Minha avó implantou um marcapasso. Uma cirurgia dessas, e suas consequências, são aterrorizantes em qualquer idade, mas para ela (com 93 anos) e sua família, é uma corda bamba particularmente estreita para se caminhar. Caso a recuperação fosse um filme dramático, teríamos médicos e enfermeiras sorrindo, proclamando palavras de encorajamento que fariam com que a vida retornasse pouco a pouco ao corpo doente da minha avó. Mas não estávamos em um filme. Nós estamos na era da informação. Enquanto eu e minha família nos acotovelávamos em volta da cama dela, dias após a cirurgia, eu percebi que a minha avó estava preocupada. E eu também.


Este texto foi originalmente publicado como Salvando a Auto Quantificação: como nos conhecemos Agora na edição de inverno da Boom: A Journal of California, e pode ser encontrada na íntegra no JSTOR. Imagem: cada bloco colorido representa a localização de GPS visitada pela artista Laurie Frick no período de 90 dias para o projeto Making Tracks. Cores mais saturados representam visitas mais frequentes a determinado lugar. Cortesia de Laurie Frick.


Minha mãe colocou o dedo da minha avó dentro de um oxímetro portátil para medir sua pressão arterial, frequência cardíaca em repouso e a oxigenação do sangue. Todos passamos pela mesma bateria de testes daquele aparelhinho. Os resultados rápidos e a subsequente conversa sobre os números dos três testes diários a que minha avó era submetida eram reconfortantes. Enquanto a recuperação dela progredia, o pedômetro media quantos passos ela dava por dia e essa informação era ainda mais fortificante: 650 passos um dia, 800 no outro. Era satisfatório imaginá-la andando em círculos no pequeno quintal de sua casa, entre as árvores frutíferas e pedras largas, acompanhando seu próprio progresso. E eu abro um sorriso ao saber que aquela frágil nonagenária estava em sincronia com o zeitgeist.

Em tempos modernos, rastrear a própria trajetória, como faz a minha avó, é um dos modos de satisfazer nossa imensa vontade de saber mais sobre nós mesmos. Nesse novo conceito de autoconhecimento, nós não somos mais a imagem do nosso deus, animais com intelecto, ou máquinas muito bem calibradas; somos campos de informação. Nos conhecer é mineirar, mapear e analisar informações e fazer os ajustes necessários. Nós nos quantificamos usando pedômetros, oxímetros, cronômetros, registros obsessivos e tecnologia cada vez mais sofisticada para rastrear todo pedacinho de informação que nossos corpos, e nós mesmos, podemos colocar para fora. E esses números nos trazem conforto e podem nos dar entendimento real, não só dos nossos ciclos de sono e da quantidade de calorias que ingerimos diariamente, mas daquilo que significa ser, precisamente, quem somos.

Este conceito — que vamos chamar de corpo algorítimo, um corpo feito de dados — está ganhando tração no Vale do Silício, onde grandes nomes estão se ligando a ideias, produtos e serviços que buscam explorar todos os dados que geramos sobre nosso corpo para um sem número de objetivos. Alguns, como as pulseiras de acompanhamento físico da Fitbit ou a companhia de testes genômicos 23andMe buscam armar os usuários com uma quantidade de dados suficiente para que eles possam melhorar sua saúde, vitalidade e, possivelmente, a longevidade. Outros, como Larry Page, cofundador do Google e a companhia dele, a California Life Company (Calico) buscam algo ainda mais grandioso: a imortalidade. Tudo isso nasce da ideia de que o corpo pode ser entendido, e preservado, usando dados — a Auto Quantificação.

Auto Quantificação — ou Quantified Self, um movimento e uma companhia que existem de verdade — foi fundada em 2007 por Kevin Kelly e Gary Wolf, dois editores da revista Wired. Ela promove a ideia que armazenar informações quantificáveis sobre nós mesmos, permite saber, e não supor, quão bem estamos vivendo nossas vidas. Eu estou ingerindo a quantidade correta de calorias para poder perder peso? Quanto tempo eu gasto no Facebook diariamente? Quanto tempo por dia eu passo escrevendo? Ao juntar questões bem elaboradas com o crescente número de aparelhos de automonitoramento, podemos transformar a nebulosa experiência da vida em dados, o que nos dará permissão para intervir de forma muito mais efetiva em possíveis mudanças. As pessoas que se automonitoram acreditam em “auto-conhecimento por meio de número” — uma frase proclamada em letras garrafais no site da Quantified Self. (1) Praticantes se encontram em centenas de cidades pelo mundo, de Nova York, a Milão, Cidade do México, Chennai e Helsinque, para compartilhar e refletir sobre as formas que usam os dados colhidos, para entender e aprimorar a si mesmos.

