Baixar para ver offline é, talvez, a função mais pedida de serviços de streaming de filmes e programas de TV — enquanto os de música, como o Spotify, já permitem que os usuários baixem as músicas em um dispositivo móvel para ouvi-las offline. No entanto, apesar do Netflix ser o serviço de streaming número um do mercado, o Prime Instant Video, da Amazon, será o primeiro a oferecer dita função. E o Netflix está firme em não oferecer downloads do seu conteúdo para que os usuários possam assisti-los offline em dispositivos móveis, mesmo com a competição seguindo o caminho contrário. Mas por quê?

De acordo com Neil Hunt, diretor de produto no Netflix, os usuários do serviço não saberão lidar com a complexidade que a função traria.

“Eu ainda não acho que está é uma proposta muito atraente”, diz Hunt ao Gizmodo UK durante a IFA 2015, em Berlim, Alemanha.

“Eu acho que é algo que muita gente pede. Veremos se é algo que muitas pessoas irão usar. O Amazon Prime, sem dúvida, adicionará uma complexidade considerável à sua vida — você precisará se lembrar que quer baixar tal coisa. Não vai ser instantâneo, você precisar ter o espaço certo no seu dispositivo, você precisará administrá-lo, e eu não acho que as pessoas queiram fazer isso, nem que valha a pena providenciar este nível de complexidade”.

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O “Paradoxo da Escolha”

De acordo com Hunt, este “Paradoxo de Escolha” pode deixar alguns usuários paralisados, pausando as sessões de horas vendo Netflix sem saber qual passo dar em seguida:

“Uma das coisas que aprendi é que toda vez que você oferece uma escolha, você paralisa alguém que não consegue decidir se é isso que ela quer ou não. Isso pode soar estúpido e interesseiro, mas é, de fato, verdade. É o “Paradoxo da Escolha”, como uma experiência com a geleia — você coloca geleias de morango, damasco e amora preta no supermercado e consegue convencer metade das pessoas passando por elas a experimentá-las e talvez comprar uma delas. Mas quando você decide adicionar limão, laranja, mirtilo e grapefruit, ao inserir estas opções, você não aumenta o número de pessoas escolhendo uma — pelo contrário. As pessoas acabam não escolhendo nada.”

Pode parecer uma desculpa esfarrapada da gigante de streaming, mas experimentos anteriores que adicionaram funções pedidas por usuários aparentemente provaram que até mudanças incrementais podem afastar alguns usuários.

“Toda vez que você adiciona um controle, você reduz o número total de usuários que os usas”, explica Hunt.

“Fizemos um experimento com nossos sistemas de notas de cinco estrelas. Por exemplo; todo mundo disse que precisávamos permitir meia estrela, por que as pessoas realmente queriam pontuar um filme com três estrelas e meia. Então deixamos os gráficos todos iguais, mas passamos a permitir a escolha de uma meia estrela extra, algo bem simples. Tivemos menos 11% de pontuações depois disso! É uma maluquice! Temos vários casos como este”.

Netflix a Bordo

Então, se não teremos downloads offline, o que teremos no futuro do Netflix? Segundo Hunt, é tudo sobre uma robusta opção de streaming, e até mesmo, quem sabe, serviços locais do Netflix em sistemas de transporte público.

“Eu acho que uma proposta muito mais interessante é: será que podemos fazer o serviço de streaming funcionar melhor nos lugares em que as pessoas querem usá-los?”, indaga Hunt.

“Por exemplo, e se pudéssemos colocar todo o conteúdo do Netflix em uma caixa no servidor de um avião, junto do que já oferecemos? Isso, para mim, é algo mais interessante; podemos fazer o Netflix funcionar em um avião, podemos fazê-lo funcionar em um trem e em hotéis? Isso não necessariamente te dá o serviço em todos os lugares, a todo momento. Mas eu acho que se podermos fazer com que esse tipo de coisa funcione bem e seria uma proposta mais interessante do que tentar mudar o comportamento de nossos consumidores”.

Por enquanto, o Netflix está dando as cartas do jogo. Mesmo que a empresa não pretenda seguir o caminho da Amazon até que a tecnologia se prove eficiente, o serviço não fecha as portas para a possibilidade de adicionar funções de download caso isso se torne uma demanda pública (e resulte em uma excelente experiência para a Amazon).

“Eu não acho que seria algo complicado de implementar, mas fazer isso certo tomaria algum tempo”, diz.

“Outra complexidade para a Amazon é que grande parte do conteúdo fornecido por ela não é licenciada para download, então apenas parte do conteúdo poderia ser baixado. Você quer ver algo offline e acaba ficando frustrado ao descobrir que aquilo não está disponível offline. Eu não acho que isso é algo que devemos abordar agora.”

“Eu acho que a Amazon está fazendo uma ótima jogada de marketing, mas não sei dizer se será uma boa experiência para o consumidor. Veremos.”

Cliff Edwards, diretor de comunicações da Netflix afirmou no final do ano passado que download offline para o serviço é algo que “nunca vai acontecer”. Entretanto, Hunt mostrou que essa é uma função que pode, sim, existir em algum momento.  A experiência da Amazon vai mostrar se a coisa toda vale a pena ou  não — e ainda, se os usuários saberão (e irão, de fato) usá-la. Já que, por mais interessante que essa função possa parecer, será que estamos dispostos a deixar este espaço reservado em nossos dispositivos? De qualquer forma, esse “nunca vamos” dito por Edwards talvez deixe de existir em breve. Veremos.