Nesse exato momento, escondido na quadra poliesportiva do ensino médio ou trancado em um quarto esfumaçado, um adolescente muito louco tem certeza de que vai morrer.

Eventualmente, o adolescente se acalmará e provavelmente agradecerá ao amigo por se recusar a chamar uma ambulância quando ele pediu.

Ficar insanamente malucão pela primeira vez – ou ficar mais doidão do que você já esteve antes, através de óleos, comestíveis ou qualquer outra coisa – pode ser uma experiência assustadora. Você se tranquiliza pensando: ninguém nunca teve uma overdose por fumar maconha. Mas espere. Você sabia disso? Não houve exceções? E é possível que você seja um deles

Freneticamente, você pega o smartphone e vai pro Google: “É possível ter uma overdose de maconha?’ – e é trazido aqui para o Giz Pergunta desta semana, no qual vários especialistas em psiquiatria, abuso de substâncias, política e toxicologia dão sua opinião sobre essa pergunta.

O veredicto, se você estiver louco demais para ler tudo: quase certamente vai ficar tudo bem.

Ryan Gregory Vandrey

Professor Associado de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Johns Hopkins Medicine, cuja pesquisa se concentra na farmacologia comportamental humana da Cannabis, entre outras coisas

A resposta curta é sim, você pode ter uma overdose de maconha. A questão é essa. Uma overdose não significa necessariamente morte. Na minha perspectiva, uma overdose significa várias coisas diferentes. Em um caso, significa que você toma uma dose maior do que pode tolerar ou do que pretendia e, como resultado, sofre efeitos adversos indesejados. Como existe uma variedade tão grande no conteúdo químico dos produtos de cannabis, por existirem tantas formulações e vias de administração diferentes você pode ter taxas diferenciais de absorção da substância, e porque a rotulagem do produto pode estar incorreta, não é incomum nem mesmo para usuários experientes de cannabis receberem uma dose muito grande e experimentarem náusea/vômito, paranóia, ansiedade, tontura, comprometimento cognitivo ou outros eventos adversos após o uso de cannabis que não seriam típicos ou esperados.

Outro exemplo de overdose são os efeitos adversos resultantes da contaminação do produto. No mundo dos opióides, quando alguém compra o que acha que é heroína, mas recebe fentanil e para de respirar depois de usar esse produto, chamamos isso de overdose. No mundo da cannabis, existem exemplos de pessoas que compram o que acham que é maconha ou um produto de cânhamo/CBD, e está contaminado com canabinóides sintéticos de alta potência, solventes residuais do processo de extração ou outros contaminantes que causam diretamente graves conseqüências à saúde. Eu chamo isso de overdose de cannabis.

O outro cenário é quando indivíduos com uma condição de saúde preexistente ou com uma composição genética incomum respondem atipicamente à cannabis e sofrem graves consequências adversas.

Existem casos em que indivíduos jovens e saudáveis, com poucos outros fatores de risco, experimentam eventos cardiovasculares sérios, como infarto do miocárdio, logo após o uso de cannabis, ou experimentam um episódio psicótico agudo após uma dose aguda de cannabis.

Essas reações não são comuns ou típicas à maconha, mas há um número crescente de relatos de casos em que parece que a maconha é a causa provável desses eventos em um subconjunto da população e, em alguns casos, o resultado é a morte do indivíduo. Eu sei que existe uma sabedoria popular muito bem aceita que “você não pode ter overdose de maconha”, o que significa que o uso de maconha não pode matá-lo da mesma maneira que o uso de cocaína, heroína ou álcool.

Na minha perspectiva, é muito improvável que o uso de maconha contribua diretamente para a morte, mas é possível. Eu também acredito que a maioria dos usuários de maconha já experimentou uma overdose, o que significa que eles tiveram uma experiência em que estavam “muito loucos” e o efeito da droga foi inesperado e desagradável. Dentro desse domínio, existe uma ampla gama de gravidade desse tipo de experiência e, na maioria dos casos, é de curta duração e não é clinicamente importante. Em um subconjunto de indivíduos, no entanto, o resultado de uma overdose de maconha pode ter consequências negativas substanciais e não há como prever com antecedência de forma confiável para quem ou quando essas experiências vão ocorrer. Existem diferenças claras na probabilidade e gravidade de sofrer uma overdose do uso de cannabis em comparação com muitas outras drogas (o fator de risco favorece a cannabis na maioria dos casos), mas é tolice acreditar que o uso de cannabis é benigno e não pode resultar em uma overdose.

