Os algoritmos que estão por trás da maioria dos manda-chuvas do Vale do Silício são geralmente trancados em nome da “proteção de segredos comerciais”, mas essa é uma desculpa que está começando a se desgastar um pouco nos últimos meses.

Talvez seja porque estas empresas são muito mais difíceis de regular ou de se concorrer quando não pedimos para revelar seus respectivos segredos. Talvez seja porque estes molhos secretos controlam a renda de um pedaço cada vez maior de pequenos empresários e trabalhadores autônomos. Talvez seja porque se descobriu que eles são tendenciosos e escondem as especificidades em nome dos “segredos comerciais” só acaba prejudicando as pessoas que usam a plataforma.

Todas estas questões chegaram ao limite quando quatro motoristas da Uber baseados no Reino Unido entraram com uma ação contra a filial europeia da empresa em um tribunal distrital de Amsterdã na segunda-feira (20), alegando que a recusa da empresa em compartilhar dados de motoristas com os próprios motoristas é tecnicamente uma violação das leis europeias de proteção de dados (GDPR).

Se este grupo conseguir que Uber revele os dados em questão, poderá oferecer uma janela sem precedentes para a forma como a empresa faz o perfil algorítmico tanto dos motoristas sediados na União Europeia como dos EUA em sua plataforma – injustamente ou não.

Para dar um pouco de contexto, os quatro motoristas por trás do processo são membros do Sindicato de Motoristas e Couriers – ou ADCU –, um grupo que está trabalhando com uma organização sem fins lucrativos chamada Worker Info Exchange na esperança de coletar dados de apps sobre motoristas que podem ser usados para negociações coletivas no futuro.

De acordo com o documento, todos os quatro motoristas tentaram pedir à Uber os dados que foram coletados por seu aplicativo Uber Driver, que não só coleta dados de uma determinada viagem, mas também detalhes sobre a aceleração até a localização dos deslocamentos, mesmo que seja feito sem um passageiro.

No total, o documento descreve mais de 26 categorias de dados, que, pelo menos no papel, são em sua maioria compilados para avaliar a oferta e a demanda e descobrir quais devem ser os preços para uma determinada viagem da Uber em um determinado bairro em um determinado dia.

Mas, como o documento descreve, alguns desses dados também são usados para traçar o perfil dos motoristas em questão. Como o documento explica, a Uber mantém um perfil bem guardado de cada motorista na plataforma e usa métricas como os tempos de chegada de um motorista e a classificação das corridas para fazer anotações sobre seu “nível de profissionalismo” ou “habilidades de navegação”.

Quando os quatro motoristas britânicos por trás do processo pediram a Uber que revelasse esses dados – e mais – esperando que a empresa obedecesse às pesadas leis de dados da Europa, nenhum deles recebeu qualquer retorno. Apenas dois deles recuperaram alguns dados, o que pode configurar uma violação e gerar multas para a companhia.

Até que isso aconteça, a ADCU criou um fundo de um mês para as pessoas que procuram apoiar o caso, acumulando £ 345 (cerca de R$ 2.315, na cotação atual) desde que o caso começou. Eles também estão encorajando todos os motoristas e entregadores do Uber Eats a realizar seus próprios pedidos de dados da empresa, na esperança de que mais vozes – e mais pressão sobre a empresa – possam forçá-los a fazer uma mudança.

Considerando o histórico de comportamento da Uber em relação aos motoristas, este sindicato pode enfrentar uma difícil batalha, mesmo que as leis locais de proteção de dados estejam do seu lado.