Se até algum tempo atrás, ouvíamos predominantemente motoristas de aplicativos reivindicarem  direitos junto às plataformas com greve, agora está na vez dos entregadores. Nesta quarta-feira (1º), trabalhadores organizaram o #BrequedosApps (ou #GreveDosApps, como o assunto tem sido abordado no Twitter), uma paralisação em todo o Brasil pedindo melhores condições de trabalho e maiores medidas de proteção contra o coronavírus.

Os protestos envolvem trabalhadores de apps como UberEats, iFood, Rappi, Loggi, 99Foods, James e foram organizados online, então não tem uma entidade centralizadora. No entanto, há relatos de paralisação de entregadores em São Paulo (SP), Campinas (SP), Rio de Janeiro (RJ), Distrito Federal, Belo Horizonte (MG) e Fortaleza (CE).

Uma das principais reivindicações do grupo de trabalhadores autônomos é o aumento da taxa mínima recebida por corrida e a transparência dos aplicativos no sistema de cobranças. Em entrevista à BBC Brasil, um motofrentista disse que tem ganhado menos dinheiro, apesar do aumento de demanda. Mineiro, como foi identificado, chegava a ganhar R$ 6 mil por mês, mas com a pandemia, trabalhando 12 horas todos os dias, seu rendimento chega a R$ 2 mil por mês.

Uma pesquisa feita pela Unicamp aponta que quase 60% dos entregadores sentiram queda da remuneração durante a pandemia.

Ainda no âmbito da transparência, os trabalhadores alegam que alguns apps acabam excluindo entregadores da plataforma sem nem explicar o que aconteceu direito.

Os aplicativos contam com formas de funcionar distintas. O Rappi, por exemplo, tem um sistema de pontuação: o entregador precisa acumular determinada pontuação para conseguir acesso a restaurante e áreas de determinadas localizações. Isso, segundo os entregadores, faz com que eles tenham jornadas longas para não perderem boas localidades de trabalho ou tenham o número de pedidos restringidos — à BBC Brasil a Rappi diz que metade dos entregadores cadastrados passa menos de uma hora conectado. Um dos pedidos da manifestação é acabar com este tipo de sistema.

Em tempos de coronavírus, os entregadores pedem medidas maiores de segurança para o trabalho deles. Apesar de plataformas divulgarem que forneceram ajuda aos trabalhadores fornecendo álcool em gel e EPI (equipamento de proteção individual), muitos trabalhadores dizem que as medidas não foram o suficiente. Eles também pedem seguro que inclua doenças contraídas no trabalho, como COVID-19.

Por mais que traga facilidades, há sempre um ponto em que a “economia do bico” gera tensão. Desta vez são os entregadores, mas aparentemente os próximos a se revoltarem contra os apps são os próprios restaurantes.

[BBC Brasil e Intercept Brasil]