Na semana passada, a Soylent – startup americana que quer substituir as refeições tradicionais – interrompeu as vendas do pó nutritivo Powder 1.6 em meio a relatos de que consumidores estavam passando mal após consumi-lo.

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Duas semanas antes a companhia tinha pausado a venda do seu novo produto, as barras nutritivas Food Bar, depois que o Gizmodo publicou que diversas pessoas estavam tendo náusea, vômito, diarreia incontrolável e desidratação severa após consumir o produto. Alguns consumidores precisaram ir ao pronto-socorro, inclusive.

Ingredientes e fórmulas

Na última quinta-feira, a Soylent fez um post em seu blog oficial e afirmou que enquanto analisavam o que aconteceu com as barras alimentícias “notaram que alguns consumidores (menos de 0.1%) que consumiram o Powder 1.6 nos últimos meses relataram sintomas estomacais parecidos com o que os consumidores da Food Bar descreveram.” Embora a companhia não diga qual ingrediente está causando os problemas, eles limitaram a pesquisa “já que apenas alguns ingredientes são específicos das barras e do pó nutritivo.”

A Soylent se coloca como “open source” – é uma empresa de tecnologia, afinal – o que significa que a lista completa de ingredientes dos seus produtos 1.5 e 1.6 estão disponíveis no seu site. A companhia diz que não recebeu o mesmo tipo de reclamação com os alimentos Soylent 1.5, o que sugere que as diferenças nas suas fórmulas é o que está deixando as pessoas doentes.

Existem muitas diferenças entre os alimentos 1.5 e 1.6 – tantas que é impossível localizar o problema sem mais informações. Dito isso, a maior diferença é o papel que as algas desempenham na fórmula. Desde a criação da companhia, o fundador Rob Rhinehart queria produzir os alimentos usando algas, uma fonte de nutrientes super eficiente. Ele disse ao New Yorker em 2014 que seu objetivo final era “criar um ‘superorganismo’ produtor de Soylent: um único tipo de alga que gera Soylent o dia inteiro. Dessa forma, não precisaríamos de fábricas.”

A diferença entre a Soylent 1.5 e 1.6 mostra como a companhia progrediu no uso das algas. A versão 1.5 tinha apenas 2,2 gramas de alga em pó rico em DHA e era composta majoritariamente de óleo de girassol alto-oléico e óleo de canola em pó com maltodextrina. A versão 1.6 por sua vez, tem 176 gramas de alga e óleo de canola em pó.

Mas as diferenças entre as fórmulas dos dois pós nutritivos não são, necessariamente, as responsáveis pelas barras deixarem as pessoas doentes. O pó da Soylent é open source, mas as barras são bem mais misteriosas. Ainda assim, a companhia disponibiliza as informações nutricionais da Food Bar. A farinha de algas é o quinto ingrediente na lista.

O problema com produtos industrializados

O Gizmodo noticiou os casos relacionados com as barras depois de encontrar muitos posts no Reddit e nos próprios canais da companhia com reclamações sobre desconfortos causados pelo consumo do produto. Inicialmente, a Soylent disse que enfermidade estava acontecendo “com apenas alguns indivíduos” que podem ter “alergia, intolerância ou sensibilidade” a ingredientes como a soja, a sucralose, ou a certas vitaminas e minerais. Porém, depois de receber tantas reclamações, decidiram tomar “uma medida de precaução”, interrompendo as vendas e entregas dos produtos e oferecendo reembolsos.

Além das possíveis reações alérgicas ou das interações entre a combinação dos ingredientes, vale notar que os produtos como as bebidas Soylent e as Food Bars estão suscetíveis a causar doenças, assim como qualquer outro produto que precise de um processo intenso para ser fabricado.

Eric Newguard, cientista especialista em comida com doutorado em Engenharia de Sistemas Biológicos que trabalha atualmente como analista de operações na Raw All Natural Pet Food disse ao Gizmodo que “Toda vez que um produto é manipulado (movido ou processado), há um risco de contaminação microbiana”.

Não está claro onde o pó é produzido, mas as barras são feitas na fábrica Betty Lou’s em McMinnville, Oregon. Existe a possibilidade de haver alguma contaminação por lá. O Gizmodo apontou que muitas das barras que estavam fazendo mal às pessoas tinham o mesmo prazo de validade: 14 de julho de 2017.

O BuzzFeed noticiou que a fábrica Betty Lou’s não passou por inspeção sanitária desde 2014, no entanto, o departamento de agricultura de Oregon confirmou ao Gizmodo que a fábrica passou pelos testes ainda nesse ano. Numa mensagem dirigida aos “valiosos consumidores e clientes” da fábrica enviada ao Gizmodo por uma fonte anônima, a companhia afirma que o caso “não se originou a partir de suas instalações”. A Betty Lou’s afirma também ter passado no teste de qualidade e segurança com “uma pontuação de 100% de conformidade” e que os resultados dessa inspeção será liberado no dia 8 de novembro. A companhia, no entanto, não respondeu nossos diversos contatos nas últimas semanas.

Histórico

Também é importante notar que embora a Soylent seja divulgada como uma substituta de refeições, o governo americano classifica o produto como um suplemento alimentício, o que significa que os produtos são regulados de forma diferente em relação a comida convencional. O site da FDA – agência americana análoga à Anvisa – enfatiza que eles “não são autorizados a analisar a segurança e efetividade de suplementos alimentícios antes deles serem comercializados.” A Soylent afirma que está investigando as causas do problema e que irá compartilhar todas as informações com a FDA. Entramos em contato com a agência para perguntar se estão investigando os incidentes com os produtos.

Esse é apenas o último problema da companhia, que teve informações nutricionais contestadas desde o lançamento da sua primeira bebida em pó em 2013. Essa também não é a primeira vez que a companhia é acusada de ser a causa de problemas de saúde. Apesar do sucesso inicial graças as campanhas publicitárias agressivas que afirma que a Soylent pode substituir a comida, os especialistas não estão convencidos. Joy Dubost, porta-voz da Academy of Nutrition and Dietetics disse ao Time em 2013 que muitos dos benefícios nutricionais vendidos pela Soylent “não eram cientificamente comprovados.”

“A composição do que [Rhinehart] fez não será adequada para a nutrição. Ele fez muitas suposições, o que não acabará sendo sustentável de nenhuma forma para uma certa população ou até mesmo para um indivíduo” disse Dubost.

Quando Brian Merchant da Motherboard visitou a fábrica da companhia em 2013 (a fabricação mudou de lugar desde então), ele viu uma porção de roedores. Ele também relatou que muitas embalagens “estavam infestadas de mofo.” Uma rápida pesquisa por “mofo” no Reddit revela posts de dezenas de pessoas que afirmam ter encontrado mofo em todos os tipos de produtos da Soylent, especialmente nas versões 2.0, que a companhia continua vendendo.

Nós entramos em contato com a Soylent e iremos atualizar a matéria quando tivermos uma resposta.

Imagem: Sam Woolley.