“A resposta curta é sim, você pode ter uma overdose de maconha. A questão é essa. Uma overdose não significa necessariamente a morte”.

Chelsea Shover

Epidemiologista e pesquisadora de pós-doutorado em psiquiatria e ciências do comportamento da Universidade de Stanford

A maconha não tem essencialmente nenhum risco de overdose fatal, mas é possível uma overdose não fatal. A ingestão de maconha pode levar a graves consequências para a saúde de crianças e bebês.

Para adolescentes e adultos, uma overdose pode parecer uma versão mais grave (e desagradável) da intoxicação usual/desejada da maconha. Os sintomas podem incluir confusão, paranóia, ansiedade, pânico, batimento cardíaco acelerado, delírios, alucinações, aumento da pressão arterial e náusea ou vômito. Isso pode levar as pessoas à sala de emergência, causar ferimentos não intencionais ou simplesmente causar uma péssima noite.

“Os sintomas podem incluir confusão, paranóia, ansiedade, pânico, ritmo cardíaco acelerado, delírios, alucinações, aumento da pressão arterial, e náuseas ou vômitos”.

Wayne Hall

Professor  Centro para o Abuso de Substâncias na Juventude, da Universidade de Queensland, Austrália

A visão convencional (que expressei publicamente) é que a maconha não causa uma overdose fatal. Essa afirmação ainda é verdadeira se o mecanismo que causa a morte é depressão respiratória e provavelmente ainda é verdadeira se a forma de cannabis for de cannabis de ervas com menor teor de THC.

Atualmente, é preciso ser mais cauteloso ao afirmar que a maconha não pode produzir overdose pelas seguintes razões principais(1) relatos de mortes por doenças cardiovasculares em usuários pesados ​​de maconha… o que aumenta a possibilidade de que altas doses de THC possam causar mortes (provavelmente em pessoas com risco aumentado de doenças cardiovasculares); (2) o aumento da cannabis super potente com concentração de THC maior que 70% que, se fumado em cachimbos ou cigarros, pode ampliar esses riscos cardiovasculares; e (3) relatos de casos de mortes em pessoas que usam potentes canabinóides sintéticos, ou seja, drogas sintéticas que atuam nos mesmos receptores canabinóides do THC.

O meu palpite é que esses tipos de morte são raros, mas seria imprudente continuar afirmando (como costumam fazer os canabinófilos) que é impossível ter overdose de cannabis.

Há outro sentido em que as pessoas podem e chegam a sofrer uma overdose de cannabis, ou seja, quando recebem doses de THC maiores do que pretendiam resultando em uma procura por ajuda, geralmente em um pronto-socorro médico. Esse tipo de overdose não é fatal. Elas envolvem usuários que receberam grandes doses de THC que produzem experiências angustiantes (por exemplo, ansiedade intensa ou angústia, sintomas psicóticos ou vômito compulsivo).

A frequência desse tipo de overdose em prontos-socorros aumentou desde a legalização da maconha no Colorado, nos EUA. Eles me parecem mais comuns quando as pessoas usam comestíveis de maconha porque é mais difícil dosar o THC quando a maconha é usada por essa via.

“Meu palpite é que esses tipos de morte são raros, mas seria imprudente continuar afirmando que é impossível ter uma overdose de maconha.

Steve Rolles

Analista de políticas sênior da Transform Drug Policy Foundation

Em termos de overdose fatal ou potencialmente fatal – não é possível, simplesmente porque a dose fatal de THC é mais do que uma pessoa consegue realmente consumir. Você pode ficar extremamente doente, acabar no hospital e passar muito mal, mas, a menos que você tenha algum outra condição, como um problema cardíaco ou faça algo estúpido como dirigir, a morte é excepcionalmente improvável.