Os que se automonitoram são bem educados, engajados, pródigos, e, tecnicamente, parte de uma demografia inclinada. Além disso, eles levam essa forma de autorreflexão muito a sério. (2) Alguns fazer apenas por hobby; usam os apps só para capturar os próprios dados. Outros são praticantes que constroem suas próprias ferramentas para compartilhar e vender a uma comunidade maior. Em um recente encontro da Quantified Self, em São Francisco, um apresentador contou como ele conseguiu reduzir a incidência de momentos de tristeza que ele sentia durante o dia registrando alertas em seu monitor de batidas cardíacas. Estes dados permitiram a ele apontar o que causava essas emoções e avaliar como contorná-las de forma efetiva. Ele reduziu este período de tristeza em 23% durante o período em que estudou a si mesmo. (3)

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Por um ano, Laurie Frick monitorou suas atividades um diário. Para transformar os dados em arte, ele procurou pelos padrões que eram orgânicos e ordenados. Imagem: cortesia de Laurie Frick.

As pulseiras de monitoramento de atividades disponíveis no mercado são as ferramentas mais simples para os que se automonitoram, e elas sumarizam a emergente relação entre dados, auto-monitoramento e auto-conhecimento. Estas ricas informações de monitoramento e feedbacks em tempo real dão uma nova percepção do que é o nosso próprio corpo. No trabalho de auto-monitoramento da antropóloga Dawn Nafus, é sugerido que “um indivíduo aprende como sentir o próprio corpo por meio dos dados.” A socióloga Deborah Lupton acredita que os dados de automonitoramento lidam a uma rica e qualificada prática de autorreflexão. Os dados se tornam parte do processo de contar histórias sobre a nossa vida. Lupton argumenta que o auto-monitoramento é narrativo e performático, uma prática que produz e reflete aquilo que estamos nos tornando: “Eu caminho 14 mil passos por dia, logo, sou um pedestre”. (4)

Eu vejo algo além: um corpo algorítmico que emerge neste contínuo projeto de reconstruir a si mesmo por meio de dados. O corpo algorítmico é estabelecido como objeto de vigilância e monitoramento, para servir ao propósito de intervenção, e ele é tão objeto de intervenção quanto nosso corpo físico, e, quem sabe um dia, até mais. Hoje, podemos dizer que tudo, relacionar-se, refletir sobre algo, ou produzir algo, pode ser transformado em dados. Dados são o novo idioma da era biotecnológica e, cada vez mais, a língua do eu.

Ao longo da história, tendências científicas mostraram efeitos profundos nas percepções que temos sobre nós mesmo e o nosso corpo. Por exemplo, na segunda metade do século XIX, o corpo era visto de uma forma mecânica, e não algorítmica, como hoje. O entendimento do corpo floria ao lado da rápida proliferação de tecnologias mecânicas que surgiam na forma industrial, de transporte e médica. Noções corporais focavam em aspectos de eficiência, fatiga, e os ciclos de um sistema fechado. O historiador Anson Rabinbach traça a ideia do motor humano — o corpo como uma máquina —  em relação à Segunda Lei da Termodinâmica, que especifica a regra de conservação de energia.

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No período de 52 semanas, a artista registrou uma série colagens sobre suas caminhadas semanais. Cortesia de Laurie Frick.

A perspectiva do algoritmo vem sendo influenciada pelo crescente interesse em big data e mineração de dados, e é abastecida pelo rápido desenvolvimento de tecnologias de vigilância pessoal, que, ao longo do tempo, constrói dados sobre corpos e vidas humanas. Mas um ramo do corpo algorítmico já tem história: nos trabalhos especulativos sobre longevidade, no transhumanismo, na ideia de transcender a condição humana e na criogenia.


Este texto foi originalmente publicado como Salvando a Auto Quantificação: Como nos conhecemos agora na edição de inverno da Boom: A Journal of California, e pode ser encontrada na íntegra no JSTOR.


1 Você pode acessar o site da Quantified Self aqui.

2 Auto-monitores têm a própria história e legado. Antes da criação do smartphone, eram usados papel e caneta, como Benjamin Franklin usou para fazer seus registros obsessivos de sua vida.

3 O estudo de Paul LaFontaine pode ser lido aqui.

4 Além da auto quantificação: a reflexiva autorreflexão do ser, de Deborah Luptone.