Alguns cientistas acreditam que o rio Nilo pode revelar mistérios do manto da Terra. Porém, isso tem a ver com um debate sobre a idade do rio.

Existem duas hipóteses. Alguns cientistas defendem que o Nilo se formou a partir de um rio que se redirecionou há cerca de cinco milhões de anos. Outros acreditam que um proto-Nilo já fluía pela região há 30 milhões de anos.



Se o Nilo for mais velho, como as evidências de uma equipe de cientistas sugere, ele pode refletir o curso do manto que circula abaixo dele. O manto é a maior camada da Terra, e consiste em uma rocha de alta pressão que fica imediatamente abaixo da crosta e acima do núcleo.

“Talvez possamos usar os rios para entender como o manto circula”, disse Claudio Faccenna, principal autor do estudo e professor na Universidade do Texas em Austin, ao Gizmodo.

Dois modelos concorrentes tentam explicar o Nilo. Em um deles, o Nilo teria se formado quando uma bacia de drenagem mudou o seu curso de oeste para norte há cerca de 6 milhões de anos, devido aos mesmos processos que formaram uma fissura na placa tectônica africana chamada Vale da Fenda da África.

A outra teoria diz que o rio teria se formado há 30 milhões de anos como resultado de processos geológicos de longa duração no manto que têm empurrado o solo para cima na Etiópia e para baixo mais perto do Mediterrâneo.

A equipe de pesquisadores dos Estados Unidos, Canadá, Itália e Israel apresentou novas evidências em favor dessa última teoria, incluindo dados e modelagem. A modelagem de como a topografia local mudou ao longo do tempo sugere que o planalto etíope pode ter começado a aflorar há 30 milhões de anos, enquanto a terra começou a afundar no Mediterrâneo oriental, pela foz do Nilo.

Os pesquisadores ligaram esse modelo a um dos mantos que se movimentava como grandes blocos de rocha, de acordo com o artigo publicado na Nature Geoscience.

Pesquisas anteriores dessa mesma equipe de pesquisadores também apoiam a ideia de que o Nilo é mais velho. A análise de rochas com 20 a 30 milhões de anos, chamadas zircões, encontradas na foz do Nilo, mostrou que elas parecem combinar com as rochas encontradas no planalto etíope na fonte do Nilo, sugerindo que o rio tem pelo menos uma idade próxima desses números. A espessura do sedimento, bem como a quantidade de erosão no Nilo Azul (um dos principais afluentes do Nilo) também parecem apoiar a teoria.

Além da idade, os pesquisadores dizem ter demonstrado que alguns rios podem servir como uma ferramenta para entender o comportamento do manto da Terra. Alguns rios tipicamente originam-se de montanhas ou planaltos altos, mas outros, como o Nilo ou o rio Yenisei na Sibéria, simplesmente começam em locais de terras mais altas onde o manto da Terra foi empurrado para cima.

Esses tipos de rios diferem no tipo de sedimento que depositam em sua foz (geralmente é de origem vulcânica, a partir do afloramento do manto).

Esse trabalho é animador para cientistas como Faccenna, que esperam compreender melhor o manto, que é difícil de estudar devido à sua profundidade sob a crosta. “Se pudéssemos encontrar outro sinal do manto profundo na superfície, seria surpreendente”, disse ao Gizmodo.

Obviamente, este trabalho é baseado em um modelo, por isso existem pressupostos humanos embutidos que podem alterar o seu resultado. Mas eu gosto muito da ideia de que existem rios aqui na Terra que podemos usar como janelas para o submundo.