As estimativas mais baixas, baseadas nos terríveis testes LD50 feitos em animais, sugerem que consumir e absorver mais de 50 gramas de THC puro atingiria uma taxa de letalidade de 50% para um homem adulto – mas outras estimativas são muito mais altas. Você não pode, de maneira viável, fumar essa quantidade – embora algumas pessoas possam dar o melhor de si e seria difícil consumi-lo com comestíveis convencionais; você provavelmente atingiria um nível fatal de consumo de açúcar ou sal antes de chegar no nível letal de THC. Se você estivesse realmente determinado, poderia injetar THC farmacêutico suficiente para matar uma pessoa, mas esse é um cenário improvável para qualquer pessoa, muito menos para a maioria dos usuários sociais.

Se a overdose é mais amplamente caracterizada como consumir mais do que o pretendido ou experimentar efeitos desagradáveis, negativos ou adversos, mesmo que temporários, então sim, é absolutamente possível e bastante comum. Controlar a dosagem é obviamente a chave.

Esse tipo de overdose de eventos adversos é mais provável se você é um usuário iniciante ou menos regular e se usa cannabis mais forte, especialmente concentrados, pois eles fornecem uma dose mais alta por inalação, tornando a dosagem mais difícil de controlar. Os produtos comestíveis são mais frequentemente associados a esses eventos adversos, especialmente para usuários iniciantes, pois o início lento significa que a regulação precisa da dosagem é difícil e imprevisível. Produtos mal controlados ou mal rotulados podem obviamente aumentar os riscos.

Para evitar todos os riscos, não use nada. Para reduzir riscos, saiba o que está consumindo e use moderadamente em um ambiente seguro. Com o consumo de comestíveis, use uma pequena quantidade primeiro e a deixe agir por pelo menos duas horas antes de considerar tomar mais.

“Você pode ficar extremamente doente, acabar no hospital e passar um tempo terrível, mas, a menos que você tenha alguma outra vulnerabilidade à saúde, como um problema cardíaco ou faça algo estúpido como dirigir, a morte é excepcionalmente improvável”.

Jonathan P Caulkins

Professor de Pesquisa e política de operações da Universidade Carnegie Mellon e co-editor do livro Marijuana Legalization: What Everyone Needs to Know [Legalização da Maconha: O que todos precisam saber]

Se alguém pode ter uma overdose de maconha depende da definição da palavra overdose. Se overdose significa consequências adversas agudas à saúde por consumir demais, então certamente. Não há dúvida de que a maconha pode fazer isso.

Se alguém quer dizer mais estritamente a morte pelo mesmo mecanismo fisiológico envolvido na overdose de opióides (respiração reprimida etc.), então não, não é assim que os canabinóides funcionam.

Se alguém significa morte por qualquer mecanismo, a resposta é difícil, mas parece ser possível, porém apenas em circunstâncias muito raras. Existem estudos de caso de mortes relacionadas à cannabis por meio de pelo menos três mecanismos: (1) taquicardia, (2) desmaio após fumar e bater a cabeça e (3) episódios psicóticos que induzem suicídio. Mas mesmo aqueles que pensam que essas mortes podem ser causalmente atribuídas à grande dose de cannabis reconhecem que são eventos muito raros.

“Se overdose significa consequências adversas agudas à saúde por consumir demais, então certamente”.

Paul Armentano

Professor de Ciências, Universidade de Oaksterdam e diretor adjunto da Organização Nacional para a Reforma das Leis da Maconha (NORML)

Ao contrário de opioides e álcool, canabinóides não são depressores do sistema nervoso central e são incapazes de causar overdose letal – independentemente da quantidade ou potência.

O Instituto Nacional do Câncer declara: “Como os receptores canabinóides, diferentemente dos receptores opióides, não estão localizados nas áreas do tronco cerebral que controlam a respiração, não ocorrem overdoses letais de cannabis e canabinóides”.

Uma publicação de 2017 da DEA (Drug Enforcement Administration) afirma: “Nenhuma morte de foi relatada por overdose de maconha”. Por essas razões, o juiz de direito administrativo da DEA determinou certa vez:“ A maconha, em sua forma natural, é uma das substâncias terapeuticamente ativas mais seguras conhecidas pelo homem”.

