A descoberta de uma carapaça de lama endurecida enrolada em torno de uma múmia de 3,2 mil anos trouxe à luz uma prática funerária egípcia até então desconhecida.

A carapaça de lama – um invólucro em forma de concha – foi identificada em uma múmia egípcia mantida no Chau Chak Wing Museum na Universidade de Sydney, na Austrália. Carapaças em múmias já foram documentadas antes, mas são feitas de resinas ou uma combinação de resinas misturadas com outras substâncias, como betume, explicou Karin Sowada, principal autora do novo estudo e arqueóloga da Universidade Macquarie, por e-mail. Seu novo artigo, publicado na quarta-feira (4) na PLOS One, descreve a primeira carapaça egípcia conhecida feita de lama.

“Nosso estudo multidisciplinar, portanto, fornece novos insights sobre esse tipo de procedimento de mumificação e expande nossa compreensão das maneiras como os antigos egípcios tratavam seus mortos”, disse Sowada. “Como a lama é uma alternativa mais acessível e disponível do que a resina, sugere-se que essa técnica de mumificação provavelmente tenha sido mais comum do que se pensava anteriormente. Uma investigação mais aprofundada de outros indivíduos mumificados que não pertenciam à realeza revelará até que ponto esta técnica foi praticada.”

Esta múmia tem uma história um pouco estranha, resultando em uma segunda descoberta importante. O político e filantropo australiano Charles Nicholson comprou a múmia em meados de 1850 e doou-a para a Universidade de Sydney em 1860. Inscrições e símbolos no caixão sugeriam o nome “Meruah” para o ocupante e uma data de sepultamento por volta de 1000 AC. Acontece que nada disso é verdadeiro, pois o corpo não pertence realmente ao caixão, de acordo com a nova pesquisa.

O indivíduo mumificado e o caixão. Imagem: K. Sowada et al., 2021/PLOS ONE

Em 1999, os cientistas usaram tomografias computadorizadas para analisar a múmia, período em que detectaram a carapaça. Uma nova investigação da múmia começou em 2017, em preparação para a inauguração do Chau Chak Wing Museum. Tomografias computadorizadas atualizadas foram feitas do corpo, junto com uma nova análise de amostras retiradas da múmia, “permitindo uma compreensão mais detalhada da camada da carapaça”, disse Sowada.

A datação por radiocarbono sugere que o corpo, datado do século 12 a.C. (cerca de 1200 a 1113 a.C.), é na verdade mais antigo que o caixão. Um cenário provável é que os traficantes do século 19 colocaram a múmia em algum caixão aleatório para formar um conjunto completo e depois o venderam para Nicholson. O nome “Meruah”, portanto, e vários títulos, incluindo “Chantriz de (o deus) Amon”, provavelmente não se referem a esse indivíduo.

Visão ampliada da camada de lama, revestida com pigmento vermelho e branco. Imagem: K. Sowada et al., 2021/PLOS One

Os novos exames também confirmaram o corpo como pertencente a uma mulher que morreu entre as idades de 26 e 35 anos. A análise atualizada lançou uma nova luz sobre a carapaça, revelando-a como uma concha endurecida enrolada em volta do corpo e embalada em envoltórios de linho. Além disso, não se sabe muito mais sobre a mulher, mas a natureza de seu enterro fornece algumas pistas.

“Dada a qualidade geral de sua mumificação e o custo adicional da carapaça para restaurar o corpo em algum momento posterior, podemos dizer que ela provavelmente era de uma família rica”, explicou Sowada. “No entanto, o uso de lama para fazer uma carapaça, em vez de resina fina exportada, como pode ser visto com alguns indivíduos da realeza mumificados da época, sugere uma abordagem mais econômica por aqueles que realizaram o tratamento post-mortem.”
Como a tomografia computadorizada também mostrou, o corpo parece ter sido danificado logo após a mumificação, o que provavelmente levou à cobertura à base de lama.

“As circunstâncias deste dano são desconhecidas”, disse Sowada, que explicou que “esta concha de lama, junto com um recobrimento e embalagem do corpo com linho, teria servido para reformar e proteger o corpo danificado”.

Na verdade, isso teria sido muito importante para os antigos egípcios, que associavam a preservação dos falecidos à continuação de sua existência após a morte. E como Sowada apontou, “a própria lama estava associada à ideia de regeneração e crescimento, portanto, teria sido um material simbolicamente significativo para usar nesse reparo, além de barato”.

Meruah, ou qualquer que seja o nome dela, está agora em exibição no museu Chau Chak Wing. O que é bacana é que os visitantes podem ver uma visualização 3D da múmia, com a qual eles podem interagir e investigar as diferentes camadas, incluindo a carapaça de lama.