A história costuma se repetir. Os seres humanos estão atualmente realizando um grande experimento com o clima da Terra, e de acordo com Richard Alley, climatologista da Penn State University, o resultado pode já ter acontecido – em uma versão mais branda – há 55,9 milhões de anos.

>>> Emissões de carbono não eram tão altas desde quando os dinossauros foram extintos

Há muito tempo, geólogos consideram o Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (MTPE) como o análogo mais direto para a mudança climática moderna. Durante o MTPE, entre 2 e 4 trilhões de toneladas de carbono foram descarregadas na atmosfera ao longo de milhares de anos, por razões que ainda estão sendo debatidas.

Hoje, as concentrações de carbono estão aumentando 10 vezes mais rápido que no MTPE, segundo um estudo recente – e o debate científico sobre quem é o responsável acabou há muito tempo.

Um relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), compilado por mais de duzentos cientistas de quarenta países, diz com 95% de certeza que grande parte do aquecimento global tem causas humanas. O relatório teve a aprovação de todos os 195 países-membros da ONU.

É consenso científico que a mudança climática tem causas antropogênicas. No entanto, ainda há um pequeno grupo que contesta isso, representado pelo “negacionismo climático”. Há quem diga que, como o MTPE aconteceu no passado e ainda há vida na Terra, isto pode não ser um problema tão grande.

Mas, como nota Alley, as emissões do MTPE ocorreram ao longo de uma escala de tempo muito maior, talvez dando à vida na Terra alguma chance de se adaptar. Por essa razão, ele conclui, “os impactos biológicos do MTPE foram provavelmente menos graves do que os impactos das emissões causadas pela humanidade”.

Cientistas estimam que a quantidade total de carbono acrescentado à atmosfera durante o MTPE foi semelhante ao que os seres humanos poderiam acrescentar hoje se queimassem todas as reservas de combustíveis fósseis.

O que exatamente isso significa para nós? Na revista Science, Alley argumenta que muitas das mudanças climáticas e ecológicas que ocorreram há 55,9 milhões de anos provavelmente vão se repetir. Eis uma lista não exaustiva:

– aumento da erosão, sugerindo chuvas mais intensas separadas por longos períodos de seca;

– migração em massa de espécies em todo o planeta;

– mamíferos grandes se tornando menores;

– colapso dos ecossistemas de recifes de coral;

– aumento do estresse para a vida das plantas – as causas possíveis incluem espécies invasoras, calor excessivo, secas e perda de fertilidade do solo;

– extinção de várias espécies;

– concentrações de carbono na atmosfera, e todos os impactos acima referidos, com duração de até 150.000 anos.

Esses itens são familiares porque já começaram a acontecer. Para evitar que o problema piore, EUA, China e outros países com altas emissões de carbono darão um grande passo no final deste mês, ao assinar o acordo climático de Paris para que entre em vigor – e muito mais precisa ser feito.

Tudo isso já aconteceu antes. Se não agirmos, tudo poderia acontecer de novo.

[Science]

Foto: Chris Blackhead/Flickr