“ Ao contrário dos opioides e álcool, os canabinóides são não depressores do sistema nervoso central e são incapazes de causar overdose letal – independentemente da quantidade ou potência.”

Keith Humphreys

Professor de Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Universidade de Stanford e ex-conselheiro sênior de políticas do Escritório Nacional de Políticas de Controle de Drogas da Casa Branca sob a administração Obama

Overdoses não fatais (mais apropriadamente “intoxicações por drogas”) acontecem o tempo todo com cannabis e seus produtos – geralmente se apresenta no pronto-socorro como um ataque de pânico ou, às vezes, como um episódio psicótico em que a pessoa perdeu temporariamente o contato com a realidade. Mas nunca vi evidências convincentes de uma overdose fatal de maconha. Talvez seja remotamente possível, mas é remotamente possível ser morto por um meteorito caindo do espaço também e eu não sugeriria que alguém passasse tempo algum se preocupando com isso.

“Overdoses não fatais (mais apropriadamente“intoxicações por drogas”) acontecem o tempo todo com produtos de maconha – geralmente se apresentam no pronto-socorro como um ataque de pânico ou, às vezes, como um episódio psicótico em que a pessoa perdeu temporariamente o contato com a realidade”.

Dazhe Cao

Professor Assistente de Medicina de Emergência e Diretor do Programa de Toxicologia Médica no UT Southwestern Medical Center e Diretor Médico do Serviço de Toxicologia do Parkland Health and Hospital System

Para responder à pergunta sobre se você pode ou não ter uma overdose de maconha, é preciso esclarecer a terminologia.

A maconha descreve o material vegetal seco da Cannabis sativa. O uso recreativo da maconha e de outros produtos derivados da cannabis resulta das propriedades psicoativas do Δ9-tetra-hidrocanabinol (THC).

Na última década, as concentrações de THC na maconha e em outros produtos de maconha aumentaram dramaticamente.Chandra et al descobriram que a concentração de THC da maconha nos EUA aumentou de uma média de 6% em 2008 para 9,4% em 2017. Simultaneamente, a concentração de THC de sinsemilla (um método especializado em cultivo de Cannabis sp.)

Aumentou de uma média de 11,5% para 17,8%, e o óleo de haxixe (concentrados de THC) aumentou de uma média de 6,7% para 55,7%. Além disso, o desvio padrão em torno da média de 55,7% em óleo de haxixe foi de 24,7%. Vimos concentrados de quase 100% de THC. Um dos ditados da toxicologia médica é “a dose produz o veneno”. Com relação ao tipo de produto de cannabis usado, não se deve comparar o risco de overdose de 9% de maconha com o de 100% de óleo de THC.

O segundo ponto de esclarecimento gira em torno da palavra “overdose”. Efeitos adversos ou não intencionais do uso agudo de cannabis são comuns.

Dos 253 casos de exposição aguda à cannabis relatados ao Oregon Poison Center de dezembro de 2015 a abril de 2017, apenas 16 (6,3%) casos permanecem explicitamente assintomáticos ou 93,7% dos casos foram “overdose” de cannabis. Embora a porcentagem de casos não possa ser generalizada para o público, a maioria dos quais obtém os efeitos eufóricos pretendidos do THC, podemos ver que as pessoas podem ter efeitos não intencionais do uso de cannabis. No entanto, quando se usa a palavra “overdose” para significar fatalidade, a morte resultante da exposição aguda isolada à cannabis é rara.

Casos de mortes relacionadas à cannabis foram relatados na literatura médica — um caso pediátrico de possível miocardite associada à cannabis, uma morte traumática e inúmeras mortes cardiovasculares. Normalmente, a morte associada ao uso de cannabis envolve outros fatores preexistentes, como trauma ou doença cardiovascular escondida. Em crianças, a depressão respiratória. Em comparação com a depressão respiratória dos opióides como heroína, o risco de exposição à cannabis é muito menor.

Em resumo, é possível ter uma overdose de produtos de maconha, mas o risco de morte pelo uso isolado de maconha é baixo, especialmente devido à maconha com “menor” concentração de THC.

