922, quando foi descoberta a tumba de Tutancâmon.