Em um novo estudo divulgado na segunda-feira, os cientistas dizem que agora podem registrar a atividade cerebral das pessoas sem utilizar fios ao longo do dia — um feito que poderia permitir uma melhor pesquisa sobre o funcionamento interno do cérebro. Eles usaram esses dados para ajustar o tratamento de pessoas com doença de Parkinson por meio de estimulação cerebral profunda. É um avanço empolgante, mas alguns pacientes estão preocupados com o que o monitoramento cerebral contínuo em casa significa para a privacidade.

A estimulação cerebral profunda ocorre quando sinais elétricos são enviados periodicamente ao cérebro por meio de eletrodos implantados cirurgicamente que são conectados a um dispositivo, semelhante a um marca-passo, colocado logo abaixo do tórax. Os sinais, controlados pelo dispositivo, devem neutralizar a atividade cerebral errática associada a muitas condições neurológicas ou psiquiátricas, em teoria ajudando a tratar alguns de seus sintomas. Até agora, a estimulação cerebral profunda é conhecida por ajudar as pessoas com Parkinson e outros distúrbios de movimento ou convulsões, mas também está sendo explorada para depressão resistente a tratamentos.

A estimulação cerebral profunda pode ser uma terapia para melhorar a vida de muitos, mas os cientistas vêm tentando aprimorar sua eficácia há algum tempo. Atualmente, por exemplo, podem ser necessárias várias visitas ao hospital para médicos e pacientes ajustarem o nível certo e o tempo de estimulação cerebral profunda para aliviar melhor seus sintomas, com base em leituras de curto prazo de sua atividade cerebral. Mas cientistas da Universidade da Califórnia em San Francisco estão desenvolvendo uma forma ajustável de tratamento, que só envia estímulos quando é necessário, com base em registros em tempo real da atividade cerebral.

Sua última pesquisa, publicada na segunda-feira na Nature Biotechnology, mostra que agora é possível monitorar perfeitamente a atividade cerebral de alguém por longos períodos, mesmo estando em casa, contanto que tenha uma conexão de internet sem fio funcionando por perto.

Os eletrodos implantados transmitem dados para um pequeno dispositivo usado por um paciente. Os dados são então transferidos, sem a necessidade de fios, para um tablet e carregados para a nuvem por meio de um servidor compatível com HIPAA. Ilustração: Starr lab/UCSF

A equipe se baseou em sua pesquisa anterior para criar um novo método de estimulação cerebral profunda. Cinco voluntários com doença de Parkinson foram estimulados com um dispositivo especialmente desenvolvido para se comunicar (por meio de radiofrequências) com outro dispositivo usado externamente. Este aparelho então retransmitia regularmente sua atividade cerebral por Bluetooth para um tablet, e os dados eram carregados para a nuvem onde os pesquisadores podiam monitorá-los.

O servidor em nuvem foi projetado para ser compatível com a Lei de Responsabilidade e Portabilidade de Seguros de Saúde, uma lei federal dos EUA que exige a proteção de informações pessoais de pacientes armazenadas online. Finalmente, essa informação foi usada para ajustar a estimulação cerebral profunda das pessoas, se necessário.

“Este é o primeiro dispositivo que permite o registro sem fio contínuo e direto de todo o sinal do cérebro durante muitas horas”, disse o autor do estudo Phillipp Starr, um pesquisador da UCSF, em um comunicado divulgado pelo National Institutes of Health, que ajudou a financiar o estudo. “Isso significa que somos capazes de monitorar todo o cérebro durante um longo período de tempo, enquanto as pessoas seguem com suas vidas normalmente”.

Por mais importante que essa pesquisa possa ser, os pesquisadores estão cientes dos possíveis desafios éticos que podem surgir com o monitoramento doméstico do cérebro.

“Recebemos pacientes que nos abordaram com preocupações em relação à privacidade”, disse Starr. “Embora não estejamos no ponto em que possamos distinguir comportamentos normais específicos do registro da atividade cerebral, é uma preocupação absolutamente legítima. Dissemos aos pacientes para se sentirem à vontade para remover seus dispositivos vestíveis e desligar suas gravações cerebrais sempre que se envolverem em atividades que gostariam de manter privadas.”

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Se esse trabalho continuar a dar certo, um dia poderá ajudar a identificar biomarcadores cerebrais individuais de um paciente para doenças neurológicas, permitindo um nível mais profundo de personalização do tratamento que deve fornecer melhores resultados. No mínimo, o monitoramento domiciliar poderia validar as medidas iniciais tomadas em um hospital sem causar tantos problemas aos pacientes. E, de forma mais ampla, pode ajudar os cientistas a entender melhor como o cérebro funciona como um todo.