“Na última década, as concentrações de THC na maconha e em outros produtos de cannabis aumentaram dramaticamente.”

April D. Thames

Professora Associada de Psicologia e Diretora do Laboratório de Neurociência Social em Psicologia da Saúde do USC Dornsife

A idéia de overdose fatal não foi apoiada em contextos clínicos, assim como na literatura científica. Há casos em que as pessoas usam maconha em excesso, que sabemos que podem resultar em paranóia, confusão e batimentos cardíacos acelerados. Se alguém tivesse uma condição física preexistente, como problemas cardiovasculares, e ingerisse uma alta dose de maconha, é concebível que eles pudessem experimentar uma overdose fatal – mas isso é no contexto de uma doença física preexistente. Mas o risco de overdose fatal na forma como pensamos sobre isso com outras drogas – não há evidências suficientes para apoiar isso.

Dito isto, com a legalização e a popularidade dos produtos comestíveis, tem havido cada vez mais casos de pessoas que comparecem ao pronto-socorro com esses sintomas, nos quais podem relatar que sentem que estão morrendo, mas não estão realmente sofrendo uma overdose fatal

Estudo os efeitos cognitivos da maconha em pessoas que são usuários pesados ​​por muitos e muitos anos. São pessoas que começaram muito jovens – sua idade de início era pré-adolescente ou na adolescência e usaram muito ao longo da vida. Com esses usuários específicos, vemos algumas deficiências em certas áreas cognitivas. Mas para alguém que decide experimentar a maconha pela primeira vez, ou mesmo um usuário recreativo, que usa de vez em quando, normalmente qualquer efeito cognitivo irá voltar assim que a droga estiver fora de seu sistema.

Definitivamente, é preciso haver mais pesquisas nessa área, porque agora temos muitas concentrações e variedades diferentes, o que torna muito difícil saber quais são os efeitos a longo prazo, principalmente no THC, o ingrediente psicoativo que tende a ser associado a mais consequências adversas (enquanto o canabidiol, ou CBD, tem um efeito mais sedativo e, na verdade, em alguns estudos demonstrou trazer benefícios ao sistema imunológico).

“Se alguém tivesse uma condição física pré-existente, como problemas cardiovasculares, e ingerisse uma alta dose de maconha, é possível que eles sofram uma overdose fatal – mas isso é no contexto de uma doença física pré-existente

Karen Corsi

Professora Associada em Psiquiatria da Universidade do Colorado

A questão de saber se se pode exagerar na dose de maconha surgiu em muitos fóruns acadêmicos e leigos recentemente devido a mudanças nas políticas de maconha em muitos estados dos Estados Unidos  e, assim, um aumento da participação correspondente e consumo de maconha.

Que eu saiba, não houve casos em que uma pessoa tenha realmente morrido pelo consumo excessivo de maconha sozinha.

A definição típica de overdose leva a pensar na morte por overdose de opiáceos ou outras situações extremas de emergência em que uma pessoa precisa de medidas médicas para sobreviver ao evento. Isso simplesmente não acontece com a maconha. Embora seja possível alguém consumir muita maconha e sofrer efeitos nocivos à saúde, como paranóia, alucinações e, em alguns casos, sintomas psicóticos, entre outros, não há ameaça de morte apenas pelo consumo de maconha. O tratamento para o consumo excessivo de maconha é simplesmente esperar até que os efeitos diminuam, o que pode levar algumas horas. E embora essa situação de consumir muita maconha possa ser muito desconfortável emocionalmente e até fisicamente, não há um risco físico correspondente de morte.

“O tratamento para o consumo excessivo de maconha é simplesmente esperar até que os efeitos diminuam, o que pode levar algumas horas”.

Matthew Fadus

Residente em Psiquiatria Geral da Universidade de Medicina da Carolina do Sul

As mudanças legais em andamento e a aceitação e tolerância mais amplas do uso de cannabis levaram para mais e mais perguntas relacionadas ao uso de maconha e este é certamente uma delas.

