Cientistas estão relatando a descoberta de uma espécie até então desconhecida de um humano antigo que viveu nas Filipinas há mais de 50 mil anos. As evidências sugerem que a nova espécie, chamada de Homo luzonensis, era excepcionalmente magra — e possivelmente até mesmo menor que a famosa espécie Hobbit descoberta na ilha de Flores, na Indonésia, em 2004.

A história da evolução humana acabou de ficar muito mais confusa — e consideravelmente mais fascinante — devido à descoberta de uma espécie humana anteriormente desconhecida. Pedaços de dentes e ossos arrancados da caverna de Callao, na ilha filipina de Luzón, apontam para a existência de uma espécie distintamente humana, merecedora da designação Homo em termos de gênero. Ao mesmo tempo, porém, os fósseis encontrados na caverna de Callao exibem características diferentes de qualquer outra coisa jamais vista, garantindo assim a declaração de uma espécie humana completamente nova, o Homo luzonensis. Os detalhes dessa surpreendente descoberta foram publicados nesta quarta-feira (10) na Nature.

Convenhamos que não é sempre que novas espécies humanas são descobertas. A descoberta do Homo luzonensis, com seu curioso conjunto de características físicas, está nos contando algumas novidades surpreendentes sobre a evolução humana e o que aconteceu com os hominídeos pioneiros que deixaram a África tanto tempo atrás.

Essa história começa em 2010, com a importante descoberta de um osso de pé humano, datado de 67 mil anos de idade, na caverna de Callao. A espécie exata não pôde ser determinada, mas essa foi a primeira evidência direta de uma presença humana nas Filipinas. Como um importante detalhe adicional, descobrimos desde então que os hominídeos — subgrupo de primatas mais estreitamente relacionados a nós do que aos chimpanzés e bonobos — viviam nas Filipinas há mais de 709 mil anos.

Osso de animal abatido encontrado no sítio arqueológico de Kalinga, em Luzón, nas Filipinas, mostrou que os homininis estavam ativos na ilha já há 709 mil anos. A espécie recém-descoberta, chamada Homo luzonensis, viveu nas Filipinas há cerca de 67 mil anos. Não se sabe se os dois grupos eram parentes. Imagem: Thomas Ingicco, Mission Marche aux Philippines

De fato, a história da evolução humana está se tornando cada vez mais complicada. Os homininis apareceram pela primeira vez na África há cerca de seis a sete milhões de anos, com a primeira evidência de uma presença hominini na Eurásia remontando a cerca de 1,8 milhão de anos atrás, provavelmente o humano arcaico conhecido como Homo erectus. Incrivelmente, essa dispersão aconteceu muito antes da nossa espécie, o Homo sapiens, ter surgido; por fim, entramos em cena há 300 mil anos, nos espalhando pela Eurásia cerca de 100 mil anos mais tarde. Lá, juntamo-nos a duas outras espécies humanas, os neandertais e os denisovanos.

A maioria dos homininis extintos não são nossos ancestrais diretos, mas são, sim, parentes muito próximos. Cada espécie fez sua própria jornada evolutiva, adaptando-se às suas novas circunstâncias e a ambientes de maneiras diferentes. Por volta de 50 mil a 60 mil anos atrás, havia várias espécies humanas vivendo ao mesmo tempo, fazendo suas próprias coisas em vários locais na África e na Eurásia.

Os cientistas que encontraram o osso de pé humano nas Filipinas, uma equipe liderada por Florent Détroit, do Museu Nacional de História Natural da França, e Armand Mijares, da Universidade das Filipinas, continuaram trabalhando na caverna de Callao para encontrar mais pistas. Essas escavações, ainda em andamento, resultaram na descoberta de 12 novos elementos de homininis, incluindo dentes, um osso parcial da coxa e vários ossos das mãos e dos pés. Esses fósseis pertenceram a três indivíduos diferentes, dois adultos e uma criança. Nenhuma evidência genética pôde ser extraída dos espécimes, e, infelizmente, não foram encontrados crânios. Esses restos foram retirados da mesma camada estratigráfica que o osso do pé encontrado em 2010, datando esses indivíduos no mesmo período de tempo.

