Cientistas encontraram um fosso enorme na superfície de Mercúrio. Ele é maior do que o Grand Canyon, e mais amplo e profundo que o Grande Vale do Rift, no leste da África. Mas não é só o tamanho que o torna marcante – o “Grande Vale” pode ser a melhor evidência de que toda a crosta de Mercúrio está diminuindo.

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Há alguns meses, cientistas que analisavam os dados coletados pela missão MESSENGER da NASA fizeram o seguinte anúncio: Mercúrio, um planeta ligeiramente maior que a nossa Lua e intensamente perto do Sol, está ativo geologicamente.

Baseados em inúmeras pequenas falhas espalhadas pela superfície do planeta, os cientistas determinaram que ele está sofrendo um encolhimento da crosta, uma forma de atividade tectônica, enquanto seu núcleo esfria.

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Perspectiva 3D do Grande Vale de Mercúrio. Gif por Gizmodo via NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington/DLR

Mas, enquanto pequenas falhas indicam que Mercúrio está pelo menos um pouco ativo atualmente, a MESSENGER também conseguiu capturar grandes elementos que apontam graves movimentos geológicos no passado. O Grande Vale, identificado num mapa topográfico de alta resolução feito pelas imagens estereoscópicas da MESSENGER, talvez seja o elemento mais impressionante.

“Este foi apenas um daqueles resultados realmente divertidos”, diz Thomas Watters, cientista planetário no Instituto Smithsonian que liderou a descoberta, ao Gizmodo. “Não tínhamos visto nada como isso [em Mercúrio] ainda.”

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Grande Vale de Mercúrio mostrado em tons de azul escuro nesse mapa topográfico. Imagem: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington/DLR/Smithsonian Institution

Com 400 quilômetros de largura e 965 quilômetros de comprimento, o Grande Vale se estende a partir da parte sudoeste da bacia do Rembrandt, uma das bacias mais largas e jovens de Mercúrio.

O vale é demarcado por duas enormes escarpas – estruturas em forma de degrau em que os dois lados de uma falha se tornaram verticalmente deslocados um do outro – e tem 3 quilômetros de profundidade. “Não há nenhuma evidência de uma formação geológica que corresponda a essa escala”, diz o geólogo Laurent Montesi, da Universidade de Maryland, em um comunicado.

mercurio-2Modelo de elevação em alta resolução obtido pelo MESSENGER releva o Grande Vale de Mercúrio, em azul. Imagem: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington/DLR/Smithsonian Institution

No periódico Geophysical Research Letters, Watters, Montesi e seus coautores argumentam que o Grande Vale provavelmente se formou devido ao rápido resfriamento do interior de Mercúrio, que fez com que a litosfera do planeta – uma única placa tectônica – murchasse como uma uva passa. Enquanto isto estava acontecendo, a superfície do vale dobrou e afundou entre as duas falhas.

“Esta é uma das evidências mais fortes até agora para explicar a contração litosférica”, diz Watters. “Isso nos dá uma ideia ainda melhor da atividade tectônica em um planeta de uma placa.”

Watters e sua equipe continuarão a explorar os dados da MESSENGER, que deve render descobertas científicas por muitos anos. Visto que a missão já descobriu gelo, campos magnéticos estranhos e possíveis evidência de terremotos por lá, acho que ainda há muitas surpresas pela frente.

[Geophysical Research Letters]

Imagem do topo: JHU/APL.