O uso de cannabis se tornou tão comum e tolerado e, portanto, esperamos uma taxa muito maior de suspeitas de overdoses, o que felizmente não foi o caso. A cannabis não é algo que pensamos ter um mecanismo que pode levar diretamente à morte como resultado de uma dose muito alta. Mas também é importante definir o termo “overdose”. Na psiquiatria, muitas vezes pensamos em “overdose” como uma tentativa intencional de acabar com a própria vida, enquanto outros podem enxergar como um resultado indesejado ou uso excessivo ou perigoso.

Dito isso, certamente há efeitos problemáticos do uso excessivo de cannabis ou do uso de variedades mais fortes de cannabis. Os mais preocupantes que vemos na psiquiatria incluem episódios psicóticos que podem ser bastante angustiantes, incluindo paranóia e alucinações auditivas e visuais. Existem outros efeitos adversos mais comuns do uso de cannabis, que podem incluir náusea, vômito, dor de cabeça, problemas de memória etc., no entanto, de maneira alguma são necessariamente perigosos em termos de potencial de overdose.

As substâncias mais comuns relacionadas à overdose (se a definirmos com a intenção de prejudicar a si mesmo) seriam os opióides (oxicodona, também conhecida como Oxycontin e heroína), porque levam a sedação excessiva e suprimem as partes do cérebro responsáveis pela respiração. Os opioides podem ser particularmente perigosos em termos de overdose quando combinados com outros medicamentos sedativos que podem reduzir nosso impulso respiratório, como medicamentos benzodiazepínicos (por exemplo, alprazolam e clonazepam). Outras substâncias, como drogas estimulantes (por exemplo, cocaína), podem causar a morte, interrompendo a atividade elétrica do coração ou limitando o fluxo sanguíneo e a função do coração. O uso de cocaína causa uma liberação maciça dos produtos químicos de “luta ou fuga” do corpo, que podem causar arritmias significativas no coração.

Felizmente, os efeitos da cannabis não levam à supressão respiratória, como os opióides, nem são relacionados aos efeitos cardiotóxicos da cocaína. No entanto, muitas pessoas podem tentar e, infelizmente, ser bem-sucedidas em sua overdose intencional com mais de uma substância (isto é, o suicídio usando cannabis e opióides), o que pode confundir o problema. É geralmente aceito que, embora o uso de maconha possa se tornar problemático e levar a efeitos adversos em altas doses e frequências, não há preocupação com a morte por overdose diretamente relacionada ao uso de maconha.

“Certamente há efeitos problemáticos do uso excessivo de cannabis ou de variedades mais fortes de cannabis. Os mais preocupantes que vemos na psiquiatria incluem episódios psicóticos que podem ser bastante angustiantes, incluindo paranóia e alucinações auditivas e visuais”

Sharon Levy

Diretora do Programa de Uso e Dependência Adolescente de Substâncias do Hospital Infantil de Boston

Sim, você pode ter overdose de maconha. Relatos de sedação excessiva e depressão respiratória secundária à ingestão de maconha foram relatados em crianças pequenas que consumiram quantidades muito grandes de THC em relação ao tamanho do corpo. É menos provável que isso ocorra em adultos. Houve casos de crianças internadas em unidades de terapia intensiva, mas que eu saiba, nenhuma morte foi relatada.

Uma overdose não letal de maconha, resultando em um estado mental agudamente alterado é bastante comum e está mais intimamente associada ao consumo de comestíveis. Houve mortes acidentais relacionadas a esse fenômeno, embora a maconha em si não seja a causa imediata da morte. Uma publicação recente nos Annals of Internal Medicine analisou as taxas de casos de usuários de maconha comestível e pode ser interessante em responder sua pergunta. Na minha prática clínica, ouço sobre “saídas verdes” – essencialmente consumir maconha suficiente para resultar em neurotoxicidade aguda, causando perda de memória – regularmente. Esse fenômeno está “fora do radar” porque os usuários geralmente não se apresentam ao departamento de emergência e, portanto, não há bons dados sobre o quão comum é. Embora esses eventos sejam muito menos letais que a overdose de opióides, eles não são nada benignos.

“A overdose não letal de maconha, resultando em um estado mental agudamente alterado, é bastante comum e está mais intimamente associada ao consumo de comestíveis”.