A análise dos ossos e dentes sugeriu uma espécie humana antes desconhecida. Além disso, esses homininis parecem ter sido excepcionalmente pequenos. Os autores do novo estudo suspeitam que o Homo luzonensis foi submetido a um processo evolutivo conhecido como nanismo insular, no qual o tamanho do corpo de uma espécie se reduz significativamente com o tempo devido ao acesso limitado a recursos.

Uma coisa semelhante provavelmente aconteceu com o Homo floresiensis, uma espécie humana extinta popularmente conhecida como Hobbit. Os restos desses seres humanos pequeninos, que não eram mais altos do que cerca de 109 centímetros, foram descobertos na ilha de Flores, no sudeste da Ásia, em 2004. A descoberta do Homo luzonensis — que pode ter sido menor que o Hobbit — pode significar a presença de mais uma espécie humana moldada pelo nanismo insular, uma descoberta bastante surpreendente, para dizer o mínimo. É importante ressaltar, no entanto, que o nanismo insular no Homo luzonensis continua sendo uma possibilidade distinta, mas não comprovada. Como os autores observaram no estudo, “mais descobertas e evidências mais definitivas são necessárias”.

Os Hobbits e o Homo luzonensis têm semelhanças impressionantes e viveram aproximadamente ao mesmo tempo, mas seu parentesco evolutivo não é conhecido. É possível que ambas as espécies humanas sejam descendentes do Homo erectus e que ambas tenham ficado isoladas em suas respectivas ilhas.

Cinco dentes superiores da espécie humana recentemente descrita, Homo luzonensis. Imagem: Projeto de Arqueologia da Caverna de Callao

Em termos das diferenças físicas distintas observadas no Homo luzonensis, as mais notáveis foram observadas nos seus dentes e ossos dos pés. Os seus molares, em particular, são diferentes de tudo o que já se viu numa espécie humana. O antropólogo Matthew Tocheri, da Universidade de Lakehead, no Canadá, escreveu em um artigo da News & Views, descrevendo como seus dentes apresentavam características tanto antigas quanto modernas.

Quando comparados com os molares de outras espécies de homininis, os molares do Homo luzonensis são surpreendentemente pequenos, e as superfícies simplificadas de suas coroas e seu baixo número de cúspides são características que parecem semelhantes às coroas e cúspides molares do Homo sapiens. No entanto, as formas dos dentes do Homo luzonensis compartilham semelhanças com os dentes do Homo erectus da Ásia, e a proporção de tamanho dos pré-molares do Homo luzonensis para os molares é semelhante à do Paranthropus, espécie conhecida por suas enormes mandíbulas e dentes.

Isso é incrivelmente fascinante, mas a história fica ainda mais intrigante — e potencialmente ainda mais confusa.

O terceiro metatarso — o osso longo no meio do pé — no Homo luzonensis é excepcionalmente estranho, apresentando uma semelhança incrível com os vistos nos Australopitecos, um antigo antepassado humano que viveu na África há cerca de três milhões de anos e nunca deixou a África, pelo menos até onde sabemos. O Homo luzonensis também apresentava ossos da mão semelhantes aos dos Australopitecos.

O osso do dedo do pé em questão: o terceiro metatarso do Homo luzonensis. Imagem: Projeto de Arqueologia da Caverna de Callao

Existem pelo menos duas explicações possíveis para esse estranho osso do dedo do pé, nenhuma das quais parece totalmente plausível.

Teoria maluca número um: o pensamento convencional diz que o Homo erectus foi a única espécie de hominini a ter deixado a África durante o início do Pleistoceno, o período entre 2,58 a 0,78 milhões de anos atrás. A evidência encontrada na caverna de Callao parece sugerir que nós entendemos tudo errado e que outros homininis, incluindo grupos mais estreitamente relacionados aos Australopitecos (ou mesmo os próprios Australopitecos), fizeram seu caminho para a Eurásia durante este período. Porém, mais evidências são necessárias para apoiar essa extraordinária possibilidade.

