Em todo o mundo, bilhões de pessoas dependem da água que vem da neve e das geleiras. No entanto, o aumento das temperaturas e o caos político podem significar uma rápida diminuição dos recursos hídricos para essas regiões vulneráveis – sendo a região montanhosa da Ásia uma das mais afetadas, de acordo com descobertas divulgadas pela União de Geofísica dos Estados Unidos.

O estudo, também publicado na revista Nature nesta segunda-feira (9), se refere a essas montanhas como “torres d’água”.

O artigo examina 76 regiões montanhosas para explorar o clima e as pressões sociais sobre os recursos hídricos. A análise climática inclui temperatura e precipitação, enquanto os fatores socioeconômicos incluem crescimento populacional, desenvolvimento econômico e urbanização como potenciais fatores condicionantes.

Das 76 regiões do estudo, a pesquisa identifica a Bacia do Indo, localizada entre a Índia e o Paquistão, como a torre d’água mais importante do mundo, e a mais vulnerável.

Mais de 200 milhões de pessoas dependem da água armazenada nos picos, e esse número deverá crescer. Além disso, os cientistas projetam que a temperatura na região aumente em 1,9 graus Celsius até 2050.

Os dois países vizinhos terão de encontrar um meio-termo na gestão desse recurso hídrico para conseguir sustentá-lo, uma tarefa difícil para duas potências nucleares com história de conflitos entre si.

“Não será apenas a mudança climática que vai influenciar o abastecimento de água das montanhas, mas os fatores socioeconômicos podem até ser mais fortes ao impulsionar as enormes demandas”, disse Walter Immerzeel, um dos 32 autores do artigo que também é professor de Geociências na Universidade de Utrecht, na Holanda, durante uma coletiva de imprensa sobre a pesquisa.

Por causa dessas pressões socioeconômicas, as regiões montanhosas da América do Sul e da Ásia são mais vulneráveis do que as da América do Norte. Isso não quer dizer que as torres d’água da América do Norte estejam isoladas de ameaças.

Os aumentos da população e da temperatura estão colocando mais pressão sobre os recursos hídricos, como as bacias dos rios Fraser e Columbia, no noroeste do Pacífico, por exemplo.

Este é o primeiro índice a medir as pressões concorrentes sobre as torres d’água do mundo. As descobertas do aumento da demanda e do estresse sobre essas regiões não são necessariamente surpreendentes porque, bem, vivemos em um mundo mais quente que se vê obrigado a derreter algumas geleiras (que armazenam água) e mexer com os padrões de precipitação.

Ainda assim, os autores tiveram de criar um sistema particular para classificar as bacias hidrográficas. Começaram qualificando a importância de uma torre. Essa medição foi feita ao analisar a precipitação, a cobertura de neve, o armazenamento de gelo glacial e a água superficial para determinar o suprimento de água que ela contém.

Depois disso, confrontaram os números com a demanda. Isso inclui a quantidade de água necessária para atender à necessidade de irrigação, indústria e fins domésticos. Este tipo de índice pode ser usado no futuro para planejar futuros estresses hídricos – e potencialmente atenuá-los.

À medida que as populações ao redor do mundo continuam a explodir, especialmente no Hemisfério Sul, os líderes terão que mudar suas estratégias de conservação para garantir que haja água suficiente para todos.

E como os autores deixaram claro durante a coletiva de imprensa sobre a pesquisa, essas montanhas também podem ajudar a enfrentar a crise energética que enfrentamos, deixando para trás os combustíveis fósseis e investindo na energia hidrelétrica.

A energia hidrelétrica definitivamente tem suas próprias questões ambientais, mas precisamos reduzir as emissões de gases de efeito estufa com urgência. Esse é o primeiro passo para proteger a água do mundo. E, mesmo assim, continuaremos a sentir os impactos na a oferta de alimentos e a biodiversidade.

“É importante desenvolvemos políticas específicas para as montanhas e proteger e preservá-las,” disse Immerzeel.