Resultados de pesquisas recentes sugerem que Plutão possui água líquida enterrada de baixo de uma camada congelada da superfície. Mas como algo assim seria possível em um local tão inóspito do sistema solar? Cientistas do Japão e dos Estados Unidos podem ter a resposta.

Em um artigo publicado nesta segunda-feira (20), na revista Nature Geoscience, esses pesquisadores especulam que, talvez, o oceano de Plutão se mantém protegido por uma camada de gás que fica abaixo do gelo. Se essa hipótese se provar verdadeira, então esse mecanismo pode ser o que mantém outros mundos glaciais de congelarem completamente.

“Se esse mecanismo for comum, então os oceanos podem ser comuns em outros grandes objetos [do Cinturão de Kuiper]”, disse o co-autor do estudo Francis Nimmo, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, ao Gizmodo.

O artigo é principalmente uma inferência baseada na combinação de outras evidências. A missão New Horizons passou por Plutão em 2015 e descobriu que ele é bem complexo, geologicamente falando. Em 2016, modelos criados por cientistas sugeriram que a Planície Sputnik, o lado esquerdo do “coração” do planeta anão, poderia ter um oceano subterrâneo, parcialmente líquido, como os das luas glaciais de Júpiter ou Saturno.

É um negócio bem doido de se pensar: algo tão distante e pequeno como Plutão não é um objeto totalmente congelado, e talvez possa ter água de baixo de sua superfície. Os cientistas se questionarem se isso realmente seria possível.

Plutão não possui a energia gravitacional de um planeta enorme e mais próximo para manter ondas e ajudar a aquecer a água. Nem o aquecimento do decaimento radioativo de seus elementos ajudaria a evitar um congelamento completo, de acordo com o novo artigo. E não parece que haja amônia suficiente em Plutão para se dissolver na água e aumentar seu ponto de fusão.

Descartando essas hipóteses, os cientistas propõem que a tal casca de gelo tenha uma camada de tanques de água que mantém alguns gases como o metano preso lá dentro, como se estivesse em uma gaiola. Sem essa camada, o gelo removeria o calor do interior de Plutão.

A camada com “hidrato de clatrato” dessa gaiola de gás teria propriedades térmicas diferentes que diminuiriam a capacidade do gelo de retirar calor da água. E o aprisionamento de metano também explicaria por que os cientistas não observaram a abundância desse elemento na atmosfera de Plutão, disse Nimmo.

O artigo é “bem interessante”, segundo J. Hunter Waite, diretor do Southwest Research Institute, que não estava envolvido nesse estudo. “Entender o papel de processos como a formação de clatrato aumenta a base de conhecimento para a exploração de mundos de oceanos e de seus papéis na formação do sistema solar e evolução e, assim, aumentando nossos horizontes sobre o quê constitui ambientes habitáveis”, disse ele via e-mail.

Mas ele alertou que os cientistas ainda sabem muito pouco sobre a composição geral de Plutão e que é preciso pesquisar outros objetos como cometas e meteoritos para guiar essa hipótese.

É algo interessante, mesmo assim. “Os nossos resultados sugerem que um oceano de longa vida pode existir mesmo sem o aquecimento por ondas, o que é importante para manter oceanos em satélites congelados”, disse o autor principal do estudo, Shunichi Kamata, da Universidade Hokkaido no Japão, ao Gizmodo.

A New Horizons já está muito longe de Plutão e ainda não há uma missão atual que possa verificar a existência desses hidrato de clatrato. Mas Nimmo e Kamata esperam que no futuro alguma missão possa verificar suas descobertas. E talvez exista outros oceanos congelados no sistema solar que se mantêm aquecidos da mesma maneira.