Teoria maluca número dois: um aspecto intrigante sobre o terceiro metatarso do Homo luzonensis é que ele permite dedos mais curvos. Isso é significativo porque os dedos curvos são ótimos para escalada de árvores e para se pendurar em galhos. O Australopitecos, um suposto escalador de árvores, foi equipado com essa característica física particular, e parece que o mesmo aconteceu com o Homo luzonensis. Mas se o Homo luzonensis não está estreitamente relacionado com os Australopitecos, então por que os dedos dos pés e das mãos são curvos? É possível que alguns homininis tenham mantido suas habilidades de escalada por muito mais tempo do que se pensa normalmente. Outra possibilidade é a evolução convergente, em que características físicas semelhantes aparecem em espécies não relacionadas. Se esse for o caso, isso significaria que, após milhares de anos de locomoção bípede e vertical, o Homo luzonensis estava retornando a uma existência arbórea, evoluindo as características físicas necessárias. É uma teoria alucinante, sem dúvida, mas, novamente, uma teoria que precisa desesperadamente de mais evidências.

“A descoberta do Homo luzonensis ressalta a complexidade da evolução, dispersão e diversidade do gênero Homo fora da África, particularmente nas ilhas do Sudeste Asiático, durante o Pleistoceno”, concluem os autores no novo estudo.

“Esta é uma descoberta verdadeiramente sensacional.”

O paleontólogo Adam Brunn, pesquisador da Universidade Griffith e especialista em colonização hominini no sudeste asiático, vinha ouvindo rumores sobre os fósseis de Luzón há anos, dizendo que é “brilhante” ver finalmente publicadas as novas descobertas.

“Não é todos os dias que uma nova espécie humana é descoberta. Descrever uma, adicionar um novo parente à nossa árvore genealógica, é um enorme privilégio — e uma enorme responsabilidade”, explicou Brunn para o Gizmodo. “A equipe de descoberta fez um trabalho muito meticuloso e louvável descrevendo esses novos fósseis, e o nome que deram a essa nova espécie, na minha opinião, é válido. Esta é uma descoberta verdadeiramente sensacional.”

Gerrit van den Bergh, professor sênior do Centro de Ciências Arqueológicas da Universidade de Wollongong, disse que os pesquisadores foram “fundamentados” em sua decisão de nomear a nova espécie. Ele disse que é fascinante que Luzón seja agora a segunda ilha conhecida, depois da de Flores, onde existiu uma espécie humana distinta antes da chegada do Homo sapiens.

“Essas espécies insulares podem ter evoluído em cada ilha em perfeito isolamento, e pode-se dizer que seu caminho evolutivo foi em uma direção completamente diferente da dos seus homólogos na Ásia continental, por exemplo, o Homo erectus ou os Neandertais”, escreveu van den Bergh, que não esteve envolvido no novo estudo, ao Gizmodo. “Mais notavelmente, eles se tornaram muito pequenos, o que também aconteceu com outros grandes mamíferos que ficaram encalhados nas ilhas, como vários elefantes pigmeus que sabemos que habitaram diversas ilhas do Mediterrâneo e do sudeste asiático.”

A antropóloga Dean Falk, da Universidade do Estado da Flórida, teve poucas divergências com o novo artigo, mas a única questão que ela levantou está além do controle dos pesquisadores: a incapacidade de encontrarem um crânio. Apesar dessa grande limitação, ela “ficou convencida de que os autores identificaram homininis com características odontológicas únicas, combinadas com pelo menos algumas características de mãos e pés que se assemelham às do Australopitecos”, acrescentando que esses “espécimes podem, de fato, representar uma espécie não identificada anteriormente”, escreveu Falk em um e-mail para o Gizmodo.

Os dentes pequenos do Homo luzonensis, acrescentou, sugerem que eles tinham corpos pequenos, mas não sabemos ao certo. Dito isso, “o nanismo insular não seria nada surpreendente na ilha”.

“É impossível não amar os ossos curvos das mãos e dos pés, e eu não tenho problema em especular que seus donos possam ter passado uma boa parte do tempo em árvores”, disse Falk ao Gizmodo. “Poderia ser que (pelo menos alguns) homininis continuaram dormindo em ninhos de árvores até muito recentemente, pelo menos geologicamente falando?”

No entanto, a história da evolução humana acabou ficando muito mais “cabeluda”, disse ela.

Sem brincadeira. E muito mais interessante, se é que isso é possível. Como este novo artigo ilustra lindamente, o desdobramento da história da origem humana está se tornando absolutamente incrível.

[Nature]